
Hoje em dia confunde-se bastante imaturidade com irresponsabilidade, promiscuidade com leviandade, e a verdade anda de mãos dadas com a mentira, ao ponto de já nem sabermos distinguir uma coisa de outra.
A verdade é que as pessoas escondem-se atrás de frases feitas tais como "tenho medo da entrega, da vulnerabilidade que existe numa relação"quando, na verdade, o que se esconde é o medo de ter de enfrentar a parte assustadoramente real que existe numa relação. Como diria um amigo meu, "as cuecas sujas no meio do chão" (Cadete dixit). Quem normalmente proclama que já sofreu muito por amor e reafirma que tem medo de voltar àquele lugar, nega as afirmações anteriores. Diz que isto é treta. A perda da independência, a perda do "seu espaço", o medo (pavor, aliás) da partilha das horas e do tempo escondem muitas vezes, um egoísmo natural de quem ainda não está preparado para enfrentar as tais responsabilidades e imperfeições do mundo real (as cuecas, portanto), e são uma boa desculpa para a manutenção dos ponteiros do relógio numa equação de vida que se quer jovem, bonita e leve.
É natural que presentemente, em pleno século XXI, já todos vivemos concerteza uma grande história de amor que correu mal. Sejamos francos: correu mal... mas passamos à frente. Já ninguém vive vidas quebradas ou estilhaçadas ou interrompidas, e a reputação de uma mulher não fica manchada para sempre, porque teve um namorado e aquilo correu mal. Sim, somos modernos, trintões, solteiros e recusamo-nos a viver aquilo que os nossos pais na geração de 60 ou 70 viveram. Vinte anos depois divorciavam-se e é talvez nessa altura que se dá o fim do medo da ruptura. Hoje em dia já não sofremos rupturas em que o peso da dor era tantas vezes suplantado pelo peso da derrota social. E portanto o nosso medo em acabar uma relação ou ver a nossa relação chegar ao fim é mais baseada na dor que sentimos por ver alguém que amamos partir do que propriamente as convenções sociais e o medo de "ficar para tio/a". É "fácil" acabar uma relação e digo "fácil" porque nunca o é. Depois há a separação lógica dos termos "relação" e "caso", pois mais são os "casos" do que as "relações" (ditas sérias).
Conclusão de tudo isto: amar alguém e ter uma relação, viver com essa pessoa nunca foi, nem será, fácil. É um desafio que não está ao alcance de todos, conseguir manter a tal chama acesa. É uma questão de timming, cada hora e cada minuto. Por vezes convencemo-nos de que se já fomos capazes e falhámos, é porque algo está errado connosco, quando na verdade pode ter sido apenas um mau passo, e não era aquela a pessoa que nos completa, nos faz felizes. Ou não. Pode bem ser o sinal, que se não conseguimos ultrapassar a barreira do "tal medo, do pavor" de partilha, é porque talvez a vida não tenha de passar por aí, e somos felizes de outra forma. Sozinhos.
Penso que já é tempo de deixarmo-nos de ilusões e também de preconceitos. Provavelmente quando se tem trinta(s) e não se encontrou ninguém à altura do tal desafio, não há que desesperar. Nem que esperar ("pode ser que seja aos 40..."). Sinceramente, acho que se pensa demais NO problema e menos nas causas DO problema, que é aquilo que cada um de nós é no seu percurso de vida e o que quer realmente nesse percurso. Aparentemente, podemos encontrar imensas pessoas compatíveis connosco, a nível cultural ou sexual, mas as exigências do novo século e dos estilos de vida agitados pedem-nos algo parecido com a perfeição. Idealiza-se a pessoa perfeita que deve estar ao nosso lado. A perfeição não existe, porque ninguém é perfeito e o ser humano muda todos os dias. Mas pode haver perfeição dentro da imperfeição. Há que saber viver aquilo que é uma aprendizagem que se constrói com os erros e cabeçadas que se vão dando. Saber aceitar o que se é e aceitar os defeitos dos outros. Saber aquilo que se é e para onde se vai. Muita gente encontra o amor aos 40, aos 50 e aos 60... e por aí fora, na constância de uma vida que se quer plena, com os seus altos e baixos e sonhos a cada etapa.
