::diário de bordo, manual de sobrevivência, feito de teorias da conspiração, ideias parvas, conceitos, preconceitos, provocações, alucinações, livro de "receitas" pseudo-afrodisíacas, ora picantes ora agridoces, de alguém que vive num país assim a dar para o esquisito, a que alguém chamou um dia Portugal::


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Os Sótãos Furados ou Crónica da Minha Infância

Gostava de ter mais tempo para escrever mais, aqui no Blog.
Gostava de não ter de escrever apenas quando estou doente (como hoje), ou quando tiro um bocadinho a meio do dia ou da tarde, no trabalho, para ler Blogs dos quais tenho saudades.
Gostava que houvesse mais qualquer coisa que não o portátil e os Blogs (os livros e os filmes dão-me sono) para fazer quando estou doente, porque caio sempre na asneira de escrever coisas como a que vou escrever, coisas que me levam a mundos já perdidos, e que me dão ideias meio parvas como esta: encontrar um livro.

Nunca vos aconteceu estarem na casa-de-banho (ou noutro sítio qualquer, a mim por acaso é na casa-de-banho) e lembrarem-se de algo ou de alguém que não vêem há muito tempo, e que a Internet se calhar até era um bom meio para alcançarem esse fim, o de encontrarem o que pretendem encontrar? Pois, a última vez que o fiz, foi por causa da minha pasta de estudante, a qual perdi há já uns bons pares de anos, e resolvi escrever um mail a todos os meus contactos, com a descrição da dita pasta. Era uma boa pasta, uma pasta respeitável, que teria lá dentro rascunhos de cartas de amor (muitas, mesmo, e triste e patética e irremediavelmente a vários destinatários), listas de supermercado e restos de pastilhas elásticas que sempre aceito mas não mastigo porque não gosto de pastilhas elásticas. Para além disso, postais velhos, algumas fotocópias e as fitas assinadas. Só uma estúpida como eu perde a pasta de estudante e só uma estúpida como eu escreve um mail a descrever a pasta que perdeu. Conclusão: fui gozada por muito boa gente (os tais "amigos") e fiquei na mesma, ou seja, sem pasta.

Hoje, com a doença, uma tarde inteira disponível, por minha conta, sozinha em casa, bateu-me esta espécie de nostalgia. Como sou uma perfeita anormal da info-exclusão e percebo pouco ou nada de computadores ou de encontrar alguma coisa pela net, na vaga esperança de que a cara-metade me pudesse fazer uma surpresa pelo Natal (pois percebe mais disto do que de outra coisa qualquer), falei-lhe no meu livro preferido de SEMPRE, que li vezes sem conta: Os Sótãos Furados.




Devo ter lido este livro umas quatro ou cinco vezes, e confesso não me lembrar muito bem de como foi a mítica "primeira vez". Sempre que saía da escola, lá ía eu à Biblioteca Municipal da cidade, escolher um ou outro livro para ler, ou na própria biblioteca, ou requisitava para ler em casa. Actualmente a biblioteca já não existe como biblioteca, mas como Arquivo Histórico. Devo tê-lo escolhido, no alto da minha sapiência de sete ou oito anos, pela capa, pelas cores da capa, que continuo a achar deliciosa. A história consiste, basicamente, em dois irmãos que vivem num bairro e que se costumam refugiar no sótão do seu prédio. Um dia, acontece um acidente qualquer em que furam o sótão do prédio vizinho e fazem um amigo. Algum tempo depois, as crianças acabam por furar todos os sótãos daquele bairro, perfazendo um grupo inesquecível. No fim de todos os sótãos, está uma surpresa e um amigo muito especial.
Ora isto em meados de anos oitenta, para uma miúda de uma cidade pequena, que vive numa zona em que existem muitos sótãos, era obra! A imaginação fértil da pequena Ana levava-a para um sótão em que possivelmente iria descobrir uma amiga nova ou um grupinho de novos amiguinhos. Mesmo à noite, no meio dos barulhos da noite, das árvores, do vento, da chuva, dos pássaros, lá ía eu para um sótão que acabou por sempre se tornar o meu melhor amigo, o meu confidente, onde escrevia o meu diário (sempre tive diários, muito antes de haver blogs), onde escrevia poemas, onde desenhava, onde pintava, onde cheguei a riscar o chão todo com lápis de cera e tapei a obra-prima com um tapete. Este sótão sempre foi o "meu mundo", um lugar mágico onde os meus pais raras vezes subiam. Curiosamente, o sótão continua a ser meu, mesmo já não vivendo em casa dos meus pais. É lá que mais gosto de estar, é lá que ainda tenho quase todas as telas, todas as fotografias, todos os desenhos e todos os diários, o meu cavalete, o meu estirador, as minhas memórias de infância, a minha velhinha aparelhagem.

Talvez por isso, este livro é parte de mim, o livro que mais vezes li em toda a minha vida. Nem sei quem é a sua autora, mas a ela agradeço parte do meu imaginário infantil. Talvez sem este livro, o meu sótão não fosse ainda tão MEU.


Para quem quiser saber, seria uma excelente prenda de Natal.


P.S.: eu avisei que o post era meio idiota. lol


A melhor série de sempre desde House M.D.: Dexter





Para começar, tem o melhor genérico de sempre.
A seguir, tem uma fotografia de EXCELENTE qualidade. Impecável.
É de uma cadência saudável e ritmada, ou seja, é convidativa a ser desfrutada com calma, com tempo. Dexter dá-nos tempo suficiente para pensar no que estamos a ver, e cada temporada é um todo bem marcado. Existe um objectivo, existe um propósito, nada é deixado ao acaso. Nota-se que é uma série feita com algum "amor". Não existem peças soltas, não existe desleixo, é metódica, tal como a personagem.

Tem uma particularidade única em relação a outras séries: é subversiva, ainda que não declaradamente. Sim, a personagem de House também é subversiva, mas pensemos bem: existirá algum médico com a genialidade de House? Existirá alguém assim tão brilhante, e ao mesmo tempo tão cheio de peculiaridades, tão desprezível como House? Existirá algum médico anti-herói, de ego tão grande a ponto de se comparar a Deus, que afirme que faz o que faz apenas pela ciência? Eu acho que não. Aliás, tenho quase a certeza. É irreal, e ao fim de algum tempo, aquela personagem cansa um pouco. Confesso-me cansada de House. Mesmo depois de sair da ala psiquiátrica do Hospital. Mas basta de House, foquemo-nos em Dexter. Uma personagem que desejamos não existir, mas que ao mesmo tempo desejamos que existisse. No fim, alguém que sabemos poder existir, mas bem longe de nós. Confunde-nos. Afinal, quem é Dexter Morgan? Um analista forense, um perito em sangue, no tratamento de crimes passionais (ou não), alguém que sabe o efeito de um salpico de sangue de uma perna quando retalhado por uma lâmina ou uma moto-serra eléctrica, alguém que sabe o quão terrível pode ser a mente criminosa, ou não tivesse ele... uma mente criminosa. Sim, é um psicopata que nos faz ter simpatia por um psicopata, daí a subversão. Simpatia, sim, simpatia a sério, gostamos dele, achamo-lo um justiceiro, alguém de quem teríamos medo, se não conhecêssemos a sua história. Porquê um justiceiro? O rótulo é-se-lhe colado pela nossa sempre presente necessidade de justificar tudo o que é mau, e que queremos fazer parecer bom. Dexter mata, mas não à toa: ele mata criminosos, ele limpa Miami dos homicidas que fugiram à Justiça, ele corrige os erros que o Sistema não conseguiu eliminar da sociedade. A verdade é que existe uma verdade por trás do código de conduta de Dexter: ele tem realmente uma necessidade de matar. Ponto. Um serial killer, como aqueles que vemos noutras séries (Criminal Minds ou Profiler) e que não nos detemos a achar que são doentes mentais, peças dispensáveis na sociedade.

Esta série centra-se no pensamento da personagem principal; a toda a hora ouvimo-lo, os seus desejos, os seus medos (um serial killer tem muitos medos), os seus demónios, estamos dentro da sua cabeça e antecipamo-lo nas acções (às vezes, não de todo!) e, por fim, justificamos o hediondo que Dexter consegue ser. Não há termos científicos caros, não há teorias estranhas, não existe estranheza, tudo é estranhamente "normal" em Dexter. Podia até mesmo ser o vizinho simpático que nos carrega o saco de compras ou o colega de trabalho simpático que nos abre a porta com delicadeza, alguém que consegue ser agradável, educado, que nos dá os bons dias, alguém que luta por ser "normal", mas que em nada é "normal". Cada detalhe, cada pormenor, cada hora do seu dia, cada gesto e cada "sentimento" por cada pessoa que da sua vida faz parte, tudo é forjado, tudo é calculado e ensaiado. Tudo, mas mesmo tudo, em prol de proteger a única coisa que o faz vibrar e viver: matar.


O Sapatilhas não tem convicções políticas (nem bom gosto para comprar sapatos)



A pergunta impõe-se: mas que merda de sapatos são estes?!?!?
É que até em 1986, já se tinha alguma noção de estilo, não?? De fato e gravata com ténis?? Destes??
É o típico provinciano caído nas lojinhas chic da Avenida da Liberdade, como forma de se afirmar. Eu não sou de julgar as pessoas pelo aspecto, e se fosse outro qualquer, não faria post disto, mas este gajo merece.

Segue-se o artigo de Mário Crespo.
Eu assino por baixo.



É invulgar (provavelmente é inédito) um governo tentar iniciar o seu mandato propondo coligações a toda a Oposição. A todos. Em conjunto. Não achar isto absurdo é consentir em passar a um José Sócrates, que agora é não só socialista mas também social-democrata, cristão-democrata, marxista e trotskista uma autorização legislativa para decretar o fim da política. E o fim da política é o início da ditadura.

Esta não foi uma proposta de diálogos. Foi uma cilada de silêncios futuros. Foi tentar o fim do contraditório sob uma capa de mansidão ecuménica anestesiante. Ao atrever-se a propor isto, Sócrates mostrou que para ele a ideologia e a doutrina, se alguma vez existiram, agora acabaram. Tanto lhe faz governar com Bloco de Esquerda ou com CDS-PP. Separados ou ao mesmo tempo. Abriu-se a tudo. O que lhe interessa é estar onde está. A todo o custo. Indo procurar governabilidade serôdia nos offshores das artimanhas políticas e nas zonas francas da incoerência. Mas os portugueses não escolherem o seu regime nos saldos num Freeport de conveniências políticas.

A democracia portuguesa não pode ser uma zona franca de oportunismos baratos. Quem votou PCP não quer ser governado por Manuela Ferreira Leite através de Sócrates. Quem votou Paulo Portas é porque não quer Francisco Louçã a marcar (ainda mais) a agenda do Partido Socialista. Achar que faz algum sentido propor simultaneamente a Francisco Louçã e a Paulo Portas uma parceria governativa é aceitar-se que a democracia, tal como a entendemos e definimos na Constituição da República, deixa de ter qualquer significado. Sócrates, nesta pestanejante dança nupcial em redor de todos os partidos, propôs uma extraordinária rebaldaria a cinco que choca os mais imaginativos e tolerantes libertinos. Isto seria uma versão em opereta política das Noivas de Santo António. Achar natural que o secretário-geral do Partido Socialista queira coligar-se ao mesmo tempo com Jerónimo de Sousa e Manuela Ferreira Leite é aceitar o fim da Segunda República e resignarmo-nos ao advento da Era do Híbrido.

A natureza há milénios que nos alerta para a infertilidade dos híbridos. Este monstruoso eunuco ideológico acrítico e abúlico que Sócrates queria como modelo para Portugal no Século XXI, se tivesse sido aceite, negaria tudo aquilo em que assenta a nossa liberdade e a nossa identidade. Abdicaríamos, de facto e de jure, da existência política. Felizmente, o país não se esgota em Sócrates. O resto dos líderes eleitos mandaram-no dar uma volta e passar mais pela Assembleia da República porque, quer ele queira quer não, o povo ainda é quem mais ordena.

Para memória futura, é importante reter que esta proposta de Sócrates denota uma disposição para continuar a deriva totalitária das autorizações legislativas passadas em branco que tiveram como resultado tapar a margem do Tejo com contentores, silenciar as vozes críticas nos média, lançar o caos entre professores e magistrados e pôr portugueses a nascer em Espanha. Também para memória futura convém deixar esta pergunta no ar: que seria deste Portugal sem chefia do Estado se toda a Assembleia da República tivesse caído no enlace maldito que Sócrates tentou?

in Jornal de Notícias on-line
19-10-2009
Por: Mário Crespo

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Maitê e os portugueses de Portugal

Há uma explicação bastante razoável para as piadinhas e anedotas e toda a estranheza que os brasileiros têm relativamente aos portugueses. Eles não percebem, a Maitê não percebe, e talvez algum passe por aqui e possa ler a explicação que tenho para lhes dar: os portugueses, de uma forma geral, acham os brasileiros BURROS que nem um penedo, calhaus com olhos, e não gostam de brasileiros. Sim, nós não gostamos de brasileiros. No máximo, gozamos um bocadinho na cara deles, imitamos (e bem) aquela pronúncia de índio mal domesticado(já o contrário não se aplica, um brasileiro a imitar um português parece que tem um garfo enfiado no cu),e no máximo, no máximo, tratamo-los com algum desdém. Ou seja, tratamo-los mal.

As brasileiras, para além da fama que as precede como mulheres detentoras da profissão mais velha desde que o Mundo é Mundo (perguntem às mães de Bragança), quando não são mulheres de virtude fácil, são esteticistas que fazem serviços mal feitos e ainda acham que falar mal duma esteticista portuguesa a uma cliente portuguesa dá-lhes clientela. DUUHHHH!!!! Os brasileiros (homens) quando não são maus dentistas, servem nos restaurantes, lojas, bares, etc, todo o tipo de serviços em Portugal, e têm uma conversa de tanga, e acham-se os maiores. A esmagadora maioria dos brasileiros que andam por cá são feios que nem a noite dos trovões.

Portanto, o amor/ódio não se coloca sequer. Não odiamos os brasileiros, apenas os achamos irritantes e assim a dar para o burro (vá, intelectualmente incapaz). Toda a polémica em redor do tal vídeo da Maitê Proença, na minha óptica, não tem grande significado. Desconheço se a senhora é de virtude fácil, mas não deve grande coisa à inteligência. Caso contrário, não se deixaria filmar a cuspir para dentro duma fonte, qual atrasada mental, certo? Aquilo diz mais sobre ela própria, como pessoa, do que sobre os portugueses. Tal como os seus congéneres, parece apenas mais um calhau com olhos. Para além de que está velha. E feia. Aquele cabelo, viram? Que pindérica. Não se chateiem. Não vale a pena.

Fica o vídeo dos Gato Fedorento.


segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Descubra as diferenças Especial Autárquicas 2009

[post em construção]



































Numa noite em que todos ganharam, Rui Rio foi o grande vencedor. Ah, e o Benfica também.
Felgueiras esteve muito, muito bem - a cidade, claro - em correr com a outra Felgueiras.
Já Oeiras e Gondomar não estiveram assim tão bem. Moita Flores deveria ter sido o candidato do PSD para Oeiras - ganhava aquilo, de certeza.
Pedro Santana Lopes foi um beautiful loser - o homem tem estilo. Saber perder não é para todos.
Morreu um homem em Mondim de Basto - o autor do tiroteio era do PS.
António Costa é um vendido e a malta do Bloco de Esquerda começa a demonstrar aquilo que é: gente sem escrúpulos, oportunistas, vira-casacas.
Ainda bem que não sou lisboeta.
José Miguel Júdice esteve muito bem em todo o processo.
Pedro Passos Coelho foi eleito para a Assembleia Municipal de Vila Real (?)
Sócrates diz que ganhou, mas daqui a uns meses é capaz de estar desempregado.
Ferreira Leite diz que ganhou, mas daqui a uns meses é capaz de abdicar do lugar de líder.
Os comentadores não dizem nada de jeito.
O Alentejo já não é assim tão moscovita como antigamente.
Macário deixa Tavira nas mãos dos socialistas.
Ponte de Lima é CDS-PP.
Salvaterra de Magos é Bloco de Esquerda - vivam os rodeos!

Num país onde pessoas como Isaltino e Loureiro ganham eleições, algo de muito errado se passa.
Vou ler Nietzsche e pensar que isto não passa duma brincadeira de mau gosto.

E amanhã é segunda-feira, é dia de trabalho.




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Qué frô?

"Viva Lesboa! Viva Lesboa! Viva Lesboa!"


...



Parabéns a António Costa (e pandilha) e os pêsames à cidade de Lisboa.

sábado, 10 de outubro de 2009

Gajas ao Poder!

Não deve ser por acaso que a GRANDE maioria de candidatos à presidência das Juntas de Freguesia da cidade de Ponta Delgada se faz no feminino... vejamos:





Gosto particularmente do penteado destas duas senhoras. Questiono-me sempre por que razão as mulheres do Bloco de Esquerda e do PCP têm penteados "esquisitos" (sim, a Joana Amaral Dias é a excepção).












O PS apostou em força nas mulheres...





Esta moça parece prima do Conde Drácula... aquela cruz ao pescoço é muito "gótica". CDS-PP... quem diria?...




Berta Cabral é actualmente a Presidente da Câmara Municipal.







O senhor que se segue, é um dos poucos candidatos (homens, machos, gajos).
É do CDS-PP e deve ser um homem de muita coragem.
Diz que quer "Imortalizar com Visão"... uma espécie de viver para sempre, e actualizado... assim como uma pecinha de roupa ou jóia vintage, velhinha, mas sempre fashion (o slogan deve ter tido uma ajudinha do Paulo Portas, esse grande animal político).





Daqui a uns anos, será de pensar num dentinho de ouro ou assim... se for eleito...



Como disse no início, não deve ser por acaso que a grande maioria dos candidatos são mulheres... é que com homens deste calibre, é evidente que as mulheres dedicam-se mais à política, atraídas pelo charme dos açorianos.

Toma lá ó Alberto João Jardim! Que ainda não chegámos à Madeira!




terça-feira, 6 de outubro de 2009

Descubra as diferenças XV


























Animal (The Muppet Show) e o senhor cuja identidade desconheço, mas que fica mesmo, mesmo bem ao lado da Fátima Felgueiras, esse grande nome da política portuguesa (ou seria brasileira?).

Coisas fantásticas deste não menos fantástico país

[post em construção]

Ora vejamos: entre o novo historiador português chamado Mário Soares que afirma que Portugal teve duas Repúblicas (ainda eu pensava que o José Hermano Saraiva era aldrabão), a grandessíssima seca que têm sido as entrevistas do Ricardo Araújo Pereira (já nem as vejo), entre um país que só se lembra de homenagear as pessoas quando elas morrem ou de lembrar os aniversários da morte dos artistas (como é o caso de Amália Rodrigues), entre Primeiro-Ministro e Presidente da República amuados em dia de comemorações e festejos desta maravilhosa República, o mais interessante no meio disto tudo são os cartazes de campanha para as autárquicas que tenho visto por aí (lindos, deveras lindos) e que me fazem sorrir.


Aqui ficam alguns dos melhores.












































O Tino...é o Tino!
O Parcídio... É o Cídio do Parce (?!) (Porra, nada se aproveita no nome!)

A Leonor Coutinho...fez um trocadalho do carilho!

A roulotte do CDS...devia ser convertida em barraca de cachorros...

O Pedroso...tem a cara inchada de tanto abusar de criancinhas...

Os do CDS de Câmara de Lobos...pá, aquele amigo da esquerda parece ter saído da Cercis, e a tipa da direita era a última sobrevivente se o mundo acabasse à dentada...

O Carlos Gonçalves...deve ser responsável pela morte da Princesa Diana...

O cartaz do Major...está ou não está na rotunda?! Aquilo é ilusão de óptica!

O Isaltino...devia estar na prisa (e não é a da TVI)

A Fatinha...faz bem em apoiar toxicodependentes sem-abrigo para cargos de eleição. Podia era ter-lhe feito um adiantamento e deixado o rapaz tomar banho, lavar os dentes e fazer a barba...

Com políticos assim, para que precisamos de...porra, nem sei!
 
Spider Pig dixit

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Pormenores do meu quotidiano com bastante interesse

Estes gajos fazem-me feliz todos os dias (sempre que tenho hipótese de os ouvir).




O mérito é todo de: Patricia Castanheira com Susana Romana; Fábio Benídio e Alexandre Parreira (textos) e vozes de António Machado e Manuel Marques - os senhores que aparecem no vídeo e que "personificam" as vozes de Cavaco Silva e Francisco Louçã.

Pormenores do meu quotidiano com relativo interesse

Acho que encontrei a melhor tradução de um título, de inglês para português. Toda a gente sabe que há traduções fantásticas no nosso país, bem visíveis nas salas de cinema, mas esta supera tudo, principalmente porque não tem mesmo NADA a ver.

É de um programa televisivo que costuma dar na Sic Radical - Balls of Steel - traduzido para (suspiro) Homens Temporariamente Sós.

Quem quiser e conseguir, por favor, explique-me qual é a ligação/relação.

Fica o link para uma das melhores cenas.



Pormenores do meu quotidiano com algum interesse




Gosto disto. E há já muito tempo que não havia algo de que gostasse realmente.

Pormenores do meu quotidiano sem interesse absolutamente nenhum

Acho que corri com a estúpida da minha vizinha de cima que TODOS OS DIAS me acorda às cinco e meia da manhã com o barulho do duche, e que faz 50 maratonas entre a casa-de-banho e o quarto, de saltos altos (que não têm estilo nenhum).

Obrigada Darth Vader!




Se a gaja voltar, corto-lhe a água. Ainda por cima é feia. E manca. Estúpida.

Coligação vs acordo coligatório



Acordo "coligatório"? Que é isso??? Ãh?????

O que mais me diverte é pensar que provavelmente é António Costa quem irá ganhar em Lisboa. Já nada me surpreende, vindo deste povinho de merda pseudo-inteligente e pseudo-moderno para quem a esquerda encapotada serve perfeitamente, nem que seja às custas do próprio bolso. "Viva a Esquerda em Portugal"!

Caso mesmo para dizer "Bibó Porto carago!" que esses ao menos não vão na conversa de bimbalhona da Elisa Ferreira, para quem qualquer tacho é um bom tacho. Provavelmente irá acabar por comer na "gamela" de Bruxelas.
























O desenho foi retirado daqui.

sábado, 3 de outubro de 2009


Estava à espera mas não sabia bem do quê. Afinal, estava tudo terminado ou assim ela o tinha dito da última vez que tinham estado juntos. Ela tinha sido bem clara, disse-o com todas as letras, repetiu-o várias vezes e ele ficou calado. Um silêncio que, mais que consentir que ela tinha razão, era um silêncio resignado e incapaz de contornar a racionalidade dela. E a conversa, bem como o seu relacionamento, tinham efectivamente terminado naquele instante. Então porque estava ele ali, em frente à estação de caminho-de-ferro onde em breve chegaria o comboio onde ela viajava?

Puxou de um cigarro. Era o último. Devia ser o último, pensava ele. Já tinha perdido a conta à quantidade de vezes que prometia a si próprio que ia deixar de fumar. Mas passavam-se dias, meses, e por vezes anos, e lá voltava ele ao hábito da nicotina. Normalmente o tabaco ajudava-o a concentrar-se, a pensar no seu próximo passo. Mas hoje não era o caso. Nenhum pensamento lhe ocorria enquanto o cigarro ia desaparecendo num monte de cinzas. Estava nervoso. O que iria ele dizer-lhe quando a visse? Conseguiria ele dizer todas as palavras que lhe ocorreram naquelas quatro semanas em que ela tinha estado fora? Ou ela nem iria dar-lhe uma oportunidade de falar quando o visse ali, especado à sua frente? Não, ela tinha que o ouvir, tinha que lhe dar uma chance de reparar o silêncio com que ele tinha acolhido as suas razões para estar farta das desculpas dele. Não, ela não seria cruel a esse ponto, por muito magoada que estivesse com ele. Ele tinha que falar com ela, tinha de lhe dizer o quanto a amava, o quanto não o sabia até ao momento em que ela lhe disse que se ia embora da vida dele. Ele tinha que lhe dizer que era um idiota, um anormal completo por não ter percebido isso antes. Por não ter percebido que a vida dele não estava completa sem ela, sem o amor por ela.
Estava frio. Meteu as mãos aos bolsos. Sentiu alguns papeis no bolso esquerdo. Tirou-os e olhou para eles como se fosse a primeira vez que os via. Rapidamente compreendeu que se tratava de um quase diário do que se tinha passado naquelas últimas semanas. Um bilhete de cinema, um bilhete de comboio e um talão de uma compra paga com o cartão de crédito.

O bilhete de cinema já andava nos seus bolsos há mais de um mês. Tinha sido a última vez que tinham ido juntos ao cinema. Tinham ido ao centro da cidade ver um filme francês que estava numa única sala. Ela adorava filmes franceses, gostava da língua e dos personagens, achava que mais ninguém conseguia fazer filmes como os realizadores franceses. Ele gostava deste amor que ela tinha pelo cinema francês. Se não fosse o bilhete, já não se lembraria do nome do filme. Lembrava-se que era sobre uma família e uma casa. Também se lembrava que o fim do filme o tinha apanhado completamente desprevenido e por isso tinha saído da sala com um travo amargo na boca. Ela tinha adorado, como sempre. Lembrava-se que depois do filme foram dar uma volta a pé. A noite estava quente e ela gostava sempre de falar imenso com ele, para saber o que ele achava do filme, se ele tinha gostado ou não e porquê. E normalmente acabavam sempre por falar deles próprios, se seria possível as situações do filme acontecerem com eles os dois. Se iriam ser sempre felizes, se iriam ter filhos e tornarem-se uma família, se afinal de contas não estavam destinados a ficarem juntos. Falavam disto tudo. E quando chegavam a casa, beijavam-se e chegavam à conclusão que a sua vida nunca seria igual a um filme francês.
O bilhete de comboio ainda não tinha sido usado e, pela data que tinha, também já não poderia ser usado. Tinha-o comprado uma semana depois de ela ter saído de casa, quando finalmente tinha descoberto que ela estava na casa de uns familiares, no norte do país. As noites que tinha passado em claro depois de ela se ter ido embora tinham-lhe retirado bastante do seu pragmatismo e ele tinha ido reagido aos seus impulsos sem pensar nas consequências. Só quando já estava na estação e com o bilhete na mão é que se apercebeu de que ela tinha mesmo razão quando o deixara. Que ele tinha-se portado de uma forma repugnante e que assim não havia paixão que pudesse manter-se intacta. Apercebeu-se também que o silêncio ensurdecedor com que ele tinha respondido aos gritos dela se devia a uma completa ausência de palavras minimamente justificadoras que ele pudesse dizer, e que esse silêncio ainda permanecia. Que ele sabia que a amava, que não sabia se ela ainda o podia amar, e que, pior que tudo, se se encontrasse com ela, não saberia o que dizer. Sentiu os olhos húmidos, meteu o bilhete de comboio no bolso e saiu da estação enquanto o comboio partia.
O talão de compra. Parecia que lhe ardia na mão. Virou-o ao contrário e reviu um número de telemóvel escrito a tinta permanente. Tornou-o a virar e foi-se recordando daquela noite passada num bar escuro, bebida atrás de bebida, cigarro após cigarro. Lembrava-se que nessa noite a angústia que o perseguia com a ausência dela atingiu o limite. Decidiu refugiar-se ali, longe do resto do mundo, só ele, o seu tabaco e o seu copo. Já se sentia resignado, já não queria saber dela para nada, mas isso não significava que no seu coração as coisas estivessem terminadas. Sentiu a presença de alguém que se sentava ao seu lado. Uma mulher. Uma mulher que lhe lembrava as actrizes francesas de que ela tanto gostava. Ela meteu conversa com ele, e ele sentiu-se abalar na solidão que pretendia. Mostrou-se receptivo e conversou também com ela. Não se lembra das palavras que foram trocadas, já tinha bebido demasiado para isso. Os únicos gestos que recorda daquela mulher eram o beijo ofegante que ela lhe deu antes de se despedir e o número de telefone, escrito à pressa nas costas de um talão. E lembra-se também que nunca lhe chegou a telefonar, que no dia seguinte se levantou com a mãe de todas as ressacas, e que, enquanto bebia o café e olhava através do vidro da janela, sentiu saudades dela. Sentiu que a falta dela era insuportável e que não se conseguia imaginar sem ela ao seu lado.
O cigarro estava morto entre os seus dedos. Guardou no bolso os papéis e apagou o cigarro com a ponta do sapato. Apertou o casaco e atravessou a estrada, na direcção da estação. Caminhava lentamente para o local onde sabia que o comboio em que ela viajava começava a surgir.
 
 
 
Peindre ou faire l’amour
 
O comboio partira há pouco da estação e no entanto, era como se aquela semana se traduzisse em horas, apenas. Sabia que tinha de fugir para algum sítio e o Porto, onde vivia uma tia a quem prometia sempre no Natal uma visita, parecera-lhe o melhor lugar possível. Seria o último lugar onde ele a procuraria. Não tinha sido uma boa ideia. Desesperadamente, queria que ele a procurasse, que a encontrasse. Tantos os momentos que havia estado na Foz, à noite, naquela semana, com o telemóvel por companhia e que patética a sua figura. à terceira noite desistiu; o orgulho levara-lhe a melhor. Ela não haveria de ceder, não podia sucumbir à saudade de alguém que lhe fazia tanto mal. Além disso, tinha a certeza que ele não a entendia, que não a acompanhava nos sonhos, nas coisas que ela gostava de fazer, em nada, que não a amava. Não tanto como ela desejava, não como ela o amava. Agora tinha a certeza. A revolta tinha-se apoderado de si naquela tarde, ao perceber o quão estúpida era, e como aquela relação não a levava a lado algum. Apenas tinha tido tempo de avisar a chefe que se iria ausentar por uma semana, e num ápice, ir a casa fazer a mala. Aquela tarde, os gritos que dara em casa, os gritos que os vizinhos certamente teriam ouvido, os gritos de desamor, de uma pessoa mal amada, de uma pessoa amarga, os gritos de alguém que tinha chegado ao fim da linha, os gritos que esperavam obter uma resposta... por fim, os gritos que ficariam sem resposta. Os homens nunca entendem, os homens nunca sabem. As mulheres gritam porque estão assustadas, porque têm medo, os gritos servem apenas para encher o vazio, a frustração e o frio desse medo. O silêncio de um homem é a única coisa que deixa uma mulher que grita, assustada, sem rede. O grito que ela dá é o salto para o precipício, um precipício sem rede. Ele não lhe deu a rede, a resposta, o eco, nada. Silêncio. Resignação. Então falou, ela falou, falou, falou, falou até não poder mais, disse tudo o que lhe pareceram as melhores razões para justificar aquela saída, aquele fim. Para preencher o vazio, o frio, o medo, o silêncio. Atrás de si fechou a porta convicta de que assim era melhor.


O orgulho deu lugar a um alívio imediato, semelhante a um analgésico fraco para uma dor demasiado forte, que deu lugar a uma tristeza, intercalada com raiva, novamente acessos de orgulho e por fim, a saudade. Naquela semana, sentira acima de tudo, saudade. Saudade do cheiro dele, da voz, das palavras, até dos silêncios. Não lhe apetecia nada retornar à vida do costume. Com ele, era uma incógnita, nunca se entendiam, nada parecia bater certo; não tinham discussões, é certo, mas havia algo nele que lhe indicava que não era nada daquilo. Porque estaria ele com ela? Porquê todo aquele tempo? Agora, sem ele, tudo o que haviam vivido parecia afinal ter algum sentido. Ou seria a saudade a falar mais alto?


Estava cansada, não dormira nada naqueles dias no Porto. Detestava a cidade, as pessoas, tudo lhe parecia escuro e sujo. A tia era uma chata do caraças, sempre preocupada, sempre aquela pronúncia, nem tinha conseguido guardar segredo e o pai ligara logo na segunda noite a perguntar se estava tudo bem. "Claro que está tudo bem". Eram apenas uns dias para tirar umas fotografias para um novo trabalho. Isso ao menos correra bem, ao menos isso! A cidade tinha uma luz diferente de Lisboa, mais difícil de editar e trabalhar, mas até isso aproveitou para o estado de espírito menos "saudável".




::fotografia retirada de http://arcoirisreloaded.aminus3.com::
 
 
 
Agora, estava ali, naquele comboio, era já noite, passava Coimbra B, e estava frio, lá fora, dentro do comboio, dentro de si, sentia o frio e decidira fumar um cigarro para "aquecer". Maldito vício. Três tentativas para deixar e nada. Longe iam os tempos em que fumava Marlboro; agora com o preço do tabaco sempre a aumentar, limitava-se a fumar do mais barato que havia no mercado, ou daquele que a prima lhe mandava dos Açores, da tabacaria Estrela. Era horrível, mas a menos de dois euros, sabia-lhe divinalmente. Tirou o maço do bolso do casaco de malha preto que ele lhe tinha oferecido no passado dia dos namorados. Irónico, não? "Dia dos namorados... foda-se que sou mesmo estúpida, caramba!"
 
 
Olhou lá para fora e enquanto tirava o isqueiro para acender o cigarro que tinha nos lábios, caíu-lhe algo mais do bolso. Era um bilhete de cinema amachucado. Ela fazia colecção de toda a porcaria que um dia pudesse recordar e os bilhetes de cinema não eram excepção. Tudo o que fosse concerto ou filme ou peça de teatro ou um pedaço de papel com anotações especiais, pensamentos ou fotografias íam parar ao álbum. Aquele, não teria sido um muito melhor filme para recordar, de entre tantos que ela gostava de ir ver ao King, talvez por isso decidiu não o incluir no álbum. Ele tinha adormecido durante a exibição da película francesa e pela conversa posterior, achava que aquilo tinha algo a ver com uma família. Ela riu-se, como se ria sempre e achou melhor não dar importância ao caso. Estavam algo desencontrados, talvez um dia se encontrassem a sério.
 



Agora, naquele comboio, pareciam-lhe mais distantes que nunca. Ela não a procurara, todas as razões lhe pareceram plausíveis, concluíu. O fumo do cigarro tranquilizava-a. Soprava o fumo, travava novamente o fumo dentro de si, prendia-o durante segundos, aquilo era mesmo bom. Um rapaz olhava-a fixamente, do seu lugar, na carruagem, enquanto ela fumava de pé, junto à porta. Lembrou-se de Manoel de Oliveira, aquilo parecia um filme do Manoel de Oliveira. Fechou os olhos, ela era a figura principal, a luz estava impecável, princípio de noite semi-fria de Outubro, e aquele rapaz bem poderia ser a sua nova conquista. Talvez fosse de Lisboa, talvez fosse o seu velho/novo/de sempre/Grande Amor que tinha, também ele, o seu coração despedaçado por alguma bimba que havia despachado no Porto, um amor impossível, separados pela distância, e agora conhecia-a a ela, uma romântica incurável, apaixonada, e haviam de ver todos os concertos e ler todos os livros e ele de certeza iria dar-lhe a conhecer um mundo novo e... estava a fazer um filme. Instantaneamente, o rapaz pareceu-lhe adivinhar o pensamento desesperado e desviou o olhar. Era um mundo cruel, aquele, e ela não queria conhecer mais ninguém. Isso dava muito trabalho e não estava disposta a isso: encontros, saídas, engates, jantares, conversas, estava demasiado cansada. Na verdade, ela não queria mais ninguém. Só queria que aquela dor parasse, que o sono chegasse, que as lágrimas parassem e deixasse de fazer a conversa mental consigo mesma que as coisas podiam ter outra solução. Não tinham. Estava tudo irremediavelmente perdido. Acabado.
 
 
Ligou o iPod e deixou que o modo aleatório lhe desse uma pista sobre que caminho havia de tomar. Não poderia ter sido mais angustiante o sentimento que surgiu quando ouviu os primeiros acordes da guitarrinha ironicamente alegre do Bill...A Man Needs A Woman Or A Man To Be A Man...
 

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Descubra as diferenças XIV

Digam lá que não é tal e qual????
Ana Gomes e Herman José (na rubrica Cozinho Para o Povo)





Gajas, política e futebol



Sabem o que é que isto me faz lembrar?

Gajas histéricas num estádio de futebol a gritar que o árbitro é um f****da p*** e por aí fora, a mastigar qualquer coisa de boca aberta, de cachecol bem apertado até às goelas. Eu sei porque eu já fui a um estádio de futebol e vi com os meus olhos. Muitas vezes. Limitei-me nessas ocasiões a ver o jogo, de boca fechada. O máximo que fiz num estádio foi gritar Briosa. Limito-me a ser do Benfica e da Académica (mais da Académica, mas acho que é este ano que o Glorioso me vai dar uma alegria razoável).


Uma mulher para poder vencer na política não se pode comportar como algumas se comportam num estádio de futebol. Acho que alguém devia dizer isso a esta senhora.



P.S.: e também me lembra o Herman José vestido de mulher.

Ardi - uma nova descoberta

Afinal parece que o Homem sempre caminhou de pé.



“Ardipithecus é uma forma não especializada que ainda não evoluiu muito em comparação com o Australopithecus”, diz num comunicado Tim White, da Universidade da Califórnia e um dos líderes da equipa de cientistas. “E quando olhamos para [Ardi] da cabeça aos pés, o que vemos é uma criatura-mosaico, que não é nem chimpanzé, nem humana.”


E é aí que começam as surpresas. Acontece que, até agora, os cientistas concordavam em dizer que os chimpanzés, os gorilas e os outros símios africanos modernos tinham conservado muitas das características físicas daquele último antepassado que partilharam com os humanos – ou seja, pensava-se que o antepassado em questão era muito mais parecido com um chimpanzé, ou com um gorila, do que com um homem. Por outras palavras ainda: enquanto nós tínhamos evoluído imenso desde aquela altura, tornando-nos muito diferentes daquele antepassado comum, os símios actuais tinham evoluído pouco desde então. Ardi vem precisamente pôr em causa essa concepção das coisas.


Pensava-se, por exemplo, que o antepassado comum aos homens e aos chimpanzés teria sido um ágil trepador, conseguindo pendurar-se nos ramos das árvores, baloiçar-se e saltar de árvore em árvore tal como os chimpanzés de hoje. E também que, tal como eles, caminhava apoiado nos nós dos dedos das mãos. Mas não foi nada disso que os investigadores descobriram ao examinarem Ardi. Como explica ainda o comunicado acima referido, quando se encontravam no chão, os hominídeos de Ardipithecus caminhavam erguidos, apoiados nas suas duas pernas (isto é sugerido pela anatomia dos pés). Uma outra ideia estabelecida pode, aliás, estar em causa aqui: a que supõe que o bipedismo dos hominídeos nasceu quando eles se lançaram para espaços mais abertos, para a savana e não quando ainda viviam na floresta. Os Ardipithecus eram “bípedes facultativos”, dizem os investigadores.


Se se confirmarem estes dados, isso significa, em particular, que os chimpanzés não são um bom modelo desse misterioso antepassado comum entre eles e nós – e que talvez um melhor modelo sejamos... nós próprios! É o que parece concluir no mesmo artigo sobre as mãos de Ardi a equipa de Owen Lovejoy, da Universidade Estadual do Ohio e também um dos principais investigadores. “Esta descoberta”, escrevem na Science, “põe um ponto final a anos de especulação sobre o decorrer da evolução humana. (...) Foram os símios africanos que evoluíram imenso desde os tempos do nosso último antepassado comum, não os humanos nem os seus antepassados hominídeos mais imediatos. As mãos dos primeiros hominídeos eram menos parecidas com as dos símios do que as nossas (....).”




Claro que nem todos os especialistas concordam com a interpretação dos achados e que alguns dos peritos interrogados por uma jornalista da Science, que acompanha a publicação dos resultados, permanecem cépticos. Mas todos acolheram com grande interesse os novos dados e acham que é agora que o debate vai começar.
 
 
in Público

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