Estava à espera mas não sabia bem do quê. Afinal, estava tudo terminado ou assim ela o tinha dito da última vez que tinham estado juntos. Ela tinha sido bem clara, disse-o com todas as letras, repetiu-o várias vezes e ele ficou calado. Um silêncio que, mais que consentir que ela tinha razão, era um silêncio resignado e incapaz de contornar a racionalidade dela. E a conversa, bem como o seu relacionamento, tinham efectivamente terminado naquele instante. Então porque estava ele ali, em frente à estação de caminho-de-ferro onde em breve chegaria o comboio onde ela viajava?
Puxou de um cigarro. Era o último. Devia ser o último, pensava ele. Já tinha perdido a conta à quantidade de vezes que prometia a si próprio que ia deixar de fumar. Mas passavam-se dias, meses, e por vezes anos, e lá voltava ele ao hábito da nicotina. Normalmente o tabaco ajudava-o a concentrar-se, a pensar no seu próximo passo. Mas hoje não era o caso. Nenhum pensamento lhe ocorria enquanto o cigarro ia desaparecendo num monte de cinzas. Estava nervoso. O que iria ele dizer-lhe quando a visse? Conseguiria ele dizer todas as palavras que lhe ocorreram naquelas quatro semanas em que ela tinha estado fora? Ou ela nem iria dar-lhe uma oportunidade de falar quando o visse ali, especado à sua frente? Não, ela tinha que o ouvir, tinha que lhe dar uma chance de reparar o silêncio com que ele tinha acolhido as suas razões para estar farta das desculpas dele. Não, ela não seria cruel a esse ponto, por muito magoada que estivesse com ele. Ele tinha que falar com ela, tinha de lhe dizer o quanto a amava, o quanto não o sabia até ao momento em que ela lhe disse que se ia embora da vida dele. Ele tinha que lhe dizer que era um idiota, um anormal completo por não ter percebido isso antes. Por não ter percebido que a vida dele não estava completa sem ela, sem o amor por ela.
Estava frio. Meteu as mãos aos bolsos. Sentiu alguns papeis no bolso esquerdo. Tirou-os e olhou para eles como se fosse a primeira vez que os via. Rapidamente compreendeu que se tratava de um quase diário do que se tinha passado naquelas últimas semanas. Um bilhete de cinema, um bilhete de comboio e um talão de uma compra paga com o cartão de crédito.
O bilhete de cinema já andava nos seus bolsos há mais de um mês. Tinha sido a última vez que tinham ido juntos ao cinema. Tinham ido ao centro da cidade ver um filme francês que estava numa única sala. Ela adorava filmes franceses, gostava da língua e dos personagens, achava que mais ninguém conseguia fazer filmes como os realizadores franceses. Ele gostava deste amor que ela tinha pelo cinema francês. Se não fosse o bilhete, já não se lembraria do nome do filme. Lembrava-se que era sobre uma família e uma casa. Também se lembrava que o fim do filme o tinha apanhado completamente desprevenido e por isso tinha saído da sala com um travo amargo na boca. Ela tinha adorado, como sempre. Lembrava-se que depois do filme foram dar uma volta a pé. A noite estava quente e ela gostava sempre de falar imenso com ele, para saber o que ele achava do filme, se ele tinha gostado ou não e porquê. E normalmente acabavam sempre por falar deles próprios, se seria possível as situações do filme acontecerem com eles os dois. Se iriam ser sempre felizes, se iriam ter filhos e tornarem-se uma família, se afinal de contas não estavam destinados a ficarem juntos. Falavam disto tudo. E quando chegavam a casa, beijavam-se e chegavam à conclusão que a sua vida nunca seria igual a um filme francês.
O bilhete de comboio ainda não tinha sido usado e, pela data que tinha, também já não poderia ser usado. Tinha-o comprado uma semana depois de ela ter saído de casa, quando finalmente tinha descoberto que ela estava na casa de uns familiares, no norte do país. As noites que tinha passado em claro depois de ela se ter ido embora tinham-lhe retirado bastante do seu pragmatismo e ele tinha ido reagido aos seus impulsos sem pensar nas consequências. Só quando já estava na estação e com o bilhete na mão é que se apercebeu de que ela tinha mesmo razão quando o deixara. Que ele tinha-se portado de uma forma repugnante e que assim não havia paixão que pudesse manter-se intacta. Apercebeu-se também que o silêncio ensurdecedor com que ele tinha respondido aos gritos dela se devia a uma completa ausência de palavras minimamente justificadoras que ele pudesse dizer, e que esse silêncio ainda permanecia. Que ele sabia que a amava, que não sabia se ela ainda o podia amar, e que, pior que tudo, se se encontrasse com ela, não saberia o que dizer. Sentiu os olhos húmidos, meteu o bilhete de comboio no bolso e saiu da estação enquanto o comboio partia.
O talão de compra. Parecia que lhe ardia na mão. Virou-o ao contrário e reviu um número de telemóvel escrito a tinta permanente. Tornou-o a virar e foi-se recordando daquela noite passada num bar escuro, bebida atrás de bebida, cigarro após cigarro. Lembrava-se que nessa noite a angústia que o perseguia com a ausência dela atingiu o limite. Decidiu refugiar-se ali, longe do resto do mundo, só ele, o seu tabaco e o seu copo. Já se sentia resignado, já não queria saber dela para nada, mas isso não significava que no seu coração as coisas estivessem terminadas. Sentiu a presença de alguém que se sentava ao seu lado. Uma mulher. Uma mulher que lhe lembrava as actrizes francesas de que ela tanto gostava. Ela meteu conversa com ele, e ele sentiu-se abalar na solidão que pretendia. Mostrou-se receptivo e conversou também com ela. Não se lembra das palavras que foram trocadas, já tinha bebido demasiado para isso. Os únicos gestos que recorda daquela mulher eram o beijo ofegante que ela lhe deu antes de se despedir e o número de telefone, escrito à pressa nas costas de um talão. E lembra-se também que nunca lhe chegou a telefonar, que no dia seguinte se levantou com a mãe de todas as ressacas, e que, enquanto bebia o café e olhava através do vidro da janela, sentiu saudades dela. Sentiu que a falta dela era insuportável e que não se conseguia imaginar sem ela ao seu lado.
O cigarro estava morto entre os seus dedos. Guardou no bolso os papéis e apagou o cigarro com a ponta do sapato. Apertou o casaco e atravessou a estrada, na direcção da estação. Caminhava lentamente para o local onde sabia que o comboio em que ela viajava começava a surgir.
Peindre ou faire l’amour
O comboio partira há pouco da estação e no entanto, era como se aquela semana se traduzisse em horas, apenas. Sabia que tinha de fugir para algum sítio e o Porto, onde vivia uma tia a quem prometia sempre no Natal uma visita, parecera-lhe o melhor lugar possível. Seria o último lugar onde ele a procuraria. Não tinha sido uma boa ideia. Desesperadamente, queria que ele a procurasse, que a encontrasse. Tantos os momentos que havia estado na Foz, à noite, naquela semana, com o telemóvel por companhia e que patética a sua figura. à terceira noite desistiu; o orgulho levara-lhe a melhor. Ela não haveria de ceder, não podia sucumbir à saudade de alguém que lhe fazia tanto mal. Além disso, tinha a certeza que ele não a entendia, que não a acompanhava nos sonhos, nas coisas que ela gostava de fazer, em nada, que não a amava. Não tanto como ela desejava, não como ela o amava. Agora tinha a certeza. A revolta tinha-se apoderado de si naquela tarde, ao perceber o quão estúpida era, e como aquela relação não a levava a lado algum. Apenas tinha tido tempo de avisar a chefe que se iria ausentar por uma semana, e num ápice, ir a casa fazer a mala. Aquela tarde, os gritos que dara em casa, os gritos que os vizinhos certamente teriam ouvido, os gritos de desamor, de uma pessoa mal amada, de uma pessoa amarga, os gritos de alguém que tinha chegado ao fim da linha, os gritos que esperavam obter uma resposta... por fim, os gritos que ficariam sem resposta. Os homens nunca entendem, os homens nunca sabem. As mulheres gritam porque estão assustadas, porque têm medo, os gritos servem apenas para encher o vazio, a frustração e o frio desse medo. O silêncio de um homem é a única coisa que deixa uma mulher que grita, assustada, sem rede. O grito que ela dá é o salto para o precipício, um precipício sem rede. Ele não lhe deu a rede, a resposta, o eco, nada. Silêncio. Resignação. Então falou, ela falou, falou, falou, falou até não poder mais, disse tudo o que lhe pareceram as melhores razões para justificar aquela saída, aquele fim. Para preencher o vazio, o frio, o medo, o silêncio. Atrás de si fechou a porta convicta de que assim era melhor.
O orgulho deu lugar a um alívio imediato, semelhante a um analgésico fraco para uma dor demasiado forte, que deu lugar a uma tristeza, intercalada com raiva, novamente acessos de orgulho e por fim, a saudade. Naquela semana, sentira acima de tudo, saudade. Saudade do cheiro dele, da voz, das palavras, até dos silêncios. Não lhe apetecia nada retornar à vida do costume. Com ele, era uma incógnita, nunca se entendiam, nada parecia bater certo; não tinham discussões, é certo, mas havia algo nele que lhe indicava que não era nada daquilo. Porque estaria ele com ela? Porquê todo aquele tempo? Agora, sem ele, tudo o que haviam vivido parecia afinal ter algum sentido. Ou seria a saudade a falar mais alto?
Estava cansada, não dormira nada naqueles dias no Porto. Detestava a cidade, as pessoas, tudo lhe parecia escuro e sujo. A tia era uma chata do caraças, sempre preocupada, sempre aquela pronúncia, nem tinha conseguido guardar segredo e o pai ligara logo na segunda noite a perguntar se estava tudo bem. "Claro que está tudo bem". Eram apenas uns dias para tirar umas fotografias para um novo trabalho. Isso ao menos correra bem, ao menos isso! A cidade tinha uma luz diferente de Lisboa, mais difícil de editar e trabalhar, mas até isso aproveitou para o estado de espírito menos "saudável".
Agora, estava ali, naquele comboio, era já noite, passava Coimbra B, e estava frio, lá fora, dentro do comboio, dentro de si, sentia o frio e decidira fumar um cigarro para "aquecer". Maldito vício. Três tentativas para deixar e nada. Longe iam os tempos em que fumava Marlboro; agora com o preço do tabaco sempre a aumentar, limitava-se a fumar do mais barato que havia no mercado, ou daquele que a prima lhe mandava dos Açores, da tabacaria Estrela. Era horrível, mas a menos de dois euros, sabia-lhe divinalmente. Tirou o maço do bolso do casaco de malha preto que ele lhe tinha oferecido no passado dia dos namorados. Irónico, não? "Dia dos namorados... foda-se que sou mesmo estúpida, caramba!"
Olhou lá para fora e enquanto tirava o isqueiro para acender o cigarro que tinha nos lábios, caíu-lhe algo mais do bolso. Era um bilhete de cinema amachucado. Ela fazia colecção de toda a porcaria que um dia pudesse recordar e os bilhetes de cinema não eram excepção. Tudo o que fosse concerto ou filme ou peça de teatro ou um pedaço de papel com anotações especiais, pensamentos ou fotografias íam parar ao álbum. Aquele, não teria sido um muito melhor filme para recordar, de entre tantos que ela gostava de ir ver ao King, talvez por isso decidiu não o incluir no álbum. Ele tinha adormecido durante a exibição da película francesa e pela conversa posterior, achava que aquilo tinha algo a ver com uma família. Ela riu-se, como se ria sempre e achou melhor não dar importância ao caso. Estavam algo desencontrados, talvez um dia se encontrassem a sério.
Agora, naquele comboio, pareciam-lhe mais distantes que nunca. Ela não a procurara, todas as razões lhe pareceram plausíveis, concluíu. O fumo do cigarro tranquilizava-a. Soprava o fumo, travava novamente o fumo dentro de si, prendia-o durante segundos, aquilo era mesmo bom. Um rapaz olhava-a fixamente, do seu lugar, na carruagem, enquanto ela fumava de pé, junto à porta. Lembrou-se de Manoel de Oliveira, aquilo parecia um filme do Manoel de Oliveira. Fechou os olhos, ela era a figura principal, a luz estava impecável, princípio de noite semi-fria de Outubro, e aquele rapaz bem poderia ser a sua nova conquista. Talvez fosse de Lisboa, talvez fosse o seu velho/novo/de sempre/Grande Amor que tinha, também ele, o seu coração despedaçado por alguma bimba que havia despachado no Porto, um amor impossível, separados pela distância, e agora conhecia-a a ela, uma romântica incurável, apaixonada, e haviam de ver todos os concertos e ler todos os livros e ele de certeza iria dar-lhe a conhecer um mundo novo e... estava a fazer um filme. Instantaneamente, o rapaz pareceu-lhe adivinhar o pensamento desesperado e desviou o olhar. Era um mundo cruel, aquele, e ela não queria conhecer mais ninguém. Isso dava muito trabalho e não estava disposta a isso: encontros, saídas, engates, jantares, conversas, estava demasiado cansada. Na verdade, ela não queria mais ninguém. Só queria que aquela dor parasse, que o sono chegasse, que as lágrimas parassem e deixasse de fazer a conversa mental consigo mesma que as coisas podiam ter outra solução. Não tinham. Estava tudo irremediavelmente perdido. Acabado.
Ligou o iPod e deixou que o modo aleatório lhe desse uma pista sobre que caminho havia de tomar. Não poderia ter sido mais angustiante o sentimento que surgiu quando ouviu os primeiros acordes da guitarrinha ironicamente alegre do Bill...A Man Needs A Woman Or A Man To Be A Man...