::diário de bordo, manual de sobrevivência, feito de teorias da conspiração, ideias parvas, conceitos, preconceitos, provocações, alucinações, livro de "receitas" pseudo-afrodisíacas, ora picantes ora agridoces, de alguém que vive num país assim a dar para o esquisito, a que alguém chamou um dia Portugal::


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sábado, 26 de dezembro de 2009

Ainda acreditas no Pai Natal?





Antes de mais, quero desmistificar uma certa ideia que possa pairar no ar depois de se ler este post: eu até gosto do Natal. Declaradamente "até" porque gosto da tradição de se festejar qualquer coisa, porque gosto de festas, mas confesso que "até" de festas já gostei mais. Sendo este blog um pouco autobiográfico, um pouco pateta e um pouco lamechas, isto não trará qualquer benefício para ninguém nem aqui defenderei acerrimamente uma dama que não é a minha. "Até" porque nestas coisas de fé, crenças e quejandos que tais, tudo se torna demasiado relativo e aqui está uma coisa que, com o tempo, gosto cada vez menos de fazer. Uma questão de definição.

Cheguei, este ano, à conclusão que acreditar no Natal, no pai Natal, em Jesus Cristo, e em Deus são ideias demasiado próximas, para meu grande infortúnio. Claro que entre um frito de Natal, a missa do galo e o desembrulhar de um presente, a coisa confunde-se com o brilho e o barulho das luzes do pinheiro e o brindar de uma bebida qualquer. Porquê? Porque apesar da grande maioria das pessoas não saber porque é que acredita em Deus e em Cristo, porque é que raio é católico ou não, toda a gente gosta deste maravilhoso engodo contra o frio e a depressão que é o Natal. Ou não. Pensa-se demasiado no que se fez e não devia ter feito, no que se alcançou ou no que não se alcançou, pensa-se em família, pensa-se num hipotético futuro que alguém nos disse que seria brilhante e, não sendo, porque falta sempre qualquer coisa dita "perfeita", chora-se e sofre-se porque o Natal é uma bofetada das grandes que nos chama à razão para a nossa imperfeição. Tudo deveria ser perfeito no Natal, não é? Não nos devíamos lembrar dos que já morreram, não nos devíamos lembrar de coisas tristes, que ainda não tivémos dinheiro para oferecer algo melhor aos filhos, e é precisamente nesta altura que se fala mais de amor, amizade, solidariedade e compaixão. É nesta altura que em vez de celebrarmos a alegria do nascimento de Cristo, nos vem à memória toda a infelicidade das nossas vidas e é nesta altura que nos lembramos de quem mais sofre. Ou não. Há sempre aquelas pessoas que não choram por nada e não se lembram de nada, não sofrem, ponto. Andam de cara alegre e apatetada sem derramar uma única lágrima, pois não sabem o que é isso de sofrer.

O Natal é das crianças, claro que é. Óbvio que é. Os melhores Natais da minha vida foram os idos, em que era uma criança inocente, em que ninguém ainda tinha morrido, não havia doenças e só havia fome em África e o raio do bacalhau cozido era limpo do prato à força de ouvir a minha mãe dizer "com tanta fome que há em África...". Não havia tantos brinquedos, por isso não se notava a grande diferença entre meninos ricos e meninos pobres. Havia sempre o ricaço que tinha computador e havia sempre o cigano que vivia da caridade dos colegas. Hoje em dia... bem, hoje em dia os putos são abalroados por popotas, computadores xpto, consolas etc etc etc etc... hoje em dia não existe a vergonha de outros tempos de se dizer a um colega que se teve mais prendas que ele. Hoje em dia os putos já sabem o que é a palavra status. No entanto, quero acreditar que há putos com valores, porque os há. Hoje em dia, e na parte que me toca, eu não acredito no Pai Natal, não acredito em Deus, e sinceramente, estou a começar a deixar de acreditar na solidariedade, na amizade, no amor fraterno entre os homens. Ninguém quer realmente saber de ninguém. Toda a gente manda uma merda duma mensagem pelo telemóvel, e é se mandar, ou uma mensagem pela Internet que sempre fica mais barato. Escrevi postais a algumas (vinte) pessoas e mandei-os pelo correio. Recebi, em minha casa, dois postais. Dois. Os meus pais já me disseram que tenho lá mais dois, dado que um deles deve ser do Partido, estou curiosa por saber quem será a alma caridosa que me escreve ainda para casa dos meus pais. Tenho o cuidado de fazer um PowerPoint personalizado que normalmente dá alguma coisinha mais sobre a minha vida, uma espécie de actualização do ano que passou. Tive cinco respostas. Isto apenas para dizer que o número tem vindo a decrescer bastante nos últimos anos. Claro que sms são aos pontapés, mas há quem não se digne sequer a fazê-lo. Telefonar, ligaram alguns. Poucos, muito poucos.

Já são alguns anos e eu sinceramente cultivo uma certa tradição que, ironicamente, não me diz quase nada, a bem dizer do meu ateísmo profundo. Não me choca, como nunca me chocou fazer férias num sítio quente, onde não se ouve falar de Natal, onde o cheiro é de óleo de côco e não de óleo de fritar rabanadas. Cultivo algo que já ninguém cultiva e desconfio que a partir de agora, vou deixar de fazê-lo, pois se o fazia, era por acreditar que as pessoas gostavam. Sinceramente? Que tinha amigos. Pelos vistos, enganei-me. Há quem se desculpe com a falta de tempo, o que me irrita ainda mais, pois é como se eu das duas uma: ou não tivesse vida e não tivesse também eu mais que fazer, ou tivesse uma fórmula mágica que me permitisse ser e fazer aquilo que mais ninguém faz ou é. Aposto totalmente na primeira. Ainda há quem faça o papel melodramático de quem não tem nada para festejar, que morreu alguém, ou que tem alguém doente na família, que o Natal não faz sentido. Pois, devem pensar que a minha vida é só alegrias. No fundo, algumas pessoas estão demasiado habituadas a receber e a verdade é que só se lembram dos outros quando esses mesmos outros desaparecem de "cena".
Este, talvez tenha sido o Natal mais calmo da minha vida, em todos os sentidos. Abriu-me os olhos para uma realidade que a dada altura, nos apanha a todos: não temos vinte amigos. Ter cinco já é uma sorte!

Para o ano, quando me perguntarem porque é que não liguei, mandei postal de cartão ou virtual, vou responder: "ainda acreditas no Pai Natal?"


domingo, 6 de dezembro de 2009

Este Natal...

... gostava de oferecer (sim, porque o Natal é tempo de dádiva, é tempo de sonhos, é tempo de altruísmo, é tempo de paz, é tempo de fazer e dizer o que não se disse durante o resto do ano inteiro, inclusivé nos Blogs ahahahaha) as seguintes prendas no "sapatinho" (friso GOSTAVA porque já sei que não as vou poder oferecer):




(e é nestas alturas que gosto realmente que praticamente ninguém saiba que tenho um Blog)







um McLaren F1 ao meu Mais-Que-Tudo.
(Já tens o gato, não faças essa cara!)








O Gerard Butler à minha amiga Ana Rita.
(mas o gajo fica em casa quando formos a Cuba).








Paciência (quilos e mais quilos) à minha amiga Sofia
(para o chefe, para os filhos, para o gajo, para as chatices da vida...) e umas consultas grátis no ortopedista que ela mais quisesse...






Uma temporada no Havai para a minha amiga P. que se tem dedicado tanto ao surf nos últimos anos.





Uma viagem de ida a NY à minha amiga Vera, em que nela estivesse incluída: uma bebedeira descomunal (todos os dias), umas doses de cocaína brutais, latas muitas de Red Bull com muito vodka e uma viagem de NY à California num Chrysler descapotável, sem mapa.
Eu depois ía lá ter, encontrávamo-nos em Las Vegas.
Quem é amiga, quem é?





Uma viagem às Maldivas (durante seis meses) como prenda de casamento àquele casalinho amigo que resolveu fazer uma festa de ajuntamento em 2010.








Um murro a alguns colegas
(sim, que isto de se dar, não interessa o quê, o que conta é a intenção, certo?)





Pronto, ok, talvez em vez do murro (que não é nada simpático), se os mandasse dar umas quecas não era má ideia, uma vez que a origem de muitos conflitos que vejo no local de trabalho, tem a ver com falta de sexo (oral, também, como mostra a figura).






Resmas de gajas boas aos meus melhores amigos
(os solteiros, claro; os outros só olham)









(OK Sérgio, para ti é a Monica Bellucci)










Um jacto a todos os que quisessem vir ter comigo, para matar saudades.







Um telefone que realmente funcione a algumas pessoas que eu conheço (daquelas que nunca têm tempo para nada, mas passam a vida a mandar e-mails de merda sobre a amizade, do tipo se não enviares isto a 50 pessoas vais morrer, ou do tipo cadeia da amizade, daqueles que dizem que não podem viver sem mim, que sou o máximo, etc, as mesmas pessoas que só dão notícias no Natal).










E cá está: a bela da meia turca com raquete cruzada e o belo do bibelot (que alguém deu o Natal passado e foi para o armário das prendas pindéricas) para dar àquelas pessoas de quem gosto IMENSO, como sinal da minha enorme amizade por elas. Nunca fiz isto, mas talvez este ano me encha de coragem e gaste o dinheiro nestas tralhas e no sêlo do envelope... vontade não me falta...






Um recado à TMN: este ano não vou oferecer telemóveis a ninguém nem quero que me ofereçam nenhum telemóvel novo, mas se fôr tão bem tratada pela operadora como fui este ano, mudo para a Vodafone e levo uma data de gente comigo.
Espatifo o cartão Mimo num instantinho.
Aproveito para fazer a má publicidade no Blog durante o ano novo de 2010. De borla e tudo!
Fica o recadinho.





Uma longa temporada neste Hotel de cinco estrelas a alguns políticos implicados em casos de polícia, em mentirinhas banais, em tribunais, etc (para descansarem das infâmias a que são sujeitos todos os dias, coitadinhos). A mesma temporada no Hotel implicava um pacote especial de vergonha na cara e uma embalagem de vaselina com areia.






Ora aqui está uma prenda que deixaria seis milhões de pessoas felizes: o Glorioso a ganhar o campeonato! Anda lá Jorge Jesus, estou contigo! Sê o Pai Natal de todos nós no ano novo (lá para coisa de Abril ou Maio...)






Uma VIDA a quem passa demasiado tempo a ler os Blogs dos outros. Já agora, quem passa muito tempo nos Blogs em geral. Eu afirmo que é mais saudável, principalmente para os olhos e para a vida sexual. Acreditem, 'been there...






Já agora, um Blog novo àquelas pessoas que passam a vida a falar do mesmo, e é sempre o mesmo, o mesmo, o mesmo, o mesmo, sempre o mesmo e outra e outra e outra vez.
Ninguém tem a coragem de lhes dizer (ou talvez até digam), mas são Blogs sem sentido de humor absolutamente NENHUM. Chatos. O tema é sempre o mesmo, ou é política ou é a vida sem sentido, ou a vida sem vida, ou a morte dentro da vida, ou poesias de merda... existem milhares de Blogs em Portugal que são uma trampa.
O meu pode não ser melhor, mas ao menos não levo isto tão a sério como esses bloggers.
Do que eu gosto mesmo é dos falsos avisos "vou de férias" ou "este blog vai fechar" e depois as férias duram dois dias ou não fecham o blog.
Não há pachorra...






Uma nova camada de ozono para o planeta em geral e para as pessoas em particular.lol

Para usar com cuidadinho, já que o outro f*******-no a torto e a direito.



domingo, 22 de novembro de 2009

Conservadorismo ou Facebook a mais?



#1::lata de conserva::
[devo esclarecer, antes de mais, que é o único
tipo de conservadorismo que considero::o resto é treta]


Este post fez algum eco na minha cabeça. Pedro Rolo Duarte. Pois, como em tudo na vida, não gosto de algumas ideias, não desgosto de outras. Nunca me é indiferente, o que já não é mau. Pior seria não surtir efeito algum.

Construimos ideias sobre os outros e concebemos juízos de valor a partir daquilo que nos dão. PRD assume-se como conservador. Seja!, ele é que sabe; cada um sabe o que é e como gosta de se assumir perante terceiros. Em oposição a isto, a tudo isto, não me assumo de outra forma como a óbvia e clara como a de um ser humano normal que nasceu na década de 70, pós 25 de Abril, e que não se considera como liberal ou conservadora, de esquerda ou de direita. Tenho ideias muito próprias e concretas, umas mais de pedra e cal, outras mais de areia movediça, e isso não se define num protótipo ou estereótipo. São de ponderar, as ideias que PRD deixa patentes no seu claro perfil, que me deixa um profundo ponto de interrogação na cabeça, sem lâmpada de desenho animado sobre mim mesma. Ora dado que já passei a fase dos porquês (ou devia ter passado), a idade do armário, a idade da revolta, a idade da auto-afirmação, e todo um conjunto de idades que nos distinguem em diversas fases da vida, e dado que cheguei à idade adulta com dias complicados que vão desde os porquês ao armário, do gugu-dada à parvoíce auto-induzida como forma de sobrevivência, isso faz de mim menos bem sucedida? Decerto menos preto no branco, mas penso que ninguém o é, embora toda a gente queira parecer ser. Num mundo onde toda a gente quer parecer muito adulta, bem, inteligente, atraente, com QI's e QE's acima da média, e onde ninguém é o que realmente é sem que pareça um atrasado mental ou um desgraçadinho ou um abandonado de merda com quem ninguém queira ter uma relação minimamente aceitável, dentro dos padrões da normalidade ditada pela sociedade de consumo, os meus dias de merda e de dúvidas, os tais dias cinzentos farão de mim o quê?


Afinal o conservadorismo da espécie baseia-se em quê? Traduz-se na quantidade de coisas novas que o indivíduo é capaz de assimilar, seja em atitudes ou costumes? É gostar mais de cozido à portuguesa do que de sushi? É curtir mais os Buraka Som Sistema do que o Rui Veloso? Burro velho não aprende línguas, já dizia a minha avó, e acho que é um bocado óbvio que quanto mais novo se é, mais aberto se está às mudanças, ao mesmo tempo que quanto mais velho se fica, menor será o grau de adaptabilidade a novas circunstâncias.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

Como em tudo, é uma questão de educação, de re-educação, de adaptabilidade. Só os burros também não mudam de opinião. Oh pra mim que votei na Manuela e já estou eu tão arrependida de ter votado na Manuela! (Devia ter votado no Portas) Oh pra mim que adoro cozido à portuguesa e não morro de amores por sushi! Oh pra mim que gosto de tudo o que é novo, de conhecer novos sítios, novas cidades, gosto de moda, gosto de música (também gosto de clássicos), gosto de novos autores (mas também gosto do Eça), gosto de experimentar coisas novas! Oh pra mim que não gostava de arroz doce e agora gosto! Oh pra mim que não gostava de feijão verde, de pêra-rocha, do Mark Kozelek, de me vestir às cores, que não gostava de gatos e agora gosto disto tudo! Oh pra mim que era viciada num belo maço de cigarros diário e agora o cheiro dá-me náuseas! Sim, vómitos! Isto são os contrasensos do ser humano que não nos permite (ou não deveria permitir) equacionar-nos, encaixotar-nos e reduzir-nos a perfis tão simplistas. Já agora, e para enriquecer o meu "perfil", devo afirmar que sou a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo e muito, mas muito mais ainda a favor da adopção por parte dos casais homossexuais. PRD diz-se a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas "vacila" perante a hipótese da adopção. Ele chama-lhe conservadorismo; eu chamo-lhe hipocrisia.


O rumo das coisas, a ser alterado, é feito com vigor, com energia, pelos mais novos, e com a paciência e displicência dos mais velhos. O conceito de conservador/liberal é algo que se usa conforme dá mais jeito. Erradamente, a meu ver. O conservadorismo é para "velhos" e o liberalismo tem de ser para os mais "novos". Independentemente da idade. No fundo, e para não confundir as mentes menos brilhantes, apenas pretendo dizer que de conservador, liberal e louco todos temos um pouco. É óbvio que a páginas tantas, a amálgama do que somos pareça um poço de contrasensos se embarcarmos nessa onda preconceituosa daquilo que é ser conservador e ser liberal.

Depois dizer que se gosta mais das músicas, sabores, filmes e cidades que já conhecemos como afirmação de conservadorismo é idiota. Isso é apenas um traço de personalidade. Adaptabilidade a novas coisas todos temos, em maior ou menor grau. E nada tem a ver com conservadorismo. Obviamente se eu disser que gosto mais do Irão do que dos EUA, se calhar a coisa já resvala mais para o conservadorismo. Já agora, para a imbecilidade também, mas cada um gosta do que gosta.

No fim, é de louvar o esforço da escrita e a exposição que este senhor faz de si mesmo, pois o que a muitos dos que lá andam a comentar, lhes soa a genial (porque se identificam, devem ser da mesma década de nascença que PRD), a mim soa-me a auto-promoção descarada, o traçar de um perfil, idêntico ao que vemos no Facebook de tantas pessoas, cheio de auto-promoções, clichés e mais clichés e cenas muito cool.

"Mas sou conservador, tá a ver?"


quarta-feira, 1 de julho de 2009

Novo Curso de Formação Para Homens





INSCRIÇÕES ABERTAS - NÃO PERCAM!



Novo Curso de Formação para Homens



OBJECTIVO PEDAGÓGICO:

Permite aos homens desenvolver a parte do corpo da qual ignoram a existência ( o cérebro ).

SÃO 4 MÓDULOS:



Módulo 1: Introdução (obrigatório)

1. Aprender a viver sem a mãe (2000 horas)
2. A minha mulher não é a minha mãe (350 horas)

3. Entender que não classificar-se para o Mundial não é a MORTE (500 horas)



Módulo 2: Vida a dois

1. Ser pai e não ter ciúmes do filho (50 horas)
2. Deixar de dizer asneiras quando a mulher recebe as suas amigas (500 horas)

3. Superar a síndrome de 'o controlo da TV é meu' (550 horas)
4. Não urinar fora da sanita (1000 horas - c/ exercícios práticos)

5. Entender que os sapatos não vão sozinhos para o armário (800 horas

6. Como chegar ao cesto de roupa suja (500 horas)
7. Como sobreviver a uma constipação sem agonizar (450 horas)



Módulo 3: Tempo livre

1. Passar uma camisa em menos de duas horas (c/ exercícios práticos)
2. Beber cerveja sem arrotar, quando se está à mesa (c/ exercícios práticos)



Módulo 4: Curso de cozinha

1. Nível 1 (principiantes - os eletrodomésticos) ON/OFF = LIGA/DESLIGA

2. Nível 2 (avançado) Primeira sopa instantânea sem queimar a panela

3. Exercícios práticos - ferver a água antes de colocar a massa



CURSOS COMPLEMENTARES:

POR RAZÕES DE DIFICULDADE, COMPLEXIDADE E ENTENDIMENTO DOS TEMAS, OS CURSOS TERÃO NO MÁXIMO 3 ALUNOS.



1. A electricidade e eu: vantagens económicas de contar com um técnico competente para fazer reparos;

2. Cozinhar e limpar a cozinha não provoca impotência nem homossexualidade (c/ práticas em laboratório);

3. Porque não é crime presentear com flores, embora já tenha se casado com ela;

4. O rolo de papel higiénico: Ele nasce ao lado da sanita? (biólogos e físicos falarão sobre o tema da geração expontânea)

5. Como baixar a tampa da sanita - passo a passo (teleconferência);

6. Porque não é necessário agitar os lençóis depois de emitir gases intestinais (c/ exercícios de reflexão em dupla);

7. Os homens que conduzem, podem SIM, pedir informação sem se perderem ou correr o risco de parecerem impotentes (c/ testemunhos);

8. O detergente: doses, consumo e aplicação (c/ práticas para evitar acabar com a casa);
9. A máquina de lavar roupa: esse grande mistério!!

10. Diferenças fundamentais entre o cesto de roupa suja e o chão (exercícios c/ musicoterapia);

11. A chávena de café: ela levita da mesa até ao lava-loiça?

12. Analisar devidamente as causas anatómicas, fisiológicas e/ou psicológicas que não permitem secar a banheira depois do banho.



*este post foi baseado num mail anónimo que recebi.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Auto-comiseração

Aviso à navegação: se for um sensivelzinho-coitadinho-pobrezinho-desgraçadinho passe à frente. Aqui ninguém é obrigado a ler nem a gostar. Como bom Blog que é, e como o tempo é coisa que escasseia por estes lados, nem me dou ao trabalho de tecer comentários nem discutir opiniões. Este post sim, é para os cínicos empedernidos como eu.



Quem nunca se vitimizou e nunca se sentiu a pior e última pessoa do mundo que atire a primeira pedra, mas (claro que há sempre um mas) não há cu que aguente os ataques de auto-comiseração a tempo inteiro.

Pior, a auto-comiseração daquele que se acha a vítima quando, no fundo, a verdade é que somos todos vítimas das nossas próprias acções. Problemas todos temos e os mais graves não somos nós que os buscamos. Os desígnios infinitamente misteriosos que explicam a maneira como alguns dão "a volta por cima" mais depressa que outros, não têm, para mim, grande explicação nem constituem, na verdade, grande mistério. Trata-se de ter uma medula que aguente relativamente, trata-se de já ter passado por problemas REAIS de forma a conseguir-se perspectivar uma situação dita problemática, trata-se de se ser digno e manter a honra a todo o custo. Acima de tudo, trata-se de racionalizar e perceber o que é estar na pele do outro.

Tenho verificado em situações reais, minhas e de outros, que é fácil perder o controlo, é fácil perder-se a cabeça, é fácil errar, escolher um mau caminho e entrar num labirinto que ninguém escolheu. Errar toda a gente erra, ninguém é perfeito e a vida não é um mar de rosas.

Fazer do queixume uma bandeira, exibindo os nossos ENORMES problemas, cagando-se no resto (sim eu escrevi cagando-se no resto), para se justificar certas atitudes ou ganhar simpatias, é a melhor forma de fugir com as pessoas à sua volta.

Não existem pessoas fortes ou fracas. Pessoas ditas fortes têm o direito a chorar e a gritar, mas infelizmente subsiste a ideia de que as pessoas fracas são as que choram, as que toleram, as que suportam. Para mim, isso não existe. Existe mais dignidade nuns do que noutros, existe o silêncio que por vezes é preferível à ladainha do desgraçadinho, da vítima que auto-proclama como tal.


Tenho um grande amigo que, aos 16 anos me resolveu o problema de auto-comiseração, quando me punha com os queixumes de gaja. Dizia "olha, a tua vida é tão má tão má, que se eu fosse a ti, deitava-me ali na linha do comboio à espera que me passasse por cima". Quando eu lá me punha na choraminguice, ele já só dizia "linha do comboio". Tenho muito a agradecer a esse meu amigo.


Eu não tenho amigos que se armam em vítimas, é bom que se note e faço questão de o dizer. Ironia, é que acabam por ser as reais vítimas dos problemas que nunca procuraram as que menos se queixam. Muito pelo contrário: raras são as vezes em que alguém se queixa da vida que tem (muitas vezes tão difícil), do dinheiro que falta (quando normalmente a quem mais falta, é quem menos se queixa), do namorado que é um cabrão (ou a namorada, vá) and so on. Não são mais "fortes", nem aguentam melhor, e não fazem segredo dos seus problemas, até porque para revelar um problema grave sabem que estou sempre cá para eles, e muito menos vão abrir blogs a dizer que são uns miseráveis e incapazes. São apenas mais dignos. E isto diz tudo.



p.s.: dedico este post ao bruno (a "linha do comboio é já ali!"), à helena (essa cabra fria e cruel de quem tive saudades, confesso, ehehehe), à marisa (que nunca cá põe as patas lol) e sobretudo ao meu amor, que depois de duas semanas tão difíceis, manteve sempre a calma e no final, tudo acabou bem. Sem desesperos.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

"Eu já fui assim como tu"











No espaço de um ano conto pelos dedos das mãos (e dos pés) a quantidade de colegas (todas mulheres) MAIS NOVAS QUE EU que me disseram

"eu já fui assim como tu..."

e eu fico assim com cara de parva, e não sei se é para rir ou chorar, ficar ou fugir, aceitar ou repudiar, não sei se é bom ou se é mau

porque

a afirmação é dita com uma certa pena e admiração do que se foi e se perdeu, mas mistura um certo desdém de alguém muito mais experiente, alguém que já trilhou este errado caminho em que me encontro, tudo a propósito de dizer aquilo que penso, de forma mais ou menos cínica ou mais ou menos directa. Pessoas que pouco sabem da minha vida pessoal e profissional quase a elogiarem-me pela "coragem" que eu tenho, mas que lá no fundo, acham mesmo que é uma doença rara.


Um pouco à laia de "quem avisa teu amigo é" porque o melhor é fazer jogos de bastidores e neste triste espectáculo que é a vida, nunca é bom saber de que lado se está. Nunca se sabe com o que se conta. Importante é saber agradar a todos. Sempre com um sorriso nos lábios.

««««»»»»

Pena peninha daquilo que já tive e já não tenho, só se for a capacidade de ressacar com mais energia e menos dores de cabeça. Só.
.









segunda-feira, 18 de maio de 2009

Relógio Biológico aka Medo da Solidão aka Pressão "já está na hora!"


Só o título já diz metade.


Não acredito em "relógios biológicos" . Não acredito numa idade própria para se sentir entranhas a pedir bebés. Não acredito em apelo sagrado ou chamamento divino para a maternidade. O "está mais que na hora" dos amigos e familiares, para a procriação é um jogo algo ridículo do tipo "agora que já somos adultos, vamos lá fazer o que se espera de nós". Casa-se porque sim, tem-se um emprego porque sim, tem-se filhos porque sim e compra-se aquele carro porque sim. Tudo porque sim. Porque é suposto fazer-se aquilo. Porque é suposto uma mulher ter filhos. Senão, é anormal. Já agora, para um homem também. Os dedos da pressão social resultam, muitas vezes, em boatos ridículos "ahhh deve ser gay" ou "deve ser lésbica". Facto é que o chamamento só atinge as mulheres, porque só as mulheres é que têm filhos (o homem português é ainda visto como uma espécie de "apêndice" e a paternidade é aquela coisa que só os nórdicos levam a sério).


Adiante.


Isto do apelo maternal serve tanto para as mulheres que se fazem acompanhar de machos cobridores, tanto para as outras, as que "optaram por ficar sozinhas, que optaram pela carreira". Como se as mulheres que têm machos em casa não fossem mulheres de carreira ou pouco dedicadas à mesma, ou já agora, as que estão sozinhas e "abandonadas", não pudessem ser umas frustradas profissionais(?!?!) Ou se tem uma coisa ou outra? Na mesma onda de quem é bonito não pode ser inteligente, e quem é um génio, só pode ser um trambolho? Quantas pessoas lindíssimas e atraentes são também inteligentíssimas! Como qualquer outro, é um cliché, este o da desculpa da "grande carreira".


Serve porque para além de "terem optado pela carreira", até podem "adoptar". É tudo assim, tão fácil como eficaz. Se não surgir ninguém, e se chegarem à barreira dos 45/50 sem ninguém, têm as suas brilhantes carreiras e até podem ter essa "opção". Tudo é uma opção, até a solidão que tentam mascarar foi uma opção. De repente, uma criança torna-se "uma opção" para não se ficar sozinho. Não se teve porque a carreira vinha primeiro (leia-se "ninguém lhes pegou") e quando já era tarde (até ninguém lhes continuar a pegar), "optam" pela adopção. Depois, numa de Maria Barroso, numa de "solidariedade" para com os meninos carenciados e coitadinhos, acham que podem "contribuir para tornar a vida de alguém melhor, dar-lhes amor e carinho", adoptando-os. Vão a um lar de adopção buscar um bebé take-away (leia-se criança abandonada e com traumas e com vidas interrompidas pela desgraça), como quem vai a um canil buscar um cão ternurento e fofinho! Mascaram o desespero de não quererem morrer sozinhas, de desistirem de encontrar alguém, com a atitude (ainda por cima nobre) altruísta de adoptar uma criança. Para mostrar que podem ter falhado como amantes e mulheres, mas ainda vão a tempo de não falharem enquanto mães. Alguém devia dizer a estas criaturas que dizem "ah, não faz mal se passar da idade, adopto depois!" que a adopção não é um processo à la Angelina Jolie/Brad Pitt e que tão pouco adoptar uma criança serve para tapar o vazio da solidão.


Depois, existe o tal preconceito que o casal tem de ter filhos. Ponto. Casam e têm filhos.

Uma colega de trabalho, com quem troquei uma meia dúzia de palavras em reuniões e uma conversa ou outra, pergunta-me "há quanto tempo estão juntos?" ao que depois de lhe responder ela diz "ahhhh, já está na hora!" Sem me conhecer de lado algum. Simplesmente isto. Uma miúda de 25 anos que passa a vida a queixar-se que o marido não a compreende, casadinhos de fresco, e fala-me que sente que "já é tarde aos 25" para ter o primeiro filho. Não se entendem, mas ter um puto vai resolver o problema de comunicação. Entre uma fralda e outra, talvez cheguem a alguma conclusão... pode ser que resolvam a vida toda do puto até ele ter trinta anos.



Antigamente as pessoas tinham filhos sem esperar, fora de tempo, mas por se amarem. Hoje, tem-se um filho não porque se ame outra pessoa. Tem-se um filho como projecto de vida, como exercício de egoísmo, porque está na lista de "sonhos e projectos", como tapa buracos, às vezes até mesmo para se salvar uma relação ou para se mostrar às amigas que também se é uma fêmea parideira. Para se ser aceite. Depois de os terem, é a velha batalha de os projectarem à sua imagem e semelhança. São os pais que vivem a vida dos filhos porque não têm uma vida própria. Imaginem então se forem mães solteiras... ufa!



Estas coisas atingem-me, claro que atingem, e nunca percebi muito bem o que é isso de "instinto maternal" ou relógio biológico. Tem-se depois de comer um Bio Danone? Não sei, não vejo nem sinto as coisas dessa forma. De quando em vez, sinto-me a anormal cá do bairro, porque não sinto o chamamento divino da maternidade, não penso em adoptar crianças, não vejo gracinha nenhuma nas fraldas borradas que me dão vontade de vomitar nem faço bilu bilu, nem me derreto com bebés.


Penso que deve ser fantástico poder ter uma criança com os olhos do homem que amo, dar-lhe uma educação, transmitir-lhe os nossos valores, acima de tudo, amá-la por tudo aquilo que ela quiser ser. Não agora e não sei quando. Às vezes as oscilações hormonais da TPM fazem-me chorar e fazer figuras tristes só de pensar que se entretanto não sentir esse instinto maternal, e se só surgir aos 50, então o gajo troca-me por uma mais nova nessa altura e têm uma ninhada de filhos juntos. Buááááá!!!!!!!!!!!!!



Por enquanto o meu amor egoísta é apenas relativo a esse homem, e se continuarmos juntos e sem filhos porque ambos decidimos assim, óptimo. Não vou desculpar-me atrás da carreira que tenho, ou do dinheiro, ou da falta de tempo que nunca são suficientes. Se um dia isso mudar, óptimo. Senão, tudo bem na mesma. O que eu não vou fazer de certeza é esconder-me atrás da frustração de nunca ter podido ter um filho, e dizer que foi por opção, pela carreira, etc. Ou dizer "ah e tal, o gajo deixou-me por uma mais nova porque não lhe podia dar filhos, então vou adoptar!" Nesse dia, faço as malas e vou correr mundo. De certeza que hei-de encontrar algo de mais interessante para fazer do que trocar uma fralda...





quinta-feira, 14 de maio de 2009

"Ar de poucos amigos"








Confesso que não sou uma pessoa de ir em "aparências". Quase nunca gosto das pessoas com "ar feliz" (embora o meu, seja o "ar" mais estúpido do mundo), preferindo sempre as carrancudas e com "ar de poucos amigos". Toda a gente deve ser agradável, bem educada, polida e convenientemente silenciosa, até porque o contrário a esta adjectivação é algo de insuportável. Certo é, e pasmem-se aqueles que acham que tiveram alguma vez o privilégio de me conhecer, que eu sei ser insuportável. Alguns comportamentos levam-me a isso. Reconheço totalmente. Admito, assumo, tenho plena consciência disso. Daí até ao arrependimento é um caminho difícil, já para não dizer impossível ou irreversível. Chego a gostar de ser insuportável, tenho prazer em ser insuportável.


Porquê? Porque nem tudo o que parece é. Todos os comportamentos (e não pessoas) que provocam o animal que há em mim, são fruto de coisas que, na minha escala de valores, são inconcebíveis, intoleráveis. Tal como eu, o resto do mundo. Voltemos ao princípio: e se essas pessoas que têm "ar de poucos amigos", tiverem boas razões para o ter? E se tivermos julgado mal essas pessoas? E se afinal a história não era bem como se contava por aí? E se afinal o louco que todos julgavam louco, era o mais lúcido de todos?


Muitas vezes aquilo que se ouve por aí, os boatos, as histórias mal contadas, os comportamentos desajustados atribuídos a alguns e retirados a outros, são apenas pedaços de mentiras mal metidas e os factos não estão nem são muito claros. Tudo parte desse princípio errado: a mentira. Todas as mentiras acabam por se descobrir e tudo o que alguns julgavam estar encoberto porque afinal souberam mentir muito bem, acaba por vir ao de cima.


As máscaras sempre acabam por cair. E ainda bem. Começo a não ter paciência nenhuma para as milhentas histórias de homens que, no final de uma relação, ou porque querem precipitar o final de algo, mas não têm os tomates para assumir o que querem (ou não querem), justifiquem toda a trampa que fazem com a frase "ela é louca". Ou algo equivalente a isto: a loucura da mulher, namorada, companheira. Como provavelmente ela até anda sempre com cara de caso (ou "ar de poucos amigos") porque deve estar farta de alguma situação limite a que está sujeita com o gajo, ou tem comportamentos desajustados, é fácil assumir que ela é que é a "louca da história". Quase sempre é a mulher a "louca da história".


Qualquer um de nós conhece alguma história inexplicável entre um homem e uma mulher e quase sempre nessa história a louca é ela. Dá que pensar, não?


Eu vou levar o meu "ar de poucos amigos" até outras paragens. Até porque tenho mesmo poucos amigos. Mas os que tenho são bons.






domingo, 10 de maio de 2009

"Nada se perde, tudo se transforma"

Porque é que as pessoas (se as pensarmos em abstracto), se desencontram da sua natureza e se tornam feias e azedas, à medida que crescem? Porque, ao contrário da natureza, são escassas as vezes em que aprendem com a experiência. Porque não querem? Não; porque a complexidade dos seus sentimentos e do seu pensamento é grande. E, enquanto a natureza metaboliza as diferenças em ciclos de tempo onde caberiam muitas gerações humanas, é raro que uma pessoa encontre quem transforme, num período circunscrito da sua vida, sofrimentos enquistados, sentimentos por legendar e pensamentos que, simplesmente, se intuíram, sem nunca se terem formulado.

Eduardo Sá




Segundo o que Lavoisier defendia, "na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma." . Há quem prefira citar grandes filósofos, poetas, escritores e, mais recentemente, psicólogos ou sociólogos; eu prefiro citar este grande Químico, que foi Lavoisier.



Concordo com a opinião de Eduardo Sá: o ser humano é, ao contrário do resto da Natureza circundante, complexo. Mais do que complexo, acrescento que o ser humano gosta de complicar, gosta de "inventar", criar situações ambíguas que não o permitem ver para além da sua esfera pessoal, fechada e compacta. Qualquer um tende a ampliar ou a diminuir determinada situação que acha que o separa do resto do mundo, apenas porque cada um de nós teima em não perceber que somos todos muito mais iguais do que imaginamos ou gostaríamos de achar que somos. Não vivemos em esferas separadas, vivemos todos dentro da mesma bolha gigante e todos nos dividimos por entre desejo, medo e sonho. Quem acredita piamente que é um desgraçado separado do resto do mundo, incompreendido pela sociedade, é com certeza alguém amargo, azedo, que não terá muito mais a dar senão o queixume típico de um "velho do Restelo". Existem os velhos amargos e existem os velhos loucos. Infelizmente, começa a existir uma legião enorme de pessoas tremendamente novas e muito amargas.
Será sempre assim? Deverá ser assim?



Há dois anos li um livro por sugestão de uma grande amiga: O Poder da Kaballah. Ofereci a resistência natural de quem acha que aquilo é um livro de auto-ajuda, mas ela explicou-me que não. Eu entendi que não, e de facto não o penso assim, afirmo mesmo que aquilo tem tanto de auto-ajuda como outro livro qualquer, um ensaio ou um romance. Gostei muito do que li, até porque o livro não "vende" soluções nem impinge ninguém a cumprir nada e cheguei à conclusão de que perdemos muito mais se não abrirmos horizontes em determinadas direcções. Seja culturais, seja pessoais, seja profissionais. Acharmos que estamos talhados para determinado objectivo ou que estamos destinados a ser de determinada forma, a conduzir a nossa vida e a seguir determinado rumo apenas porque os outros insistem em achar que sim, (ou porque nos auto-educamos e controlamos nesse sentido), é a forma mais limitativa e castradora de se viver a própria vida, de ter iniciativa, e condenamos a própria existência a um destino ou a um plano que alguém tem para nós.



Sempre me recusei a aceitar isso, tenho vindo a somar mais vitórias do que derrotas ao pensar desta forma; talvez por isso me assuma como ateia, talvez por isso me chamem "louca" muitas vezes. Talvez por isso me recuse a ver o mundo pelos olhos dos que se resignam e aceitam, dos que se conformam em nunca alterar o estado das coisas, em nunca mudar, em não aceitar o outro lado do espelho. Fazer as coisas sempre da m-e-s-m-a m-a-n-e-i-r-a conduz-nos a uma estagnação e a uma atrofia, a um empobrecimento espiritual, à tristeza.



Creio, em última instância, que o Bem vence. Que tudo está bem quando acaba bem. Que por mais que se sofra haverá uma contrapartida, que as diferenças poderão esbater-se se tivermos em atenção tudo o que os pratos da balança contêm. Que para tudo há uma causa, e tudo pode causar um efeito. Que, acima de tudo, nada mas mesmo nada justifica a mentira, a maldade, o Mal que impera e nada se faz para inverter o culminar de um final trágico. Nada se resolve por si. Certos pensamentos e sentimentos podem ser digeridos e metabolizados se assim o quisermos; as razões para procedermos ao esquecimento de alguém ou de alguma atitude são o motivo mais forte para que os danos sejam minimizados, para que as perdoemos ainda que nunca o saibam. Perdoar os outros, e sempre perdoar-se a si mesmo.


Nada se esquece, quando nos magoa, mas pode ser compreendido, pode ser dissecado, pode ser assimilado, à semelhança de um prato indigesto que nos caíu mal ou de uma chama de fogo pela qual passámos a nossa mão. Ninguém gosta de comer o que sabe que lhe vai fazer mal, se sabe que é alérgico, se sabe à priori que pode vomitar ou até morrer. Tal como ninguém coloca a mão na chama ao saber que se vai queimar. Vivemos condicionados pela aprendizagem que da vida fazemos, que da vida retiramos, dos erros que cometemos. Aceitar isso é importante, para não se voltar a um caminho por onde já se passou, para não voltar a magoar terceiros se já os magoámos antes. Transformamo-nos, todos os dias.



Ter a consciência de que é um mundo imenso, cheio de experiências e erros a cometer, é uma dádiva que devemos abraçar, na certeza que nem tudo é mau e que pode ser uma mais-valia queimarmo-nos de vez em quando. Uma e outra vez. Porque tudo se transforma, mas há chamas que nunca se extinguem.



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terça-feira, 5 de maio de 2009

Estranha Forma de "BlogoViver" II

Os meus Blogs preferidos, na sua maioria, não recebem comentários meus, e não os recebem porque acrescentar algo ou comentar aquilo que considero bom ou excelente, acaba por ser um exercício inútil. Se já dizem tudo, para quê acrescentar o que quer que seja? Existem outros que nem sequer caixas de comentários têm e salvo um mail ou outro que acho por bem escrever aos seus "donos", fico-me por aí. Continuo sempre a visitá-los e lê-los diariamente.


Depois há os outros, os das palmadinhas das costas. Ninguém fala do que desconhece e reconheço a minha própria bestialidade nesse estranho mundo e dessa estranha e algo ingénua forma de coexistir virtual e levianamente. Como diz e bem Miguel Sousa Tavares, um mundo de facilidades. Os elogios, as opiniões sempre iguais, o nunca acrescentar nada de novo, um simples "bom dia", apenas uma sugestão daquilo que é uma espécie de amizade. Confunde-se tudo, confundem-se intenções, surgem sentimentos dúbios que não passam de solidões assistidas. Resultado de muito tempo entre mãos e uma imaginação fértil.


Às tantas, começamos a perceber que o propósito de se ter um Blog é apenas o da aceitação, o da retribuição, o do feedback, o cobrar-se qualquer coisa que começa a ser uma obrigação, sentimo-nos obrigados a ter de cumprir um ritual diário de passagem por um blog, à semelhança da passagem pelo café do costume, e não o da necessidade de escrever, pelo exercício puro de escrever.

Outro factor e, não obstante a forma como as pessoas se expressam, a obrigatoriedade passa a ser também o da concordância, para além do da presença. Curioso é constatar que pessoas tão social e política e racionalmente correctas não aceitam críticas ou opiniões divergentes das suas e pela expressão de tais opiniões nas suas caixas de comentários, "correm" connosco de lá numa valente chapada virtual. Como se fazer parte de uma "tribo" em que todos têm de ter as mesmas opiniões e dar as merecidas e previsíveis palmadinhas nas costas é condição obrigatória de um ritual de passagem para se obter uma pertença a qualquer coisa ou a alguém.

As gajas gostam de ouvir que são lindas e maravilhosas e se pudéssemos, formaríamos um Clube Pilinha Não Entra, do tipo Girl Power. Os gajos gostam do elogio fácil e que eles são os nossos Tarzans da opinião generalizada, e quiçá, um dia destes, ganham um Pullitzer ou serão um Nobel.


Voltamos todos à adolescência, no fundo. A adolescência virtual do "se me visitares, eu visito-te a ti". Somos todos tão profundos e coiso e tal. Concordamos e tudo; se discordarmos, temos de o fazer com moderação, contenção e com as palavras certas nas linhas e entrelinhas certas, à boa maneira pidesca e portuguesa. Andamos todos a rir e a chorar pelo mesmo e lemos todos os mesmos livros e ouvimos todos os mesmos discos. Há uma obrigatoriedade de igualdade. Como se fôssemos todos equipas desportivas, e quem está de fora não é aceite. Basta clicar nalguns blogs em que alguns leitores se sentem constragidos até de dizer o que quer que seja do contra, em caixas de comentários, não vá levar chapada da grossa, porque anda tudo por lá a abanar a cabeça ao que o dono do blog diz.


Já fui corrida a pontapé, de muitos Blogs e até mesmo no meu próprio, por escrever sobre determinado assunto ou exprimir determinada opinião.


Perde-se algo neste percurso, neste labirinto imenso que é o mundo dos blogs. Perdemo-nos, se nos deixarmos iludir que aquelas pessoas nos compreendem muito mais do que as "nossas pessoas". Começamos outra tribo que, na realidade, não existe.


Estranha Forma de "BlogoViver"

"Uma sociedade inteira vive mergulhada num mundo de facilidades e aparências, afogada em sms, mails, blogues e redes sociais, onde procura criar uma estranha forma de vida e de relacionamento humano, que garante o contacto e o sucesso imediato e dispensa o incómodo que é enfrentar a vida real, sem ser a coberto do anonimato ou do disfarce hipócrita, e sem ter de assumir as consequências dos seus actos nem o vazio de passar por aqui sem ter feito nada de útil para os outros."




Miguel Sousa Tavares, in Expresso








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sábado, 2 de maio de 2009

em dia de despir



"As pessoas querem um amor como se fora um relicário e usam-no até que se transforma num electrodoméstico estafado que é preciso fazer substituir por outro relicário. Querem um amor para se vestir de julia roberts, richard gere e, aos dias, vesti-los de cinema fácil e aviões particulares. E fazem estudos cheios de dopamina, primeiro, oxcitocina depois, divórcio, ao fim. Esta falta de quotidiano baralha-me. O encanto da mentira é a mentirinha que diz eu estou a mentir, a encenação que denuncia, maliciosa, a inocência. Todo o prazer profundo tem a raiz na verdade do dia a dia que explode com a perfeição de um poema de Ruy Belo: um dia a dia imperfeito e completamente iluminado por esse outro a quem se ama territorialmente na apropriação apaixonada do corpo, do pensamento, da vida, que de a sabermos tão outra a queremos tão nossa! Sou toda quotidiana, o meu circuito neuroquímico é alternado. Eu não quero um amor para o vestir, quero um amor para despi-lo."



in http://matria-minha.blogspot.com/














Ou o Amor-Ready-To-Wear (em inglês fica sempre mais chic). Às vezes também me apetecia olhar o amor - ou o meu amor (vai dar quase ao mesmo, entre o sentimento e o "objecto de afeição") - como algo do qual tivesse uma expectativa diferente daquela que tenho, ou como se visse a paixão duma forma quase absurda que algumas pessoas comportam na sua vida: com prazo de validade. A paixão, diz-se, nada tem a ver com o amor, são sentimentos diferentes, a paixão perde-se com o tempo, o amor cresce e a amizade cresce e o companheirismo cresce e tudo cresce menos aquilo que nos fez despertar para o amor, que é a paixão. Claro que as pessoas quando falam de paixão não estão a falar de paixão, estão subentendidamente a falar de sexo e tesão e tusa. Pode ter tudo a ver com a tradução da paixão, mas paixão tem tudo a ver com a cabeça perdida, com a cabeça à roda, com pensamentos perdidos, com sexo também, muito sexo também, de querermos ver o nosso corpo perdido dentro do outro.


Ou ando muito enganada, ou para mim falar de amor faz todo o sentido falar de paixão, de sexo, de tesão. Tudo se alterna e tudo se transforma. O corpo, a alma, a cabeça perdida, tudo em desalinho mais uns dias que noutros, tudo dentro do lugar quando há que saber estar no lugar, em conformidade com a própria vida que se atropela e evolui e sai do lugar, pois nada se controla por si só e nada se cumpre a si mesmo sem a soma dos dias que sempre são tão diferentes entre si. Às vezes também tão iguais e tão cheios de rotinas, num apetitoso saber afirmar que temos e gostamos de rotinas, que nos são necessárias.


Posso andar muito enganada, mas não sou a única.
Reinventemo-nos ao despirmo-nos um pouco e ao despirmos o outro dentro de nós. De todas as maneiras possíveis e imaginárias.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Atenção: isto não é um post verdadeiramente lamechas




Sempre fui da opinião que se deve dizer às pessoas o que pensamos delas. Melhor, se gostamos delas, se as estimamos, se achamos que temos um papel importante nas suas vidas. Fazer juízos de valor e fundamentá-los, tendo por base um conhecimento real das suas acções e da sua personalidade. Criticar as pessoas é uma forma de as levar ao seu melhor, sempre pensei. Acima de tudo, dizer às pessoas o quanto gostamos delas, o quão importantes são na nossa vida, que as amamos, que fazem de nós melhores seres humanos, etc etc etc. De igual modo, não temer de vez em quando ter de mandar à merda essas pessoas. Assim, sem mais nem menos, quando elas merecem. Acima de tudo, aceitar o mesmo comportamento quando se nos é dirigido.


Sempre fui desta opinião. Depois, veio a vida e ensinou-me que isto não está errado, está até muito bem, mas não é válido para todos. Porque senão vejamos: nem toda a gente gosta de ser criticado e alvo de juízos de valor; nem toda a gente acha que terei (ou outra pessoa qualquer) o direito de criticar seja lá o que for; as pessoas não atribuem a mesma importância que eu lhes dou a elas, independentemente de estarem no top ten da minha preferência. Isto é o que a vida me tem ensinado. A percepção que temos dos outros é algo de inacabado quando esses outros não nos dão a verdade daquilo que são. Desculpabilizar-se aquilo que consideramos errado à luz de um afecto que só existe na nossa cabeça, ou de olhos de carneiro mal morto, é a maior estupidez que se pode cometer em detrimento de nós próprios, e de outros que estimamos, admiramos e valorizamos. Até porque depois o que levamos é um grande chuto no cu à menor contrariedade (leia-se crítica). Adiante.


As camadas de verniz caem sempre, por mais que essas pessoas jurem a pés juntos que gostam de nós, que nos admiram, etc etc etc. Portanto, nem sempre aquilo que parece, é.

Li este post e concordo inteiramente, naquilo que me é dado aceitar interiormente, como pessoa que sou e sabendo aquilo que sou, afirmando aquilo que sei sentir por quem me rodeia. Às vezes também me engano e reconheço que me enganei. Os afectos podem passar por gostar mais de mousse de chocolate do que de baba de camelo, e aquilo que eu pensava que era um afecto incondicional com duas faces, deixa de o ser quando me apercebo que mais do que está em causa, é por vezes, aquilo que fica em jogo quando o outro se sente atacado pois não entende o que foi dito. A grande maioria das pessoas tem uma baixíssima auto-estima, e não quer aceitar uma crítica ao mesmo tempo que grita a plenos pulmões que quer sinceridade e transparência. A amizade para estas pessoas clama por aprovação, nem que andem a comer merda às colheres.

O ser humano é o maior cão do diabo se o pretender ser. Não existem pessoas completamente boas nem completamente más. Existem as chamadas zonas cinzentas por onde juízos de valor e afectos andam de mãos dadas e cruzam-se em escadas rolantes. Por vezes, apenas se cruzam e seguem caminhos opostos.


Exemplos disto temos todos nós nas nossas vidas, todos os dias: os colegas de trabalho que cravam facas nas costas enquanto se riem para toda a gente, amigos que deixam de se relacionar porque não gostam da cara-metade do amigo, amigos que não aceitam críticas, amigos que têm blábláblá mas que na pior hora não nos atendem sequer o telefone, etc etc etc. E a dada altura das suas vidas, acredito piamente que se juraram amizade eterna, ou que disseram que adoravam mesmo trabalhar com aquela pessoa. Eu sei, já me aconteceu a mim, um pouco de todas estas situações. O melhor é seguir caminho, com algum amargo de boca, num sorriso algo forçado. Para além de tudo isto, as pessoas crescem, as pessoas mudam todos os dias, e acompanhar esse crescimento é muitas vezes difícil. Se as pessoas não mudam, as suas vidas com certeza que sim. Talvez por isso, amigos de infância deixam de sê-lo.


Não é fundamental dizer-se a alguém, a um amigo, que o "amamos".


A autenticidade não reside nas palavras, escritas ou ditas, mas sim no valor que sabemos que essa pessoa tem para nós e nós, para essa pessoa. O resto é um big big bullshit. Vivemos dias em que toda a gente quer cultivar a palavra amo-te e adoro-te e acaba por não ser nada daquilo.

O amor anda subvalorizado nos dias que correm, mas as palavras andam na boca de toda a gente. Tenho uma grande amiga que lhe chama leviandade, o "adoro-te" a toda a hora. Tenho uma outra que admite que não é pessoa que goste de ter grandes demonstrações de afecto. Eu gosto de demonstrações físicas de afecto, abraços e tal, mas só os dou a quem os quer receber, e só àqueles de quem realmente gosto. Não sou de dizer "amo-te" e "adoro-te". Se algum dia o disse a alguém, é porque o senti realmente, sabendo que não existem estradas sem retorno. Como disse antes, também eu me engano.


As pessoas, em geral todas, sabem sentir quando são importantes para alguém, ainda que a outra pessoa não o tenha dito, tal como sabem distinguir quando não o são, muito embora a outra pessoa afirme a pés juntos que é uma "grande amiga de x".


Por isso, não é grande pecado amar-se alguém, gostar incondicionalmente de uma pessoa sem nunca lho ter dito. Não existe urgência na demonstração verbal dos afectos. Não quando as pessoas se conhecem verdadeiramente, não quando sabem os demónios interiores que ocupam determinados espaços na vida de cada um.




p.s.: dedico este post aos amigos a quem nunca disse que os amo. ehehehehe. eles sabem quem são.



sábado, 28 de março de 2009




Regras Essenciais para uma Boa Amizade


Os homens assemelham-se às crianças, que adquirem maus costumes quando mimadas; por isso, não se deve ser muito condescendente e amável com ninguém. Do mesmo modo como, via de regra, não se perderá um amigo por lhe negar um empréstimo, mas muito facilmente por lhe conceder, também não se perderá nenhum amigo por conta de um tratamento orgulhoso e um pouco negligente, mas amiúde em virtude de excessiva amabilidade e solicitude, que fazem com que ele se torne insuportável, o que então produz a ruptura. Mas é sobretudo o pensamento de que precisamos das pessoas que lhes é absolutamente insuportável: petulância e presunção são as consequências inevitáveis.

Em algumas, tal pensamento origina-se em certo grau já pelo facto de nos relacionarmos ou conversarmos frequentemente com elas de uma maneira confidencial; de imediato, pensarão que nós também devemos ter paciência com eles e tentarão ampliar os limites da polidez. Eis porque tão poucos indivíduos se prestam a uma convivência íntima; desse modo, temos de evitar qualquer familiaridade com naturezas de nível inferior.

Contudo, se esse indivíduo imaginar que é mais necessário a nós do que nós a ele, terá como sensação imediata a impressão de que lhe roubamos algo. Tentará então vingar-se e reaver os seus pertences. O único modo de desenvolver a superioridade na convivência com os outros é não precisar deles de maneira alguma e fazê-los perceber isso. Consequentemente, é aconselhável fazer sentir de tempos em tempos a qualquer um, homem ou mulher, que podemos muito bem passar sem ele. Isso fortalece a amizade.

Para a maioria das pessoas, não é prejudicial se, de vez em quando, adicionarmos uma pitada de desdém na nossa atitude para com elas. Atribuirão tanto mais valor à nossa amizade: Chi non estima vien stimato [Quem não estima é estimado], diz um fino ditado italiano. Se, todavia, alguém nos é de facto muito valioso, devemos ocultar-lhe essa conduta como se fosse um crime. Ora, semelhante atitude não é agradável, mas é verdadeira. Os cães quase não suportam uma amizade excessiva; os homens, menos ainda.


Arthur Schopenhauer, in Aforismos para a Sabedoria de Vida




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Em Coimbra há um velho hábito de ostentar, nas pastas de estudante, oito fitas da cor do respectivo curso superior - não Sara, não vou falar dos anéis de curso (you wish!) - em que cada uma delas corresponde a: pais, irmãos, restante família, namorado/a, professores, colegas e, claro, amigos. Nessas fitas, os quartanistas (alunos do quarto ano do seu curso) deverão dá-las a todas essas pessoas das suas vidas, de forma a deixar umas palavras escritas nas fitas e devolvê-las à proveniência (pasta do estudante). As fitas são presas com uns colchetes e são a insígnia marcante antes da terça-feira do Cortejo da Queima das Fitas, altura em que os quartanistas deixam de usar a pasta para passar a usar a cartola e a bengala da cor do curso.

Tenho uma infinita pena de ter perdido a minha pasta e as respectivas oito fitas, nas quais constavam os vaticínios de familiares e amigos, os juízos, as honras, as palavras bonitas e algumas mais sérias e sentidas. Algumas piadas também, tal como as críticas à personalidade marcante do meu ser, com tudo o que isso tem de bom e de mau. A forma como marquei e o enorme orgulho de tantas assinaturas importantes daquelas pessoas tão maravilhosas que ainda hoje fazem parte da minha vida. Coimbra não me deu apenas um canudo, deu-me a oportunidade de conhecer mundos e pessoas fantásticas. Tive o privilégio de compartilhar espaços e tempo com essas almas, alegrias e tristezas, confidências e, acima de tudo, de me tornar uma pessoa melhor e mais completa. Sem as críticas, sem as observações, sem as chamadas de atenção, sem o olhar reprovador de tantos e bons amigos não me teria tornado quem tornei. Acima de tudo, sem a galhofa, sem os abraços, sem os beijos, sem os elogios, sem a aprovação, não seria a mulher que sou hoje.

O ego fortalecido não impede que demos mais marradas, não impede de nos sentirmos muitas vezes na merda, e não impede de fazermos asneira atrás de asneira, mas impede-nos de fazer o mal gratuitamente e impede-nos de achar que o que está acima transcrito seja, de alguma forma, verdade.

Não foi isso que os meus amigos me ensinaram, não é isso que ainda hoje me ensinam. Bons amigos não são cúmplices nas asneiras e porcarias que fazemos, são antes a voz da nossa consciência razoável, livre e que respeita a liberdade do outro.

Não existe esse conceito de "amizade excessiva".
Não no meu dicionário.


terça-feira, 17 de março de 2009

"Descobrir a careca"

Podes enganar alguns durante o tempo todo
Podes enganar todos durante algum tempo
Mas não consegues enganar todos para sempre.


Sempre gostei desta frase, ajuda-me a não perder a fé na justiça e na verdade.
Aqui a palavra fé (e seu conceito) entenda-se como exercício de esperança à descoberta de uma verdade não alheia a todos os que se entendem injustificadamente como seres humanos.
Alguns não são. Têm grandes dedos e grandes frases e grandes pedestais e grandes teorias e grandes vidas e esquecem-se da aplicabilidade das mesmas.

Em suma, são chatos e são os últimos a percebê-lo. Pior, são burros e acham que os outros é que são.

A justiça de que falo constrói-se de raíz, e chega a todos, mesmo àqueles que não têm berço nem chá nem educação nem se esforçam ao menos um pouco por tê-lo.
Permitimos essa falta de verdade na inoperância, no destrato e pior, nas desculpas que vamos fazendo, com alguma compaixão, de tais seres que confundem silêncio com esquecimento.
Verifica-se e aplica-se.

Eu nunca me esqueço.

Nunca.
Não quando há mentiras pelo meio. Pior, tiros no pé.




Depois de carecas a descoberto, passo à frente. Não interessa, porque nunca interessou. Simples.



E alguns de nós havemo-nos sempre de rir bastante desses tiros.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Tretas do dia





Números:
72 por cento das mulheres inquiridas preferem um homem forte e decidido, que saiba o que quer.

85 por cento afirmaram que as seduz que o homem as beije com paixão e as leve à cama sem hesitar. Preferem um homem que tome a iniciativa na hora da sedução e que as faça sentir desejadas.

60 por cento não gostam que eles demorem mais tempo que elas a arranjar-se. Não se trata de não se cuidarem, mas sim de não passar mais tempo que elas em frente ao espelho.




Acho piada à expressão "as leve à cama". Normalmente quem me "leva à cama" é a bendita da gripe ou alguma dor maldita. Enfim. O "forte e decidido" é extremamente redutor e dúbio. Um homem pode ser forte, determinado, etc etc etc em muitos quadrantes da sua vida, não o sendo necessariamente em todos ou nos mais importantes, no que diz respeito a relações amorosas. Há por aí muito bom rapaz determinado em fazer da sua vida um pântano sentimental. Há as aparências e há a realidade. Há quem pareça ser forte e há quem, de facto, o seja.

Definitivamente, não pertenço à classe dos 85%, principalmente porque já me aconteceu e não gostei nada. Um homem que parte do princípio que a mulher quer ir para a cama com ele apenas porque sim(?) é um homem que não sabe ler os sinais, ou na pior das hipóteses, presunçoso. Os arrebatamentos de paixão assolapada pouco me dizem. Mãos atabalhoadamente mal metidas e beijos feitos de línguas que fazem investidas ao lado, tudo à velocidade de banda larga, só servem para arranhar e pensar se aquele gajo irá acertar no umbigo na hora de acertar... pois.
Há formas e formas de se fazer passar a mensagem da paixão, mas infelizmente há quem confunda tesão com desespero, e paixão com força mal medida. Tudo demasiado, tudo forçado. A malta agradece, mas dispensa.

O incrível destes números e teorias, é que mesmo depois de tantas considerações acerca do comportamento sexual do homem, é inquestionável a postura da mulher no que concerne à iniciativa, e é dado adquirido que a mulher continua a ser um objecto sem vontade própria, um catavento que depende da vontade do senhor seu homem e é "levada à cama" em ápices de donzela resgatada para a alcova, na fúria da paixão sexual do seu Adónis, mais preocupado com a performance do Zezinho e em fazê-la crer que é a personagem principal do Nove Semanas e Meia. Será justo para o próprio homem, que é dissecado e questionado qual cobaia/ratinho de laboratório, que tenha a obrigatoriedade do poder de decisão e iniciativa? Melhor: será justo para a própria mulher não ter uma palavra a dizer, o direito de escolha, o direito a dizer onde quando e com quem? Já agora, a obrigação de saber também o que quer, ser forte e decidida, e ter ela mais qualquer coisa a fazer no processo todo, senão a atitude de "aqui me tens, de pernoca aberta e vamos lá a isto"?

A pressão que antecede o acto sexual em si, a antecipação e a possibilidade de rejeição, tudo isto, é algo que deve ser, tal como o prazer, partilhado pelos dois, dividido pelos dois, e um problema que não se deveria colocar em pleno século XXI. É ridículo, tal como é ridículo pegar em amostras e generalizar desta forma o sexo. Se fosse tão fragmentado e estereotipado e definível a este nível, não seria tão interessante debatê-lo. Ou fazê-lo. Estas estatísticas e estes números não são mais do que a anedota portuguesa do sexo dito "normal". Normalizámos tudo, desde que começaram na fruta.

Os comportamentos das pessoas mudam ao compasso dos seus desejos, dos seus projectos, dos seus diferentes amores e parceiros, o ser muda, transforma-se ao longo do tempo de vida. Há quem ache que foder aos 45 é ou deveria ser o mesmo que "foder"/"fazer amor" aos 35 ou 25 ou aos 15. Está no seu direito, tal como eu penso que o homem não atinge o seu auge sexual aos 18 nem tampouco a mulher aos 30. O sexo e os comportamentos são muito mais do que corpos e hormonas, testosterona e gritos. Acima de tudo, deveria ser muito mais do que números.


Mas isto sou eu, claro.

Este expresso online dá-me cabo da cabeça, por vezes...



What can I possibly say?...

Conteúdos temáticos de extraordinário interesse para o comum dos mortais

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Tretas que morreram de velhas...

A Treta Mora ao Lado...