Regras Essenciais para uma Boa Amizade
Os homens assemelham-se às crianças, que adquirem maus costumes quando mimadas; por isso, não se deve ser muito condescendente e amável com ninguém. Do mesmo modo como, via de regra, não se perderá um amigo por lhe negar um empréstimo, mas muito facilmente por lhe conceder, também não se perderá nenhum amigo por conta de um tratamento orgulhoso e um pouco negligente, mas amiúde em virtude de excessiva amabilidade e solicitude, que fazem com que ele se torne insuportável, o que então produz a ruptura. Mas é sobretudo o pensamento de que precisamos das pessoas que lhes é absolutamente insuportável: petulância e presunção são as consequências inevitáveis.
Em algumas, tal pensamento origina-se em certo grau já pelo facto de nos relacionarmos ou conversarmos frequentemente com elas de uma maneira confidencial; de imediato, pensarão que nós também devemos ter paciência com eles e tentarão ampliar os limites da polidez. Eis porque tão poucos indivíduos se prestam a uma convivência íntima; desse modo, temos de evitar qualquer familiaridade com naturezas de nível inferior.
Contudo, se esse indivíduo imaginar que é mais necessário a nós do que nós a ele, terá como sensação imediata a impressão de que lhe roubamos algo. Tentará então vingar-se e reaver os seus pertences. O único modo de desenvolver a superioridade na convivência com os outros é não precisar deles de maneira alguma e fazê-los perceber isso. Consequentemente, é aconselhável fazer sentir de tempos em tempos a qualquer um, homem ou mulher, que podemos muito bem passar sem ele. Isso fortalece a amizade.
Para a maioria das pessoas, não é prejudicial se, de vez em quando, adicionarmos uma pitada de desdém na nossa atitude para com elas. Atribuirão tanto mais valor à nossa amizade: Chi non estima vien stimato [Quem não estima é estimado], diz um fino ditado italiano. Se, todavia, alguém nos é de facto muito valioso, devemos ocultar-lhe essa conduta como se fosse um crime. Ora, semelhante atitude não é agradável, mas é verdadeira. Os cães quase não suportam uma amizade excessiva; os homens, menos ainda.
Arthur Schopenhauer, in Aforismos para a Sabedoria de Vida
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Em Coimbra há um velho hábito de ostentar, nas pastas de estudante, oito fitas da cor do respectivo curso superior - não Sara, não vou falar dos anéis de curso (you wish!) - em que cada uma delas corresponde a: pais, irmãos, restante família, namorado/a, professores, colegas e, claro, amigos. Nessas fitas, os quartanistas (alunos do quarto ano do seu curso) deverão dá-las a todas essas pessoas das suas vidas, de forma a deixar umas palavras escritas nas fitas e devolvê-las à proveniência (pasta do estudante). As fitas são presas com uns colchetes e são a insígnia marcante antes da terça-feira do Cortejo da Queima das Fitas, altura em que os quartanistas deixam de usar a pasta para passar a usar a cartola e a bengala da cor do curso.
Tenho uma infinita pena de ter perdido a minha pasta e as respectivas oito fitas, nas quais constavam os vaticínios de familiares e amigos, os juízos, as honras, as palavras bonitas e algumas mais sérias e sentidas. Algumas piadas também, tal como as críticas à personalidade marcante do meu ser, com tudo o que isso tem de bom e de mau. A forma como marquei e o enorme orgulho de tantas assinaturas importantes daquelas pessoas tão maravilhosas que ainda hoje fazem parte da minha vida. Coimbra não me deu apenas um canudo, deu-me a oportunidade de conhecer mundos e pessoas fantásticas. Tive o privilégio de compartilhar espaços e tempo com essas almas, alegrias e tristezas, confidências e, acima de tudo, de me tornar uma pessoa melhor e mais completa. Sem as críticas, sem as observações, sem as chamadas de atenção, sem o olhar reprovador de tantos e bons amigos não me teria tornado quem tornei. Acima de tudo, sem a galhofa, sem os abraços, sem os beijos, sem os elogios, sem a aprovação, não seria a mulher que sou hoje.
O ego fortalecido não impede que demos mais marradas, não impede de nos sentirmos muitas vezes na merda, e não impede de fazermos asneira atrás de asneira, mas impede-nos de fazer o mal gratuitamente e impede-nos de achar que o que está acima transcrito seja, de alguma forma, verdade.
Não foi isso que os meus amigos me ensinaram, não é isso que ainda hoje me ensinam. Bons amigos não são cúmplices nas asneiras e porcarias que fazemos, são antes a voz da nossa consciência razoável, livre e que respeita a liberdade do outro.
Não existe esse conceito de "amizade excessiva".
Não no meu dicionário.






















