Não, não é um post sentimentalóide ou nostálgico ou lamechas, este. Na grande maioria do tempo, lembrar-me da minha bem amada Lusa Atenas é maior o riso do que o blue feeling, é mais fácil a pergunta "como é que fui capaz de?" do que o lamento de nunca ter feito. Isto abarca muito mais do que o canudo, o estatuto e os jogos de cartas que fazíamos tardes a fio, num sobe e desce dentro da carteira do Bispo. Engloba muito mais do que os primeiros amores, as lágrimas sofridas a ouvir Cohen e Cure e Tindersticks e etc etc etc e as cartas escritas às colegas de todos os dias que faziam as vezes das amigas de infância, num tempo em que não haviam blogs. Escreviam-se testamentos nessas cartas. E a seguir íamos beber um copo e um café até às seis da manhã e discutir essas cartas. E os meninos bonitos do FCDEF. É maior que a perda da inocência (essa, regenera-se, aprendemos a fazê-lo, ao fim de um certo tempo, pois nada de tão mau tem uma importância tão significativa que nos impeça de viver e faz tamanho estrago que justifique sermos uns merdas duns amargos o resto da vida).
A memória de Coimbra chega a ser maior do que todas as noitadas, borgas em directas intermináveis a culminar nas moelinhas e caldo verde da Via Latina ou na espiral de decadência alcoólica da States. Coimbra é muito mais do que a paisagem urbana feita de Botânico, Portugal dos Pequenitos, biblioteca da Universidade, Torre da Universidade, Praça da República e capelas que tais. Ou era, dado que os nomes foram trocados e as vivências serão já outras, novas recordações, um velho tempo por um novo tempo.
Coimbra é a História feita das histórias de quem por lá passou e de quem a visitou.
A minha memória daqueles tempos é muito mais do que apenas tudo isto, que já é muito: é o tempo mais reduzido em que conheci o maior número de pessoas decentes, que escusavam as lições de moral, numa desproporção inigualável. A minha melhor memória de Coimbra é pensar que quase tudo o que veio depois é uma valente enxurrada de merda de que tenho memória desde que nasci e Coimbra, uma espécie de reduto do resto da vida que tive o privilégio de viver.
*isto obviamente não se aplica às colegas de turma (quase todas), que apontavam os pecados dos outros com honras de ratazana de sacristia, mestres dos bons costumes e moral.
