::diário de bordo, manual de sobrevivência, feito de teorias da conspiração, ideias parvas, conceitos, preconceitos, provocações, alucinações, livro de "receitas" pseudo-afrodisíacas, ora picantes ora agridoces, de alguém que vive num país assim a dar para o esquisito, a que alguém chamou um dia Portugal::


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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Ardi - uma nova descoberta

Afinal parece que o Homem sempre caminhou de pé.



“Ardipithecus é uma forma não especializada que ainda não evoluiu muito em comparação com o Australopithecus”, diz num comunicado Tim White, da Universidade da Califórnia e um dos líderes da equipa de cientistas. “E quando olhamos para [Ardi] da cabeça aos pés, o que vemos é uma criatura-mosaico, que não é nem chimpanzé, nem humana.”


E é aí que começam as surpresas. Acontece que, até agora, os cientistas concordavam em dizer que os chimpanzés, os gorilas e os outros símios africanos modernos tinham conservado muitas das características físicas daquele último antepassado que partilharam com os humanos – ou seja, pensava-se que o antepassado em questão era muito mais parecido com um chimpanzé, ou com um gorila, do que com um homem. Por outras palavras ainda: enquanto nós tínhamos evoluído imenso desde aquela altura, tornando-nos muito diferentes daquele antepassado comum, os símios actuais tinham evoluído pouco desde então. Ardi vem precisamente pôr em causa essa concepção das coisas.


Pensava-se, por exemplo, que o antepassado comum aos homens e aos chimpanzés teria sido um ágil trepador, conseguindo pendurar-se nos ramos das árvores, baloiçar-se e saltar de árvore em árvore tal como os chimpanzés de hoje. E também que, tal como eles, caminhava apoiado nos nós dos dedos das mãos. Mas não foi nada disso que os investigadores descobriram ao examinarem Ardi. Como explica ainda o comunicado acima referido, quando se encontravam no chão, os hominídeos de Ardipithecus caminhavam erguidos, apoiados nas suas duas pernas (isto é sugerido pela anatomia dos pés). Uma outra ideia estabelecida pode, aliás, estar em causa aqui: a que supõe que o bipedismo dos hominídeos nasceu quando eles se lançaram para espaços mais abertos, para a savana e não quando ainda viviam na floresta. Os Ardipithecus eram “bípedes facultativos”, dizem os investigadores.


Se se confirmarem estes dados, isso significa, em particular, que os chimpanzés não são um bom modelo desse misterioso antepassado comum entre eles e nós – e que talvez um melhor modelo sejamos... nós próprios! É o que parece concluir no mesmo artigo sobre as mãos de Ardi a equipa de Owen Lovejoy, da Universidade Estadual do Ohio e também um dos principais investigadores. “Esta descoberta”, escrevem na Science, “põe um ponto final a anos de especulação sobre o decorrer da evolução humana. (...) Foram os símios africanos que evoluíram imenso desde os tempos do nosso último antepassado comum, não os humanos nem os seus antepassados hominídeos mais imediatos. As mãos dos primeiros hominídeos eram menos parecidas com as dos símios do que as nossas (....).”




Claro que nem todos os especialistas concordam com a interpretação dos achados e que alguns dos peritos interrogados por uma jornalista da Science, que acompanha a publicação dos resultados, permanecem cépticos. Mas todos acolheram com grande interesse os novos dados e acham que é agora que o debate vai começar.
 
 
in Público

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A nossa TV (Fernando Alvim)











Desde já devo desmistificar uma coisa: eu gosto do Fernando Alvim. Gosto do Alvim da rádio, da prova oral da Antena 3, do Alvim do ido Curto-Circuito, do Alvim em parelha com o Unas, do Alvim em entrevista a gajas boas como a Carla Matadinho, do Alvim do Blog (o link está lá em baixo, o Espero Bem Que Não). Gosto muito da voz do Alvim.

Por outro lado, não gosto do Alvim mediático, das festas, não gosto do sorriso falso do Alvim "para a fotografia". Mas isso sou eu e a minha má-língua, e o Alvim não se chateia nada com isso, até porque ele não me passa cartão nenhum. De qualquer forma, gosto imenso dele, acho que é um comunicador nato, sabe entrevistar pessoas sem as "atropelar", em jeito de conversa. É o protótipo da minha geração, do "gajo normal", "the boy next door", o rapaz igual a tantos outros que eu conheço mas que não têm um programa de rádio, os que cresceram a ver o Herman José em pose irreverente, nos idos anos dourados d'O Tal Canal, esse grande programa de humor português.

Como ele, Alvim, o Nuno Markl (se bem que o Markl tem uma genialidade superior à do Alvim, mas isto é a minha má-língua outra vez) e o Rui Unas.





Sobretudo, gosto imenso desta coisa que o Alvim fez chamada Speaky TV. Vejam a entrevista com Emídio Rangel. Vale a pena.



Não vi ainda o 5 Para a Meia-Noite com a apresentação de Fernando Alvim. Vi o programa na segunda-feira, mas... bem isso dá outro post.






segunda-feira, 18 de maio de 2009

Relógio Biológico aka Medo da Solidão aka Pressão "já está na hora!"


Só o título já diz metade.


Não acredito em "relógios biológicos" . Não acredito numa idade própria para se sentir entranhas a pedir bebés. Não acredito em apelo sagrado ou chamamento divino para a maternidade. O "está mais que na hora" dos amigos e familiares, para a procriação é um jogo algo ridículo do tipo "agora que já somos adultos, vamos lá fazer o que se espera de nós". Casa-se porque sim, tem-se um emprego porque sim, tem-se filhos porque sim e compra-se aquele carro porque sim. Tudo porque sim. Porque é suposto fazer-se aquilo. Porque é suposto uma mulher ter filhos. Senão, é anormal. Já agora, para um homem também. Os dedos da pressão social resultam, muitas vezes, em boatos ridículos "ahhh deve ser gay" ou "deve ser lésbica". Facto é que o chamamento só atinge as mulheres, porque só as mulheres é que têm filhos (o homem português é ainda visto como uma espécie de "apêndice" e a paternidade é aquela coisa que só os nórdicos levam a sério).


Adiante.


Isto do apelo maternal serve tanto para as mulheres que se fazem acompanhar de machos cobridores, tanto para as outras, as que "optaram por ficar sozinhas, que optaram pela carreira". Como se as mulheres que têm machos em casa não fossem mulheres de carreira ou pouco dedicadas à mesma, ou já agora, as que estão sozinhas e "abandonadas", não pudessem ser umas frustradas profissionais(?!?!) Ou se tem uma coisa ou outra? Na mesma onda de quem é bonito não pode ser inteligente, e quem é um génio, só pode ser um trambolho? Quantas pessoas lindíssimas e atraentes são também inteligentíssimas! Como qualquer outro, é um cliché, este o da desculpa da "grande carreira".


Serve porque para além de "terem optado pela carreira", até podem "adoptar". É tudo assim, tão fácil como eficaz. Se não surgir ninguém, e se chegarem à barreira dos 45/50 sem ninguém, têm as suas brilhantes carreiras e até podem ter essa "opção". Tudo é uma opção, até a solidão que tentam mascarar foi uma opção. De repente, uma criança torna-se "uma opção" para não se ficar sozinho. Não se teve porque a carreira vinha primeiro (leia-se "ninguém lhes pegou") e quando já era tarde (até ninguém lhes continuar a pegar), "optam" pela adopção. Depois, numa de Maria Barroso, numa de "solidariedade" para com os meninos carenciados e coitadinhos, acham que podem "contribuir para tornar a vida de alguém melhor, dar-lhes amor e carinho", adoptando-os. Vão a um lar de adopção buscar um bebé take-away (leia-se criança abandonada e com traumas e com vidas interrompidas pela desgraça), como quem vai a um canil buscar um cão ternurento e fofinho! Mascaram o desespero de não quererem morrer sozinhas, de desistirem de encontrar alguém, com a atitude (ainda por cima nobre) altruísta de adoptar uma criança. Para mostrar que podem ter falhado como amantes e mulheres, mas ainda vão a tempo de não falharem enquanto mães. Alguém devia dizer a estas criaturas que dizem "ah, não faz mal se passar da idade, adopto depois!" que a adopção não é um processo à la Angelina Jolie/Brad Pitt e que tão pouco adoptar uma criança serve para tapar o vazio da solidão.


Depois, existe o tal preconceito que o casal tem de ter filhos. Ponto. Casam e têm filhos.

Uma colega de trabalho, com quem troquei uma meia dúzia de palavras em reuniões e uma conversa ou outra, pergunta-me "há quanto tempo estão juntos?" ao que depois de lhe responder ela diz "ahhhh, já está na hora!" Sem me conhecer de lado algum. Simplesmente isto. Uma miúda de 25 anos que passa a vida a queixar-se que o marido não a compreende, casadinhos de fresco, e fala-me que sente que "já é tarde aos 25" para ter o primeiro filho. Não se entendem, mas ter um puto vai resolver o problema de comunicação. Entre uma fralda e outra, talvez cheguem a alguma conclusão... pode ser que resolvam a vida toda do puto até ele ter trinta anos.



Antigamente as pessoas tinham filhos sem esperar, fora de tempo, mas por se amarem. Hoje, tem-se um filho não porque se ame outra pessoa. Tem-se um filho como projecto de vida, como exercício de egoísmo, porque está na lista de "sonhos e projectos", como tapa buracos, às vezes até mesmo para se salvar uma relação ou para se mostrar às amigas que também se é uma fêmea parideira. Para se ser aceite. Depois de os terem, é a velha batalha de os projectarem à sua imagem e semelhança. São os pais que vivem a vida dos filhos porque não têm uma vida própria. Imaginem então se forem mães solteiras... ufa!



Estas coisas atingem-me, claro que atingem, e nunca percebi muito bem o que é isso de "instinto maternal" ou relógio biológico. Tem-se depois de comer um Bio Danone? Não sei, não vejo nem sinto as coisas dessa forma. De quando em vez, sinto-me a anormal cá do bairro, porque não sinto o chamamento divino da maternidade, não penso em adoptar crianças, não vejo gracinha nenhuma nas fraldas borradas que me dão vontade de vomitar nem faço bilu bilu, nem me derreto com bebés.


Penso que deve ser fantástico poder ter uma criança com os olhos do homem que amo, dar-lhe uma educação, transmitir-lhe os nossos valores, acima de tudo, amá-la por tudo aquilo que ela quiser ser. Não agora e não sei quando. Às vezes as oscilações hormonais da TPM fazem-me chorar e fazer figuras tristes só de pensar que se entretanto não sentir esse instinto maternal, e se só surgir aos 50, então o gajo troca-me por uma mais nova nessa altura e têm uma ninhada de filhos juntos. Buááááá!!!!!!!!!!!!!



Por enquanto o meu amor egoísta é apenas relativo a esse homem, e se continuarmos juntos e sem filhos porque ambos decidimos assim, óptimo. Não vou desculpar-me atrás da carreira que tenho, ou do dinheiro, ou da falta de tempo que nunca são suficientes. Se um dia isso mudar, óptimo. Senão, tudo bem na mesma. O que eu não vou fazer de certeza é esconder-me atrás da frustração de nunca ter podido ter um filho, e dizer que foi por opção, pela carreira, etc. Ou dizer "ah e tal, o gajo deixou-me por uma mais nova porque não lhe podia dar filhos, então vou adoptar!" Nesse dia, faço as malas e vou correr mundo. De certeza que hei-de encontrar algo de mais interessante para fazer do que trocar uma fralda...





sábado, 9 de maio de 2009

Post do mês (passado, que este já tem campeão)

[ainda da importância dos aniversários]

Sou daquelas pessoas que não se farta de fazer anos, nem de receber chamadas telefónicas (ainda bem que foram mais as chamadas do que as sms'), e de continuar a somar as voltas de 365 dias (366 em anos bissextos) do calendário.

Do que eu me farto é daquelas mensagens escritas, muitas delas, de pessoas que não constam no raio da agenda e é um sarilho descortinar a proveniência das ditas cujas.

Quase podia adivinhar o cheirinho a Natal e suas múltiplas mensagens "tipo" com blablablas do tipo "és uma pessoa especial que merece tudo de bom na vida, admiro-te muito" e blablabla.... whatever... as pessoas que mais o afirmam são precisamente aquelas que menos o sentem. Têm dúvidas?


O Alvim compreende-me. E o Garfield também.










Fiz anos este Domingo e de novo senti o que já venho a suspeitar há algum tempo. O nosso dia de anos está cada vez mais parecido com o Natal. E foram muitas as sms que terei recebido que me lembraram isso. De tal modo, que recebi uma que dizia precisamente: " Feliz Natal e Bom ano novo!".





Irritam-me as mensagens tipo. As pessoas tipo. As empresas tipo. Os comportamentos tipo. Um bom tipo. Um mau tipo. O próprio Fiat tipo. Por mim, prefiro mil vezes uma mensagem que diga simplesmente " Parabéns!" a uma tipificada como: " Espero que este dia seja passado com aqueles que mais amas, na companhia dos teus verdadeiros amigos, e que este dia se repita por muitos e longos anos!" . Não sei explicar-vos, mas explico. Há aqui qualquer coisa de plástico. Ou de cimento armado. Ou tijolo casquinha. É duro perceber que já teremos lido isto em alguma parte. E já lemos. Possivelmente mais do que uma vez. Possivelmente até da mesma pessoa que no ano anterior, nos terá enviado uma mensagem exactamente igual a esta. Por mim, é preferível darem-me um par de meias todos os natais. Essas sempre aquecem.




Aliás de entre todas as mensagens que se enviam em datas como esta, a que terei recebido mais vezes, a recordista de sempre, a rainha das mensagens, a Vanessa Fernandes das sms’s, é sem qualquer pestanejar , a lendária mensagem de natal, a vossa atenção por favor para o festim de risadas que aí vem, o clássico dos clássicos que é: "Boas Festas?! Nós queremos é festas pelo corpo todo!:)".E assim, quando a recebo, possivelmente pela quadragésima quinta vez, é tal o riso que me provoca, que me atiro imediatamente ao chão e bato freneticamente com os pés e as mãos como se tivesse a fazer 100 metros mariposa. Ainda agora por exemplo, quando estava a escrever esta mesma piada, aconteceu-me outra vez e fui às lágrimas. Se não se importam, vou buscar lenços de papel que eu já não aguento emoções destas.




Fiz anos e neste dia há uma espécie de imunidade parlamentar que nos é dada. Isto é, podemos dizer e fazer o que quisermos, sem que nos julguem por isso. E assim, este é o dia perfeito para fazer as pazes com alguém ou, com a quantidade de sms recebidas, recuperar contactos que se encontravam perdidos há muito. Há pessoas que só nos ligam nestas alturas e ainda bem. São pessoas que existem só nestas duas ocasiões e eu não as censuro. Até porque essa é a diferença. E assim, é fácil percebermos que só há duas categorias de pessoas: as que existem durante estes dois dias e as que existem durante todo o ano. Eu gosto particularmente destas últimas.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Atenção: isto não é um post verdadeiramente lamechas




Sempre fui da opinião que se deve dizer às pessoas o que pensamos delas. Melhor, se gostamos delas, se as estimamos, se achamos que temos um papel importante nas suas vidas. Fazer juízos de valor e fundamentá-los, tendo por base um conhecimento real das suas acções e da sua personalidade. Criticar as pessoas é uma forma de as levar ao seu melhor, sempre pensei. Acima de tudo, dizer às pessoas o quanto gostamos delas, o quão importantes são na nossa vida, que as amamos, que fazem de nós melhores seres humanos, etc etc etc. De igual modo, não temer de vez em quando ter de mandar à merda essas pessoas. Assim, sem mais nem menos, quando elas merecem. Acima de tudo, aceitar o mesmo comportamento quando se nos é dirigido.


Sempre fui desta opinião. Depois, veio a vida e ensinou-me que isto não está errado, está até muito bem, mas não é válido para todos. Porque senão vejamos: nem toda a gente gosta de ser criticado e alvo de juízos de valor; nem toda a gente acha que terei (ou outra pessoa qualquer) o direito de criticar seja lá o que for; as pessoas não atribuem a mesma importância que eu lhes dou a elas, independentemente de estarem no top ten da minha preferência. Isto é o que a vida me tem ensinado. A percepção que temos dos outros é algo de inacabado quando esses outros não nos dão a verdade daquilo que são. Desculpabilizar-se aquilo que consideramos errado à luz de um afecto que só existe na nossa cabeça, ou de olhos de carneiro mal morto, é a maior estupidez que se pode cometer em detrimento de nós próprios, e de outros que estimamos, admiramos e valorizamos. Até porque depois o que levamos é um grande chuto no cu à menor contrariedade (leia-se crítica). Adiante.


As camadas de verniz caem sempre, por mais que essas pessoas jurem a pés juntos que gostam de nós, que nos admiram, etc etc etc. Portanto, nem sempre aquilo que parece, é.

Li este post e concordo inteiramente, naquilo que me é dado aceitar interiormente, como pessoa que sou e sabendo aquilo que sou, afirmando aquilo que sei sentir por quem me rodeia. Às vezes também me engano e reconheço que me enganei. Os afectos podem passar por gostar mais de mousse de chocolate do que de baba de camelo, e aquilo que eu pensava que era um afecto incondicional com duas faces, deixa de o ser quando me apercebo que mais do que está em causa, é por vezes, aquilo que fica em jogo quando o outro se sente atacado pois não entende o que foi dito. A grande maioria das pessoas tem uma baixíssima auto-estima, e não quer aceitar uma crítica ao mesmo tempo que grita a plenos pulmões que quer sinceridade e transparência. A amizade para estas pessoas clama por aprovação, nem que andem a comer merda às colheres.

O ser humano é o maior cão do diabo se o pretender ser. Não existem pessoas completamente boas nem completamente más. Existem as chamadas zonas cinzentas por onde juízos de valor e afectos andam de mãos dadas e cruzam-se em escadas rolantes. Por vezes, apenas se cruzam e seguem caminhos opostos.


Exemplos disto temos todos nós nas nossas vidas, todos os dias: os colegas de trabalho que cravam facas nas costas enquanto se riem para toda a gente, amigos que deixam de se relacionar porque não gostam da cara-metade do amigo, amigos que não aceitam críticas, amigos que têm blábláblá mas que na pior hora não nos atendem sequer o telefone, etc etc etc. E a dada altura das suas vidas, acredito piamente que se juraram amizade eterna, ou que disseram que adoravam mesmo trabalhar com aquela pessoa. Eu sei, já me aconteceu a mim, um pouco de todas estas situações. O melhor é seguir caminho, com algum amargo de boca, num sorriso algo forçado. Para além de tudo isto, as pessoas crescem, as pessoas mudam todos os dias, e acompanhar esse crescimento é muitas vezes difícil. Se as pessoas não mudam, as suas vidas com certeza que sim. Talvez por isso, amigos de infância deixam de sê-lo.


Não é fundamental dizer-se a alguém, a um amigo, que o "amamos".


A autenticidade não reside nas palavras, escritas ou ditas, mas sim no valor que sabemos que essa pessoa tem para nós e nós, para essa pessoa. O resto é um big big bullshit. Vivemos dias em que toda a gente quer cultivar a palavra amo-te e adoro-te e acaba por não ser nada daquilo.

O amor anda subvalorizado nos dias que correm, mas as palavras andam na boca de toda a gente. Tenho uma grande amiga que lhe chama leviandade, o "adoro-te" a toda a hora. Tenho uma outra que admite que não é pessoa que goste de ter grandes demonstrações de afecto. Eu gosto de demonstrações físicas de afecto, abraços e tal, mas só os dou a quem os quer receber, e só àqueles de quem realmente gosto. Não sou de dizer "amo-te" e "adoro-te". Se algum dia o disse a alguém, é porque o senti realmente, sabendo que não existem estradas sem retorno. Como disse antes, também eu me engano.


As pessoas, em geral todas, sabem sentir quando são importantes para alguém, ainda que a outra pessoa não o tenha dito, tal como sabem distinguir quando não o são, muito embora a outra pessoa afirme a pés juntos que é uma "grande amiga de x".


Por isso, não é grande pecado amar-se alguém, gostar incondicionalmente de uma pessoa sem nunca lho ter dito. Não existe urgência na demonstração verbal dos afectos. Não quando as pessoas se conhecem verdadeiramente, não quando sabem os demónios interiores que ocupam determinados espaços na vida de cada um.




p.s.: dedico este post aos amigos a quem nunca disse que os amo. ehehehehe. eles sabem quem são.



sábado, 14 de março de 2009

Vale a pena pensar nisto...

... o que é a Blogosfera no seu todo, que impacto tem afinal na sociedade real, o que vale para cada um de nós que tem um Blog e que importância lhe damos?
Este Psicologias da Treta iniciou o seu percurso há sensivelmente três anos, ganhando ao longo do tempo uma dimensão pessoal e demasiado intimista. Cheguei à conclusão de que a exposição era demasiada, comecei a sentir-me incomodada com aquilo que transparecia publicamente e no fundo, não interessava a ninguém. Objectivamente, não descrevo as mundanices e os quotidianos, a cor do cabelo e coisas que possa considerar uma parvoíce. É apenas um somatório dos meus dias, um diário de dor e paixão, de páginas de amor que ficam para trás e se sonham mais além. Nada mais, e nada disto interessa senão a mim. A vida privada de alguém, aquilo que transparece na escrita, não exactamente aquilo que pensa, mas o seu "eu"emocional e as entrelinhas de felicidade e/ou de dor num determinado contexto e circunstâncias de vida num tempo e espaço precisos, é algo que o tempo me ensinou a perceber que não dizia respeito senão a quem o soubesse respeitar. É algo, que a mim, importa somente mostrar a quem acho que o deve ler. Nasceu o meu precioso Beautiful Losers, apanágio de uma morte de infantilidades blogosféricas a dar origem a pensamentos mais meus, fonte de inspiração minha, as minhas musas e os meus demónios, a minha raiva e o meu amor.
O resto é treta e aquilo que é passível de se insultar, enxovalhar, criticar etc etc etc reservo para este Psicologias da Treta, como experiência blogosférica, como janela para o mundo, parte integrante da tal liberdade de expressão, um Blog prestes a poder ser parte de um todo - a Blogosfera - que reconheço também ser uma parte muito verdadeira de mim. Opiniões, críticas, humor e desumor. Com links, com português correcto (ou menos correcto), onde me permito a objectividade que às vezes me falta mas sempre me esforço por atingir.
Reconheço que a Blogosfera não é um "lugar novo", e o pensamento morreu de velho, não existe nada de novo debaixo do sol, apenas a tal grupusculização onde parecemos muitos a dizer o mesmo, numa só voz, esgrimindo com mais ou menos mestria argumentos velhos e teorias feitas, mas é talvez uma janela muito interessante onde se verifica que a condição humana não evoluíu muito desde que se inventou o fogo e uma feira de vaidades onde muitos continuam a abraçar a velha ilusão de poder "ser descobertos", onde se amaciam egos com a expressão "ah e tal, escreves mesmo bem".
Uma base de estudos sociológicos, sem dúvida, e a oportunidade de se escrever cartas a velhos amigos, tal como a possibilidade de um dia se poder reler pensamentos velhos, opiniões de um tempo pré-Magalhães e pré-Twitter. Só os burros não mudam de opiniões, e isso já pude constatar na minha velha infância de três anos blogosféricos em arquivos de meses idos, em que tanto mudou na minha cabeça e no meu coração.







Blogosfera de terceira geração


O recente artigo de José Pacheco Pereira - A bloguização da comunicação social - mete o dedo na ferida de uma degradação continuada do exercício de opinião, tanto nos blogues como na imprensa escrita. Curiosamente, quase ao mesmo tempo, João Lopes publicava um outro artigo de contornos próximos - A infância dos blogs.
Pacheco Pereira e João Lopes têm sido dos poucos autores capazes de produzir sociologia crítica sobre a blogosfera, questionando as especificidades da sua prática em Portugal. Este último afirma que a blogosfera adquiriu uma extensão imensa sem ter passado por um verdadeiro processo de maturação. Talvez isto não seja completamente certo se observado numa perspectiva internacional, mas parece próximo da verdade quando analisado no plano da nossa conjuntura. Entre nós nunca se afirmou uma cultura ou uma ética blog, discussão travada aberta e entusiasticamente na blogosfera ainda no início da década. Em Portugal, a explosão do fenómeno blog ocorre com o aparecimento das grandes plataformas – blogger, wordpress, sapo – ou seja, à blogosfera de segunda geração. E vemos hoje um fenómeno ainda mais surpreendente a que eu chamo de blogosfera de terceira geração: uma apropriação livre e espontânea da ferramenta blog, totalmente desinteressada da sua história e função original, suporte a conteúdos de download ilegal, pornografia barata, notícias de especialidade copiadas sem referenciação ou edição sobre consolas, wrestling, cinema, etc…
A horizontalidade da blogosfera é um prolongamento dessa cultura de relativização absoluta. Num espaço onde tudo vale o mesmo já nada tem valor. O paralelismo dos “temas fracturantes”, espécie de regurgitação compulsiva de questões que estão carregadas de complexidade real, denuncia esse absoluto simplismo de quem não é mais capaz de discutir o que quer que seja, da ausência de uma sombra que seja de reciprocidade.
Nesta opacidade ofusca-se em razão o que se troca por uma mera lógica de rejeição ou colagem, uma dinâmica opinativa que nada já tem de expressão intelectual mas antes de uma mera dissimulação identitária, de “acknowledgement” de grupo. A grupusculização de que fala Pacheco Pereira.
A decadência do exercício da opinião é mais um reflexo dessa devastadora terraplanagem intelectual em que vivemos e em que os blogs participam alegremente. A aparente agitação de conflitos de opinião não é apenas, como diz João Lopes, resultado de uma dimensão totalitária da agressividade sem pensamentos. É também o epitáfio de um domínio de simulação absoluta em que já nada, realmente, tem consequências. Um lugar em que nada acontece. A vitória da idiocracia.
Há quem chame a isto liberdade.



in http://abarrigadeumarquitecto.blogspot.com/



ainda sobre este assunto, as opiniões de pacheco pereira e de joão lopes.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Barbie - ou o mito da loira burra








A boneca mais famosa do planeta faz hoje 50 anos.




Nunca tive uma Barbie. Desconheço os motivos pelos quais a minha mãe nunca me presenteou com tal oferenda num qualquer aniversário ou Natal, suspeito talvez por embarcar naquela conversa pro-feminista típica das mulheres emancipadas da década de 60, que a Barbie é uma boneca que apela ao lado fútil da mulher, magrinha com medidas surreais, vestida a matar, maquilhagem comme il faut, qual femme fatale dos sonhos mais húmidos de um Ken presente no precoce imaginário subtilmente erótico da mente de uma criança, demasiado adulta e inteligente para embarcar nestas coisas próprias da feminilidade absurda feita de pó de arroz e saltos agulha. Submissa e muito loira, talvez a Barbie não fosse o estereótipo feminino que a minha mãe desejaria que povoasse a minha ambição e projecção no futuro, ainda que dinheiro não lhe faltasse, bons carros, um namorado giraço, um apartamento, amigas giras como ela (sem dramas e borbulhas como as minhas amigas) e nada que fazer o dia todo, já para não falar do par de protuberantes (pois) sapatos (claro) cor-de-rosa que ela sempre usou. Para além disso, a Barbie era uma miúda toda virada para os desportos com personal trainer, cabeleireiro, equitação e tardes inteiras na piscina e health club.

Querias? Eu também...

Gostava de ter tido uma Barbie. Acho-a uma boneca adorável, bonita, feminina e não vejo mal algum em se gostar de toda aquela futilidade cor de rosa que envolve a nuvem mágica do mundo Barbiesco. Para além disso, uma mulher há-de ser sempre uma mulher, e tal como quase todas, eu adoro cabeleireiros, roupas, cosméticos, maquilhagem, perfumes, e de todas as mariquices que nos fazem gastar uns extras ao fim do mês e que fazem os mais que tudo "abrir bem a pestana" e sorrir frente ao espelho. Tal não interfere nas despesas que fazem de mim um ser mais inteligente; comprar um shampoo da Kérastase é uma felicidade tão maior quanto comprar o último livro do Lobo Antunes (ele diz que é mesmo o último, o ultimozinho) e ambas conseguem coexistir livremente dentro de mim.


Confesso que às vezes apetecia mesmo ter uma vida como a da Barbie. Tudo cor-de-rosa, a começar nos sapatos, um namorado com ar de parvo a rir-se sempre para nós, o dia inteiro sem fazer nenhum, ter uma silhueta de top model e ainda assim comer aqueles doces todos, estar metida no ginásio e no cabeleireiro, ter amigas giras sem borbulhas nem problemas nem dramas nem lágrimas e todas as distâncias e saudades encurtadas por um jacto particular... ((suspiro)) e quem contariar isto está a mentir descaradamente.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Amizade Pronta-a-Usar

O que é que o Facebook tem que o Hi5 não tem?

A pergunta é legítima e impõe-se, pelo seguinte: eu não sei o que é o Facebook (não sei mesmo) e pode até ser por preguiça minha, por sempre esquecer-me dos endereços de mail atribuídos, das passwords, por ter apagado todos os convites de amigos que estavam à minha espera no Facebook (deixa-os estar, pensei eu) mas, acima de tudo, por já ter aderido há mais de três anos ao Hi5 e pensar que seria desnecessário ter duas páginas na Internet com a minha vida lá escarrapachada. A minha vida não é assim tão interessante para o resto do mundo. Para além de tudo isto, ter dois Blogs dá água pela barba e se o Beautiful Losers fosse um tamagotchi, já tinha morrido de sede, de fome, de falta de atenção e de frio. De igual modo, não aderi ao myspace, dado que as minhas telas são muito tímidas e as minhas letras, se dignas de figurar num qualquer espaço virtual, têm aqui o seu lugar no Blog.
Não me considero uma info-excluída, mas não tenho tempo nem pachorra para muito do que diz respeito à Internet. Gosto de ler uns quantos Blogs por aí espalhados, tendo descoberto alguns muito recentemente que fazem parte das minhas leituras matinais e que são uma lufada de ar fresco nos meus dias. Bem-dispostos, cheios de humor, alguns desumores e amores. Bons Blogs. Num deles, descobri isto e daí o mote para este post.
Isto, porque algumas das minhas pessoas preferidas da minha vida supostamente real (às vezes suspeito que estas minhas pessoas preferidas não sejam produto da minha imaginação, confesso) não aderem nem aderiram nunca ao Hi5 por acharem que aquilo tem ambiente de engate, é a palhaçada total, uma orgia virtual. São as mesmas pessoas que aderiram ao Facebook, dizem que é muito mais cool e tal e tal. Eu fiquei na mesma. No Hi5 não existe depravação (a menos que eu queira), não existem convites badalhocos (a menos que eu queira) e ninguém devassa ou faz revelações da minha vida privada (a menos que eu queira).
Por ingenuidade podemos cometer algumas indiscrições da nossa própria vida, num primeiro momento ou num contexto de novidade daquilo que são páginas pessoais, divulgadas na Internet. No entanto, aprendemos. Eu própria aprendi a conhecer os limites daquilo que considero ser do foro público, e aquilo que deve permanecer privado. Seja de que natureza for esse conteúdo. Há tesouros que por considerarmos preciosos, guardamo-los para nós e para aqueles que achamos que os vão, de igual modo, resguardar como seus. Há coisas que não cabem num mundo virtual e há espaços de comunicação que foram ficando para trás, dos dias de antigamente, de um tempo em que atender uma chamada em casa era uma incógnita. Simplesmente, não sabíamos quem estava do outro lado. Uma amizade demorava anos, era uma descoberta a fazer com calma, entre um copo e uma conversa interminável, e os interesses em comum eram uma surpresa muito especial, as músicas e os livros preferidos, onde se tinha tirado o curso ou os pensamentos de cada dia, as angústias e os sonhos de uma vida.



Resta saber se o Hi5 ou o Facebook suprimem toda a solidão da raça humana resumida a fotografias e interesses. Resta saber se o conceito de amizade tal como o conhecíamos irá desaparecer e dar lugar a uma nova geração feita de miúdos que apenas se rotula e se conhece pelo facto de ter os mesmos interesses em comum. Se sou o que sou hoje em dia, a muitos amigos com interesses díspares dos meus o devo, e se fosse apenas relacionar-me com pessoas que tivessem os mesmos que eu, provavelmente hoje seria alguém muito mais pobre, no que teria perdido uma fortuna imensa de pessoas que gostam de coisas que eu detesto, mas que são seres humanos completos naquilo que são por dentro e naquilo que me deram a conhecer e aprender.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Azares





(ainda a propósito da sexta-feira 13)
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...alguém me pode dizer qual é a diferença entre as superstições antigas do tipo ferradura dentro da mala, não passar debaixo do escadote, o pavor aos gatos pretos que se atravessam à nossa frente, as 13 pessoas à mesa, entrar com o pé direito nalgum sítio para a suposta boa sorte, a moeda dentro do bolso para afastar o Diabo, ver um cão a defecar à nossa frente na rua, e as superstições modernas do tipo cadeias da amizade internéticas ou sms "se não enviares esta mensagem para as 10009887 pessoas que tens nos contactos, vais ter 50 anos de azar", como se qualquer uma destas superstições tivesse poderes sobrenaturais ou influisse naquilo que nos vai acontecendo na vida. Ou justificar os maus dias, inerentes a toda e qualquer existência humana.


A Margarida Rebelo Pinto diz que "não há coincidências".


Eu prefiro pensar "que las hay". As coincidências, claro.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

...? Beauty












"Esqueça, o gosto dos homens nunca vai mudar"
é o slogan desta marca de iogurtes brasileira.





Pode ser que então o gosto das mulheres mude. Depois admiram-se de haver modelos anorécticas e bulímicas a morrer.


Há com cada publicitário que havia de levar com um gato morto nas trombas até o gato miar. Ou na minha versão mais recente da expressão: era dar-lhes com um magalhães nas trombas até o magalhães se partir todo. Tenho dito.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

"Dá-me o ideal"







Não, não é uma homenagem à música dos extintos Ban, a banda do então imberbe e muito pró-idealista-artístico-liberal João Loureiro.

É de pessoas ideais. Homens ideais e mulheres ideais. O nosso ideal de mulher e de homem. Existem? Ou serão um produto da nossa imaginação? A resposta já todos a sabemos: não existem. Então se não existem, porque raio vamos todos bater na mesma tecla? Por que raio, já que é um tema recorrente, perseguimos perfis e imagens de um ser que apenas existe no nosso imaginário, mas que nunca se assemelha àquilo que realmente é?

O tema é recorrente e batido e é também aquilo que designo de chacha. Insistimos sempre na velha teoria que o mundo é que está todo ao contrário e nós é que estamos certos, mas levamos a puta da vida toda a morrer de amores por alguém que não está nem aí para nós. Já me aconteceu a mim, a si, que lê este magnífico post e a toda a gente (quase todos, vá) que eu conheço. Será que é o mundo que está ao contrário ou seremos nós e os nossos (pre)conceitos?

Olhamos para alguém, por algum motivo achamos que é mesmo AQUELA pessoa a nossa alma gémea, a outra metade da laranja, o chinelo do nosso pé e a tampa da nossa panela, e se por alguma razão as coisas não se dão, é uma tragédia grega. Levamos que tempos a mentalizar-nos que não, ele (ou ela) é que não nos vêem, que não prestamos, que a vida é madrasta, que o amor não é para nós, que somos uns tristes e por aí fora. Se por outro lado, as coisas derem, mas não corresponder ao ideal que temos e aquilo acabar em três tempos, então a pessoa tem MONTES de defeitos! No fim de contas, aquele ou aquela que parecia perfeito, o amor da nossa vida, acaba por não ser nada do que pensávamos e acabamos por concluir que o amor não é para nós.

Ultimamente apercebo-me, em conversas com algumas das almas em constante desalinho e perturbação solitária, na sua demanda da busca da alma gémea, que as nossas ilusões são muito mais fortes e concretas do que julgamos. Achamos que a outra pessoa tem de gostar das mesmas coisas que nós, de fazer as mesmas coisas que nós gostamos de fazer e já agora, de ter a mesma atitude e forma de estar, quando na realidade, pode bem ser um negativo da imagem que somos.

Há quem persiga um ideal a vida inteira. As mulheres sofrem mais deste síndroma de Príncipe Encantado versus Sapo, choram mais a ausência de um ente amado e perfeito do que os homens, e talvez seja essa a justificação para tanto coração despedaçado no feminino. Os homens também romantizam demais as mulheres e as relações e atribuem-lhes qualidades que apenas existem em filmes, nas suas cabecinhas. Homens e mulheres idealizam demais, sonham demais, almejam demais quando na realidade todos somos demasiado diferentes. Num mundo onde a diferença parece ser um defeito, somos todos demasiado imperfeitos. Talvez fosse hora de nos começarmos a surpreender com aquilo que a vida nos traz, não numa perspectiva de "nos contentarmos com pouco", mas sim de que há riscos que vale a pena viver, abrindo e alargando os horizontes das nossas expectativas face aos outros.

P.S.: dedicado à rapariga que gosta de touros e que gostava de encontrar um príncipe montado num touro.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Puer aeternus... ou os novos "trintões"

Puer Aeternus is Latin for eternal boy , used in mythology to designate a child-god who is forever young; psychologically it refers to an older man whose emotional life has remained at an adolescent level, usually coupled with too great a dependence on the mother. The puer typically leads a provisional life, due to the fear of being caught in a situation from which it might not be possible to escape. He covets independence and freedom, chafes at boundaries and limits, and tends to find any restriction intolerable.






Hoje em dia confunde-se bastante imaturidade com irresponsabilidade, promiscuidade com leviandade, e a verdade anda de mãos dadas com a mentira, ao ponto de já nem sabermos distinguir uma coisa de outra.

A verdade é que as pessoas escondem-se atrás de frases feitas tais como "tenho medo da entrega, da vulnerabilidade que existe numa relação"quando, na verdade, o que se esconde é o medo de ter de enfrentar a parte assustadoramente real que existe numa relação. Como diria um amigo meu, "as cuecas sujas no meio do chão" (Cadete dixit). Quem normalmente proclama que já sofreu muito por amor e reafirma que tem medo de voltar àquele lugar, nega as afirmações anteriores. Diz que isto é treta. A perda da independência, a perda do "seu espaço", o medo (pavor, aliás) da partilha das horas e do tempo escondem muitas vezes, um egoísmo natural de quem ainda não está preparado para enfrentar as tais responsabilidades e imperfeições do mundo real (as cuecas, portanto), e são uma boa desculpa para a manutenção dos ponteiros do relógio numa equação de vida que se quer jovem, bonita e leve.

É natural que presentemente, em pleno século XXI, já todos vivemos concerteza uma grande história de amor que correu mal. Sejamos francos: correu mal... mas passamos à frente. Já ninguém vive vidas quebradas ou estilhaçadas ou interrompidas, e a reputação de uma mulher não fica manchada para sempre, porque teve um namorado e aquilo correu mal. Sim, somos modernos, trintões, solteiros e recusamo-nos a viver aquilo que os nossos pais na geração de 60 ou 70 viveram. Vinte anos depois divorciavam-se e é talvez nessa altura que se dá o fim do medo da ruptura. Hoje em dia já não sofremos rupturas em que o peso da dor era tantas vezes suplantado pelo peso da derrota social. E portanto o nosso medo em acabar uma relação ou ver a nossa relação chegar ao fim é mais baseada na dor que sentimos por ver alguém que amamos partir do que propriamente as convenções sociais e o medo de "ficar para tio/a". É "fácil" acabar uma relação e digo "fácil" porque nunca o é. Depois há a separação lógica dos termos "relação" e "caso", pois mais são os "casos" do que as "relações" (ditas sérias).

Conclusão de tudo isto: amar alguém e ter uma relação, viver com essa pessoa nunca foi, nem será, fácil. É um desafio que não está ao alcance de todos, conseguir manter a tal chama acesa. É uma questão de timming, cada hora e cada minuto. Por vezes convencemo-nos de que se já fomos capazes e falhámos, é porque algo está errado connosco, quando na verdade pode ter sido apenas um mau passo, e não era aquela a pessoa que nos completa, nos faz felizes. Ou não. Pode bem ser o sinal, que se não conseguimos ultrapassar a barreira do "tal medo, do pavor" de partilha, é porque talvez a vida não tenha de passar por aí, e somos felizes de outra forma. Sozinhos.

Penso que já é tempo de deixarmo-nos de ilusões e também de preconceitos. Provavelmente quando se tem trinta(s) e não se encontrou ninguém à altura do tal desafio, não há que desesperar. Nem que esperar ("pode ser que seja aos 40..."). Sinceramente, acho que se pensa demais NO problema e menos nas causas DO problema, que é aquilo que cada um de nós é no seu percurso de vida e o que quer realmente nesse percurso. Aparentemente, podemos encontrar imensas pessoas compatíveis connosco, a nível cultural ou sexual, mas as exigências do novo século e dos estilos de vida agitados pedem-nos algo parecido com a perfeição. Idealiza-se a pessoa perfeita que deve estar ao nosso lado. A perfeição não existe, porque ninguém é perfeito e o ser humano muda todos os dias. Mas pode haver perfeição dentro da imperfeição. Há que saber viver aquilo que é uma aprendizagem que se constrói com os erros e cabeçadas que se vão dando. Saber aceitar o que se é e aceitar os defeitos dos outros. Saber aquilo que se é e para onde se vai. Muita gente encontra o amor aos 40, aos 50 e aos 60... e por aí fora, na constância de uma vida que se quer plena, com os seus altos e baixos e sonhos a cada etapa.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Arte Pimba ou Pimba Art (para inglês ver)





Pimba Art::acabo de inventar um novo termo para designar aquela que é a Arte do nosso povão. Passo a explicar o termo::"povão": aquele que gosta dos Malucos do Riso e papa os noticiários da TVI, aquele que delira com o Benfica, aquele que vota Sócrates e dá as maiorias absolutas que nos fazem regozijar de prazer com a vida política do país, aquele que cospe para o chão depois de arrotar ruidosamente o seu belo almoço composto de pezinhos de coentrada e tintol, aquele que apita por tudo e por nada e faz manobras perigosas nas estradas, aquele que adora

(repito a d o r a )

ir ao chópingue aos fins-de-semana, que diz "destorce" e "prontos" e "quaisqueres"... Em suma, também aquele que ganha o ordenado mínimo e faz o que pode pela vidinha, ou na melhor das hipóteses, não faz nenhum e recebe o subsídio de desemprego... pessoas "simples". Daquelas que dizem "eu cá não percebo nada de política" e mesmo assim saem de casa pra irem votar nos gajos que governam e desgovernam este país, com a boca cheia de bolo-rei, inventam leis anti-tabaco mas que não se coibem de acender um cigarrinho no avião, para no dia seguinte pedirem desculpa aos portugueses e dizerem que estão a deixar de fumar...Estão a ver?


Ora isto de se falar de Arte tem mais que se lhe diga. Há conceitos e designações e definições muito próprias, e cada um tem/não tem o seu próprio... ora e o que será isto de Pimba Art? É português, e é pimba. Desengane-se quem pensava que o termo havia nascido com a música do tal senhor Emanuel ou com a tal senhora Ágata. Nasceu com este quadro (o do Menino que Chora) e depressa se multiplicou nas marquises das casas dos portugueses. Estão a ver a bela da marquise? E o quadro? A luz nos traços, as formas, os volumes, a textura, a cor... existem vários modelos, mas também essa é uma das particularidades deste novo conceito de Arte: é para todos e por uma módica quantia.

É um movimento que teve a sua origem na década de setenta/oitenta do séc.XX e atingiu o seu apogeu aquando do governo de Cavaco Silva, esse senhor que agora é Presidente da República do mesmo Reino do Povão.


Não há casa portuguesa que se preze que não tenha um destes exemplares pendurados na parede (atente-se: na marquise). Alguns poderão considerá-la exemplo de Kitsch Art (a lembrar um certo Ar de Kitchenete) mas não confundir o Kitchenete com a Marquise. O Pimba Art é um movimento sui generis que tem as suas fundações muito bem demarcadas em todo um certo contexto social no nosso país. Penso mesmo que daqui a cem anos ainda veremos um destes quadros, não tão raros assim, num Louvre ou num Hermitage. Consta que a National Gallery já adquiriu uma destas emblemáticas telas. Em breve, Portugal terá o seu papel preponderante no mundo da Arte, mundo esse sempre tão longínquo, do qual nos sentimos tão arredados. Perto destes meninos que choram, a Gioconda é apenas um foleiro exercício de principiante. Joe Berardo deve ter já adquirido umas quantas réplicas deste "Menino que Chora", tal como quando adquiriu uma réplica da Mona Lisa, pensando tratar-se dum original mas, desta feita, os diversos meninos que Choram têm a vantagem de ser um negócio realmente honesto: sabemos que há muitos e que são todos falsificados. Sim, que um português não engana outro português e aqui é tudo feito às claras!
Claro que para além de haver um "Menino que Chora", fui descobrir também a "Menina que Chora"... ora digam lá que não é lindo?
Quem precisa de medalhas de ouro e motivos de grande orgulho nacional se temos um baluarte destes? Isto sim... é Arte.












::este, é um post recuperado dos ficheiros mais antigos do PT, não porque não ande inspirada para escrever sobre outras coisas "quaisquéres" mas porque esta visão da menina que Chora é inteiramente nova e merecia ser publicada.


segunda-feira, 2 de junho de 2008

A Arquitectura Portuguesa dos dias de Hoje

::da impossibilidade de crítica da arquitectura::
::memória [in]descritiva::

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É recorrente a queixinha dos arquitectos que
“não me deixam trabalhar”,
“não me deixam criar”,
“só contrariedades”,
“o cliente não quer”,
“o lote tem uma péssima implantação”,
“o promotor não tem orçamento e tem péssimo gosto”,
e por aí além numa espiral de desgraças que impedem o livre curso do disparate.

È verdade que temos maus clientes, tão maus como a mediocridade cultural. É verdade que temos péssima construção, tão má quanto o empenho de toda a equipa no desenvolvimento de um projecto [do trolha ao arquitecto].
A rotina burocrática que ampara a arquitectura corrente [porque é o grau 0 da arquitectura que me interessa e não a excepção género Carrilho da Graça], não é responsabilidade de toda a gente à excepção dos arquitectos. Os pobres arquitectos, colados como lapas ao corporativismo de classe passam a vida a fazer merda e a atirar a água para o capote alheio.

(...)



Como tudo na vida, também a arquitectura está sujeita ao erro e à prova. Os erros acontecem em projecto [mostrem-me um projecto no mundo que exista sem uma gralha que seja!]. Os erros acontecem em execução, por deficiente leitura das peças desenhadas ou por outros milhares de factores.
O trabalho do arquitecto é também aprender e incorporar o erro no próprio objecto arquitectónico. Porque a realidade e a humanidade não é imune à falha. E porque a arquitectura é para a realidade.

#joão amaro correia


































a arte respira e expira e imita a vida. nada existe sem os conceitos tornados reais e qualquer produto da imaginação de alguém reside num espaço próprio inserido neste planeta azul. feito de linhas e volumes e estruturas e realidade subjacente. tal como um vestido, um automóvel, ou uma caneta, uma casa não pode ser um objecto indissociado daquilo que somos. da nossa identidade. a nossa continuação, portanto. o invólucro das nossas vontades, o porto de abrigo para o qual nos refugiamos. onde tudo acaba e começa. o reduto das nossas memórias e cenário das aventuras protagonizadas por cada um de nós. pensar a arquitectura de uma forma séria, em que surja como uma real opção e não mera condição e consequência de tudo aquilo que o dinheiro pode ou não comprar, é pensar em diversos factores que fogem às desculpas do costume da grande maioria dos arquitectos já enumeradas anteriormente por joão amaro correia. a liberdade do criativo. é trampa. partir do princípio que tudo corre sobre rodas, os tais factores podem resumir-se apenas a dois aspectos: o enquadramento urbanístico e paisagístico::e mais importante: a quem se destina. o que o cliente quer e deseja. já tive esta discussão interminável com um arquitecto, na qual ele discordou acerrimamente comigo. penso que um corte de cabelo pode ser arte. um prato gastronómico é arte. um vestido é arte. a dança é arte. um filme. a maioria dos arquitectos tende a negligenciar todos estes aspectos, ignorando que tudo isto é vida. e arte. a perfeição, a beleza e tudo o que produza sentimentos por via de uma exteriorização concreta ainda que fugaz. é arte no século XXI. e tudo isto cabe dentro duma casa e deve coexistir em harmonia. na medida dos desejos de quem lá habita.




quinta-feira, 8 de maio de 2008

Metrossexualidade vs Futilidade


"Um grupo de cientistas do Uganda descobriu uma bactéria que pode estar na causa na metrossexualidade. Segundo o cientista responsável pela investigação, a bactéria em questão é encontrada em larga escala nos ginásios e health clubes, devido à grande quantidade de suor que normalmente se encontra nestes espaços.

Foram feitos vários estudos a metrossexuais e em diversos ambientes que lhes são familiares, nomeadamente em ginásios, solários, cabeleireiros e lojas de moda.

Chika Kan, responsável adjunto pela pesquisa, afirma: “Os resultados do estudo são claros: qualquer homem, dito “normal”, pode ir sem medos ao solário ou à pedicura que não existe o mínimo risco de se vir a tornar um metrossexual, no entanto, esse mesmo homem “normal” ao deslocar-se uma vez que seja a um ginásio, e por muito macho que seja, pode vir a contrair esta perturbação através da bactéria em estudo. Sabemos de homens que, depois de visitarem um ginásio, cancelaram todo o dia de trabalho e fizeram depilações completas ao corpo. Outros fizeram manicura e pedicura, chegando mesmo a pintar as unhas dos pés com preto glossy.

Este avanço da ciência pode vir brevemente a ter resultados concretos para a cura desta perturbação que afecta cada vez mais homens."







Posto isto, afinal o que é a metrossexualidade? Algo que se transmite como doença contagiosa? Quem a inventou?

Eu defendo que quem inventou a metrossexualidade foi um homem gay de extremo bom gosto*. Os motivos podem ser variados, na realidade, e o primeiro poderá sempre ser o de "virar" o macho, de modo a que a trupe gay aumente. É legítimo que o façam, muito embora não acredite que seja por aí. A verdade é que a grande maioria de homens ligados à moda é gay e depois de décadas a fazer as mulheres a sentir-se mais bonitas, talvez tenha chegado a vez dos homens. Mas vejamos: os tempos mudaram e os cremes de beleza, cosmética e perfumes bem como toda a indústria da moda começou a ver no homem, um potencial consumidor, atento e vaidoso, com elevado poder de compra. É uma natural verificação da evolução e mudança dos tempos.

Mulher que se preze e que goste de andar arranjada, bem vestida, maquilhada e penteada não quer certamente que o seu par ande de qualquer maneira ao seu lado na rua (ou dentro de casa). Longe vão os tempos em que o homem só tinha de fazer a barba e tomar o seu duche com gel de banho. Tudo mudou, quase de uma geração para outra, abruptamente. Hoje em dia um homem usa um hidratante, um creme de contorno de olhos, perfumes diversos e gosta de escolher o que veste, de acordo com um estilo próprio que deve cultivar. Obviamente chegamos também a um extremo (porque existem excessos em tudo) de homens que usam vernizes, e maquilhagem que era apenas destinada a mulheres, é agora também utensílio masculino na arte de bem parecer. Marcas como a Chanel e Jean Paul Gaultier têm maquilhagem específica para homem.


Será um homem menos homem ou menos heterossexual por usar verniz preto? Gostará menos da sua parceira por gostar mais do espelho?


A questão é que todos nós temos um estilo (muitos não têm estilo nenhum, ok, mas a grande maioria tem um estilo definido) e todos nós temos uma relação próxima de amor-ódio com o espelho que, à partida, deveria ser preservada e muito daquilo que é reflectido nesse espelho, não é somente a beleza que a Natureza nos deu, mas fruto de tudo aquilo que fazemos para cuidar da nossa aparência e dos cuidados que temos connosco próprios. A saúde passa por determinados comportamentos, e isso reflecte-se na beleza que exteriorizamos ao mundo. Portanto, não acho nem considero fútil alguém, homem ou mulher, cuidar de si. Cremes, maquilhagem, perfumes, roupas giras, acessórios, etc, e uma panóplia de cuidados alimentares e exercício não fazem mal a ninguém. Muito pelo contrário. Fútil é alguém dar uma imagem daquilo que não é. Ou uma colagem apenas porque é moda. Um gajo gordo de t-shirt rosa justa com verniz preto nas unhas dos pés em sandálias brancas e cabelo em pé é uma visão do Inferno. E de metrossexual nada tem. Existem preconceitos errados, a meu ver, relativamente ao conceito de metrossexualidade, e esse é um deles. Porque nem sempre o que é fashion fica bem a toda a gente. E nem todo o homem que gosta de usar um creme é "paneleiro". Muito gajo armado em macho, com medo dos estereotipos espera que a mulher saia de casa para usar certas coisas. E nada tem a ver com homossexualidade. Tem a ver com curiosidade e coragem de dar um passo em frente na hora de saber e querer agradar. Sem medo do que os outros possam dizer.


Metrossexual não tem de ser sinómo de pindérico e o que mais tenho visto por aí são gajos pindéricos armados em metrossexuais. Obviamente nem toda a gente tem um corpo e uma cara como os do Beckham, mas por isso há que saber encontrar um estilo e saber preservá-lo. Com sensibilidade e bom senso. Eu, como mulher heterossexual que sou, agradeço.


Já agora, que nome aplicar a mulheres que não gostam de se arranjar ou maquilhar, colocar perfume, usar acessórios, ou fazer tudo aquilo que um metrossexual faz e afinal de contas é suposto uma mulher gostar?...



*também há gays de extremo mau gosto.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Ainda da Arte ou da importância de se Ler as Entrelinhas

Matérias Especiais - Antes De Assinar, Leia As Entrelinhas - O Caso Natividad
por: Carlos Almiron


"Circula pela Internet uma petição contra um artista costarriquenho chamado Guillermo Varga Jiménez (mais conhecido pelo pseudônimo “Habacuc”). Dentre outras reivindicações, a petição pede a exclusão do artista da Bienal Centro-americana que acontecerá no ano que vem em Honduras.





Antes de assinar a petição, resolvi investigar o caso e o resultado é no mínimo interessante.
Em agosto deste ano, a Galeria Códice (localizada em Manágua, capital da Nicarágua) abrigou a instalação “Exposición nº 1” na qual um cão de rua foi exposto. No início de outubro começou a circular a notícia de que o cão havia morrido de fome e sede nesta exposição, fato que se espalhou rapidamente e causou grande repercussão entre os defensores dos animais.
Porém, informações desencontradas põem em dúvida a veracidade e credibilidade dos fatos. Pra isso a Internet é uma ferramenta indispensável para averiguar melhor esse caso.
As imprensas da Nicarágua e da Costa Rica tomaram conhecimento do fato a partir da “denúncia” feita e difundida através de blogs, porém trataram o caso superficialmente. Os principais e mais citados blogs são de Jaime Sancho que reúne todo material até agora divulgado sobre o caso e o blog de Rodrigo Peñalba única fonte que registrou e divulgou as fotos da exposição em questão. Aqui no Brasil a Folha de São Paulo publicou o fato na coluna “Pensata” de João Pereira Coutinho. É possível encontrar outras fontes, mas boa parte apenas traduz ou reproduz as fontes já citadas.
O primeiro apontamento que faço é sobre essas mesmas fontes. É no mínimo constrangedor imaginar que os principais jornais envolvidos nem sequer cobriram a exposição e ainda por cima publicaram opiniões sem nem ao menos saber se o que aconteceu era verdade ou não.
Fonte impar no caso, a jornalista Marta Leonor Gonzalez, editora do caderno cultural “La Prensa Literária” é a única que confirmou a morte do cão. Mas o estranho é que no seu próprio suplemento não há menção alguma da exposição e pra piorar “ela própria não esteve na exposição” como me confirmou Rodrigo Peñalba. Ao blog dele é atribuído o registro fotográfico da exposição. Rodrigo Peñalba, 26, é escritor, artista visual, web editor e neto do renomado artista nicaragüense Rodrigo Peñalba (1908-1980). Outro fato curioso: nem o próprio Peñalba viu o cãozinho Natividad. As fotos no seu blog foram enviadas pela artista Delia Chévez.
Cabe ressaltar aqui o trabalho que Peñalba desempenha na divulgação cultural da América Central. Seu blog tem recebido inúmeras visitas por causa dessa polêmica. “É o mês mais visitado do site e é uma visita que não retornará” lamenta Peñalba. É a real, quem vê as fotos repassa o link e nem sequer se dá ao trabalho de conferir o restante do conteúdo. Curioso em ver as fotos? Para descongestionar e evitar excesso de tráfego, um novo blog foi criado www.elperritovive.blogspot.com.

CASO NATIVIDAD







Antes de ser nome do vira-lata mais falado do momento, Leopoldo Natividad Canda Mairena era um nicaragüense de 25 anos que vivia ilegalmente há 9 anos na Costa Rica. Nati, como era conhecido nos diques de Cartago, saiu da casa dos pais do bairro Modesto Ramón Palma, em Chichigalpa, municipio do Departamento de Chinandega na Nicaraguá para buscar uma vida melhor nas ruas do pais vizinho. Terminou seus dias como mendigo e morando debaixo de uma ponte.
Na madrugada do dia 10 de novembro de 2005, Natividad acompanhado de um amigo saltou o muro da oficina mecânica “Romero” de propriedade de Fernando Zúñiga (localizada em Cartago, Costa Rica) e foi surpreendido e atacado por dois cães de guarda rottweiler. Seu amigo (cujo nome não foi divulgado pela investigação) conseguiu escapar do ataque e colaborou na reconstituição da tragédia. Natividad levou certa de 200 mordidas e teve múltiplas perdas de pele, músculos, tendões, artérias, veias e nervos dos braços e pernas. Conseguiu ser levado ainda com vida para o Hospital Max Peralta, onde passou por cirurgia e transfusão de sangue, ingressando na UTI. Porém horas depois, uma parada cardio-respiratória o levaria a óbito. Mórbida coincidência: “Hunter” era o nome de um dos cães de guarda.
A morte da Natividad trouxe a tona acusações de xenofobia, negligência, omissão de socorro, descumprimento do dever policial e tornou ainda mais tensas as relações diplomáticas entre os dois paises (existe uma disputa na corte Internacional de Haya pelo direito de navegação pelo rio San Juan).
Segundo a investigação feita pelo Organismo de Investigação Judicial, que cuidou do caso, dois agentes da Força Pública tiveram oportunidades de salvar Natividad ao disparar contra os cães de guarda e não o fizeram por oposição do dono da oficina. Os gritos de socorro durante o ataque, que durou aproximadamente 54 minutos, também foram ouvidos e presenciados pelo vigia noturno da oficina, pelos bombeiros e pela cruz vermelha.
Passado o calor do momento, após exaustivas investigações e acuações mútuas, surge a denúncia de que a empresa norte-Americana Bandeco ofereceu uma indenização à família de Natividad para esquecer e dar o caso por encerrado.
O inquérito permanece aberto e é provável que os indiciados fiquem impunes.

A HOMENAGEM DE HABACUC






A idéia de Habacuc não era só homenagear Natividad, mas trazer para uma exposição artística um elemento urbano, cotidiano. Causou grande repercussão por se tratar de um vira-lata doente, exposto num ambiente em que se espera encontrar obras de arte. É claro que não foi considerado arte por muitos que assinaram a petição. Crueldade ou manifesto político?
Alguns elementos da instalação remetiam diretamente ao caso Natividad: na entrada lia-se a frase “es o que lês” escrita com ração e culminava com a exposição do cão sarnento. Significados? A frase nada mais é do que isso mesmo: Natividad foi comida pra cachorro e o cão representava o próprio Natividad, que neste momento servia como objeto para revelar a hipocrisia humana: enquanto está na rua, o cão passa despercebido, não sensibiliza ninguém, mas quando está numa galeria de arte ganha o foco das atenções. Talvez isso explicasse as enigmáticas declarações do artista, que se negava a responder se o cão havia sido alimentado, se havia morrido e porque não permitia que o público libertasse o animal. Talvez sua crítica fosse de que assim igualmente ocorreu com Natividad, que nunca fora notado nas ruas e que no momento da sua morte poderia ter sido salvo, mas que ninguém fez nada pra isso, permaneceram como meros expectadores.

DECLARAÇÕES






Mediante a pressão pública e a crescente adesão à petição a Galeria Códice, membros do jurado Bienarte 2007 e o Museu de Arte e Desenho Contemporâneo da Costa Rica (sede da Bienarte 2007 que classificou Habacuc para a Bienal Honduras 2008) divulgaram notas sobre a polêmica.
Coube à Galeria Códice confirmar o período da estadia do cão em suas instalações (3 dias) sendo que ele era alimentado regularmente pela ração que o próprio Habacuc levara.
Inesperadamente, o cão teria fugido da Galeria durante a limpeza do pátio interior, local onde o cão ficava solto enquanto não participava da exposição. É a palavra da Galeria contra a jornalista Marta Leonor.
Já os membros do jurado da Bienarte 2007 acrescentaram esclarecendo que as obras apresentadas por Habacuc eram inéditas e sem relação alguma com a “Exposicion Nº1”. Ainda na nota, rechaçaram a "campanha midiática que se orquestrou pretendendo desqualificar e amedrontar, manipulando a informação e promovendo interesses obscuros, de caráter fascista, incluindo um chamado para a violência e o crime".
Por sua vez, o Museu de Arte e Desenho contemporâneo da Costa Rica aclarou não ter influência na representação da Costa Rica na Bienal Honduras 2008, atuando apenas como "facilitador e sede da seletiva de obras realizada pelo jurado internacional" e que as obras de Habacuc que foram classificadas e que estão expostas no museu são outras. A "Exposicion Nº 1" não participou da seletiva pra Bienal e portanto não está vinculada nestes eventos.
Um ponto em comum nas três declarações, além de não aprofundarem ou quererem levar adiante o caso, é a questão da censura e do próprio limite do que viria a ser arte.
Nesse foco o comunicado do Museu é interessante quando relembra que em 1966, durante a Guerra do Vietnã, Peter Brook estreou em Londres o espetáculo “US”. Nele um ator fazia um monólogo sobre o uso e efeitos do Napalm. Para sensibilizar a platéia, no final da atuação, o ator que tinha uma borboleta viva presa entre o polegar e o indicador, tirou do bolso um isqueiro e tacou fogo nas suas asas. Chocante, não? O ator teve que pedir desculpa diante do protesto e indignação da platéia. Mas antes de deixar a cena, o ator fez notar sua estranheza, já que o mesmo público que se indignava com a sorte da borboleta, até o momento, havia permanecido indiferentes aos vietnamitas queimados pelo Napalm. Na época ninguém ousou por em dúvida se Peter Brook era ou não artista.
O mesmo comunicado do museu também serve para encerrar a discussão sobre o veto da participação do artista na Bienal de 2008, o que frustra uma das reivindicações da petição on-line.

QUAIS CONCLUSÕES PODEMOS TOMAR?

Enquanto o próprio Habacuc não vem a público dar sua versão, nunca se ouvirá falar tanto nos personagens dessa noticia. Se dar o que falar e o que pensar era sua intenção, conseguiu em partes. Mesmo que o artista prossiga normalmente com seu trabalho, utilizando ou não objetos do cotidiano, sempre será lembrado por essa polêmica ou cairá no esquecimento quando outro artista for o mais novo alvo do sensacionalismo.
Tudo isso poderia ter sido evitado se as partes envolvidas dessem maior atenção a sua assessoria de imprensa, evitando declarações infelizes. De certo a galeria Códice não imaginava que daria todo esse reboliço, mas não custava nada explicar ao público visitante que Natividad receberia os devidos cuidados, afastando qualquer hipótese de maus tratos. Pelo menos assim ocorreu com o Museo Oscar Niemeyer (Curitiba/PR) durante a exposição “Revolver” do trio Jum Nakao, Kiko Araújo e Julio Dojcsar, na qual havia a participação de 3 esquilos da Mongólia e deixava claro no realese que tipo de materiais foram utilizados e que tratamento lhes era dado. Essa polêmica também serviu para escancarar ainda mais como a juventude atual nem sequer presta atenção no que lê, muito menos questiona antes de aderir uma causa ou reproduzir uma “notícia”. E por fim, mesmo que a obra da Habacuc tenha ferido artigos da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, o que podemos esperar de um mundo onde não se respeita sequer os Direitos Humanos?"

Carlos Almiron, 25, Graduado em História e apresentador do Programa Mundo Caos na PunkRadio.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Arte?...


"A necessidade interior nasce de três causas místicas e está constituída por três necessidades místicas: 1. Todo o artista, como criador tem que expressar o que lhe é próprio (elemento da personalidade). 2. Todo o artista, como filho da sua época tem que expressar o que é próprio dessa época (elemento do estilo, como valor interno, constituído pela linguagem da época mais a linguagem da nação, caso esta exista). 3. Todo o artista como servidor da arte tem que expressar o que é próprio da arte em geral (elemento da pureza e eternidade artística que vive em todos os homens, povos e épocas e se manifesta em obras de arte de cada artista, de cada nação e de cada época e que como elemento principal da arte, não conhece nem o espaço nem o tempo)." Kandinsky


"Nos últimos anos deste século, a arte sofreu uma transformação. Embora a sua própria essência seja a constante mudança, desta vez ela atingiu camadas mais profundas, não se limitando aos aspectos exteriores. O próprio conceito de arte é posto em questão. Não obstante, à primeira vista, esta transformação manifesta-se em numerosos aspectos exteriores. Assim, talvez a arte contemporânea nunca tenha desfrutado de tal popularidade como agora." Klaus Honnef









"Atrasado mental que continua a pensar ser artista...

Como sabes e até deves ter protestado, em 2007,Guillermo Vargas Habacuc, é um suposto artista animalesco que colheu um cão abandonado na rua, atou-o a uma corda na parede de uma galeria de arte e ali o deixou morrer lentamente de fome e de sede.

Durante varios dias, tanto o autor de semelhante crueldade, como os visitantes da galería de arte presenciaram impassiveis à agonia do pobre animal. Até que finalmente morreu de inanação, depois de ter passado por um doloroso, absurdo e incompreensivel calvario da besta chamado Homem. Se achares por bem empregue consulta os links e tira as tuas conclusões.

[http://img505.imageshack.us/img505/1990/dscn8139vk6.jpg]
[http://img339.imageshack.us/img339/5848/dscn8146pu4.jpg]
[http://img259.imageshack.us/img259/5720/dscn8153yv8.jpg]
[http://img218.imageshack.us/img218/7240/navitividad1cq9.jpg]
[http://img218.imageshack.us/img218/7937/navitividad4so6.jpg]
[http://img218.imageshack.us/img218/5895/perritoho5.jpg]

Parece-te forte?

Mas nao é tudo: a prestigiada Bienal Centroamericana de Arte decidiu, que a selvageria cometida por esta Besta das artes, Guillermo Vargas Habacuc fosse novamente convidado a repetir a sua cruel acção na dita Bienal en 2008, acto este que podemos impedir, colaborando com a nossa indignação, protesto e assinatura nesta petição:

http://www.petitiononline.com/13031953/petition.html

(não tem que se pagar, nem registar) para enviar a petição contra o chamado 'artista' por tão cruel acto, por tão ínfima sensibilidade ao desfrutar em prazer com a dor alheia."



Posto isto, levanto a seguinte questão: determinará, o autor de inédita façanha, alguma intenção de criar um fundo de eternidade artística perante o observador? Quererá criar um sentido de pertença dentro de um mundo que se identifica com a suposta "obra"? Será ele um filho do seu tempo, dentro do seu tempo ou à frente do mesmo? Obra de avantgarde? Arte? Contemporaneidade na Arte?
Levanto ainda uma outra questão, que não indo de encontro a nenhuma Lei, irá questionar os próprios princípios da ética e da moral de cada um, tão em desuso nestes dias contemporâneos tão dados a tudo o que é novidade: que terão pensado os transeuntes daquela exposição? Os observadores, os "clientes" deste acto denominado como sendo "artístico"? Nada fizeram? Porquê?

Não pertenço a nenhuma associação defensora de animais, não sou vegetariana, mas ainda sou um ser humano que não entende este conceito de Arte no ano 2008 d.C. Não entendo nem tenho pretensões de entender. O que caracteriza, acima de tudo, uma obra de Arte como tal, é a intemporalidade manifesta nessa obra, e a capacidade que terá de resgatar algo ou alguém no que nos distingue como seres humanos, no que nos faz pensar, agir e sentir.

domingo, 16 de março de 2008

Perdoai-os Senhor...


Não. Desenganem-se. Não é dos Tokio Hotel a que me refiro. É da maralha que já passou dos vinte e fundam clubes anti-qualquer-coisa-só-porque-não-têm-uma-vida e falam mal. Só por falar mal. Ou porque gostam da mesma banda e dali não passam, ou porque não têm mais nada que fazer, ou porque são muita góticos e vestem-se de preto. Tipo forinhas, mas não bem bem forinhas. Uma espécie de. Diz que é...

Este post vem carregadinho de beneno, por isso... ou aguentam-se à bronca ou mudem de canal (perdão, de blog).





Eu, ainda sou do tempo em que a revista Bravo chegava a este país na sua língua originária; que as adolescentes coleccionavam posters dos New Kids On The Block e Bros e quejandos. Gajos bons. Hormonas aos saltos. Se der um puxão maior à memória, ainda sou dos tempos áureos dos Ministars ou dos Onda Choc. Covers à maneirex das músicas que os irmãos mais velhos ouviam. Tempos das matinés nas discotecas e das cervejas numa terra em que as minis não eram uma moda, mas um velho hábito. Os verdíssimos anos marcados pela risota alimentada pelas guerrilhas verbais entre alfacinhas e tripeiros nas páginas do Blitz. Aquilo não tinha nada a ver com o resto do país e era de delirar. Uma bomba em Lisboa e outra no Porto e viveríamos felizes para sempre. Sou do tempo em que ser diferente não era uma moda, era um fardo; ouvir música diferente não era orgulho, era sinal que podíamos andar metidos na droga. E estes eram e foram tempos em que toda a gente queria ser popular e cor-de-rosa. E eu tinha 12 anos quando ouvi o The End dos Doors, numa cassette da minha irmã mais velha e a minha vida nunca mais foi a mesma. Também ouvia Dire Straits, e hoje em dia não suporto o Mark. Só se for o Kozelek (já estou a divagar...) Adiante.


Até chegarmos aos dias de hoje, as coisas mudaram. Talvez não muito, mas mudaram. Continua a haver música cor-de-rosa, de verniz, música muito down, muito up, muito assim-assim, música pimba, o José Cid e o Jorge Palma, e depois ainda há o Tony Carreira e o filho, o Pedro Abrunhosa e o Vitorino, continua a haver Bravo, Blitz, e o que é mais triste, pessoas que não cresceram, que continuam a dizer/escrever a mesma merda que diziam/escreviam na altura do Blitz, mas em Blogs, porque se acham tremendamente conhecedores de música e no direito de falar mal de bandas pop-rock como estes putos alemães de 17/19 anos como os Tokio Hotel. Eu não os oiço, não porque não goste, mas porque tenho outras coisas para ouvir, e falta-me o tempo para ouvi-las todas. A primeira vez que ouvi falar dos Tokio foi através da filha (13 anos) de uma amiga. Investiguei, fui ao Youtube, à Wikipedia e os putos não me parecem mal de todo. Acho triste, muito triste haver pessoas que não tenham mais nada que fazer do que falar mal gratuitamente de bandas que dão o primeiro passo. Considero ainda mais triste porque há muito piores bandas do que esta. Se as letras isto ou aquilo?!? Epá, não sei nem quero saber! Acho é deplorável como é que num país com tanto problema, com tanta ignorância/arrogância, com tanta analfabetice aguda, ainda se perde tempo a fazer Clubes anti-fãs-dos Tokio Hotel.

Sinceramente, tenho mais que fazer. Mas este post... ai este post tinha mesmo de sair, porque em 2008, a ter 12 ou 13 anos, eu talvez ouvisse os Tokio Hotel. Talvez...




*dedico este post à Inês, filhota da minha amiga Sofia.



Links a reter:
-
quem são os Tokio Hotel
- polémica da treta
aka galinheiro tipo malta à porrada verbal de baixo nível no blitz

What can I possibly say?...

Conteúdos temáticos de extraordinário interesse para o comum dos mortais

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Tretas que morreram de velhas...

A Treta Mora ao Lado...