Sempre fui da opinião que se deve dizer às pessoas o que pensamos delas. Melhor, se gostamos delas, se as estimamos, se achamos que temos um papel importante nas suas vidas. Fazer juízos de valor e fundamentá-los, tendo por base um conhecimento real das suas acções e da sua personalidade. Criticar as pessoas é uma forma de as levar ao seu melhor, sempre pensei. Acima de tudo, dizer às pessoas o quanto gostamos delas, o quão importantes são na nossa vida, que as amamos, que fazem de nós melhores seres humanos, etc etc etc. De igual modo, não temer de vez em quando ter de mandar à merda essas pessoas. Assim, sem mais nem menos, quando elas merecem. Acima de tudo, aceitar o mesmo comportamento quando se nos é dirigido.
Sempre fui desta opinião. Depois, veio a vida e ensinou-me que isto não está errado, está até muito bem, mas não é válido para todos. Porque senão vejamos: nem toda a gente gosta de ser criticado e alvo de juízos de valor; nem toda a gente acha que terei (ou outra pessoa qualquer) o direito de criticar seja lá o que for; as pessoas não atribuem a mesma importância que eu lhes dou a elas, independentemente de estarem no top ten da minha preferência. Isto é o que a vida me tem ensinado. A percepção que temos dos outros é algo de inacabado quando esses outros não nos dão a verdade daquilo que são. Desculpabilizar-se aquilo que consideramos errado à luz de um afecto que só existe na nossa cabeça, ou de olhos de carneiro mal morto, é a maior estupidez que se pode cometer em detrimento de nós próprios, e de outros que estimamos, admiramos e valorizamos. Até porque depois o que levamos é um grande chuto no cu à menor contrariedade (leia-se crítica). Adiante.
As camadas de verniz caem sempre, por mais que essas pessoas jurem a pés juntos que gostam de nós, que nos admiram, etc etc etc. Portanto, nem sempre aquilo que parece, é.
Li este post e concordo inteiramente, naquilo que me é dado aceitar interiormente, como pessoa que sou e sabendo aquilo que sou, afirmando aquilo que sei sentir por quem me rodeia. Às vezes também me engano e reconheço que me enganei. Os afectos podem passar por gostar mais de mousse de chocolate do que de baba de camelo, e aquilo que eu pensava que era um afecto incondicional com duas faces, deixa de o ser quando me apercebo que mais do que está em causa, é por vezes, aquilo que fica em jogo quando o outro se sente atacado pois não entende o que foi dito. A grande maioria das pessoas tem uma baixíssima auto-estima, e não quer aceitar uma crítica ao mesmo tempo que grita a plenos pulmões que quer sinceridade e transparência. A amizade para estas pessoas clama por aprovação, nem que andem a comer merda às colheres.
O ser humano é o maior cão do diabo se o pretender ser. Não existem pessoas completamente boas nem completamente más. Existem as chamadas zonas cinzentas por onde juízos de valor e afectos andam de mãos dadas e cruzam-se em escadas rolantes. Por vezes, apenas se cruzam e seguem caminhos opostos.
Exemplos disto temos todos nós nas nossas vidas, todos os dias: os colegas de trabalho que cravam facas nas costas enquanto se riem para toda a gente, amigos que deixam de se relacionar porque não gostam da cara-metade do amigo, amigos que não aceitam críticas, amigos que têm blábláblá mas que na pior hora não nos atendem sequer o telefone, etc etc etc. E a dada altura das suas vidas, acredito piamente que se juraram amizade eterna, ou que disseram que adoravam mesmo trabalhar com aquela pessoa. Eu sei, já me aconteceu a mim, um pouco de todas estas situações. O melhor é seguir caminho, com algum amargo de boca, num sorriso algo forçado. Para além de tudo isto, as pessoas crescem, as pessoas mudam todos os dias, e acompanhar esse crescimento é muitas vezes difícil. Se as pessoas não mudam, as suas vidas com certeza que sim. Talvez por isso, amigos de infância deixam de sê-lo.
Não é fundamental dizer-se a alguém, a um amigo, que o "amamos".
A autenticidade não reside nas palavras, escritas ou ditas, mas sim no valor que sabemos que essa pessoa tem para nós e nós, para essa pessoa. O resto é um big big bullshit. Vivemos dias em que toda a gente quer cultivar a palavra amo-te e adoro-te e acaba por não ser nada daquilo.
O amor anda subvalorizado nos dias que correm, mas as palavras andam na boca de toda a gente. Tenho uma grande amiga que lhe chama leviandade, o "adoro-te" a toda a hora. Tenho uma outra que admite que não é pessoa que goste de ter grandes demonstrações de afecto. Eu gosto de demonstrações físicas de afecto, abraços e tal, mas só os dou a quem os quer receber, e só àqueles de quem realmente gosto. Não sou de dizer "amo-te" e "adoro-te". Se algum dia o disse a alguém, é porque o senti realmente, sabendo que não existem estradas sem retorno. Como disse antes, também eu me engano.
As pessoas, em geral todas, sabem sentir quando são importantes para alguém, ainda que a outra pessoa não o tenha dito, tal como sabem distinguir quando não o são, muito embora a outra pessoa afirme a pés juntos que é uma "grande amiga de x".
Por isso, não é grande pecado amar-se alguém, gostar incondicionalmente de uma pessoa sem nunca lho ter dito. Não existe urgência na demonstração verbal dos afectos. Não quando as pessoas se conhecem verdadeiramente, não quando sabem os demónios interiores que ocupam determinados espaços na vida de cada um.
p.s.: dedico este post aos amigos a quem nunca disse que os amo. ehehehehe. eles sabem quem são.
