Eu não sei o que é mais triste: se as revistas para gajas se as séries para gajas.
Passo a explicar: estive a ler a Elle de Outubro (não a comprava há imenso tempo) e os artigos que lá li deixaram-me a pensar profundamente na minha própria opinião sobre as coisas e sobre a vida, colocando-me algumas questões "será que a revista já era assim?" "será que estou a ficar menos obcecada com as ideias feitas?" "será que cresci finalmente?" "será que alguma vez fui fútil ao ponto de não perceber que aquilo é fútil?".... será?!?! ....

A grande questão, no fundo, prende-se com o facto de que sempre gostei destas revistas "de gajas" sem nunca dar grande importância ao material dito para gaja. Ou seja, os artigos de opinião e as reportagens. No fundo, desde que me conheço por gente, sempre adorei Moda e toda a secção dedicada à Beleza. Os artigos sobre relações, sexo, blá blá blá, sempre foram dispensáveis; confesso que sempre li o horóscopo e fazia os testes de personalidade e se "ele é o seu par ideal". Lembro-me ainda do primeiro número da revista Máxima (que continua a ser a minha preferida, a par com a Vogue), e de sempre comprar muitas Elle's e Marie Claire's. Tive a sorte de ter uma mãe que nunca foi de comprar revistas Marias e afins.
Adiante.
Antes de começar a crítica supostamente dita, quero esclarecer que tenho um indíce de futilidade/frivolidade em mim, acima do normal, absolutamente nada feminista. Ao contrário do que muita gente (homens e mulheres) pensa, isso não extermina a vida inteligente e pensante dentro do meu ser, daí esta crítica (que se segue) a par com a defesa dos cremes, perfumes e lingerie.
Homens [decentes], preparem-se, eu vou defender a vossa honra perante o triste espectáculo que é discorrido nas linhas escritas para mulheres, em revistas do género.
A questão, e não pretendendo alongar-me, prende-se acima de tudo, com dois artigos. O primeiro, que me deixou um certo amargo de boca, defende que a mulher ainda ganha pontos se se fizer de difícil e passo a citar uma frase que define todo o teor do artigo: "Uma mulher que se faz de difícil tem mais hipóteses de conquistar o sexo oposto? Essa técnica ainda vigora? Parece que sim, escreve um homem na primeira pessoa" Pois, pode até ser verdade, pensei eu, mas o homem deve ser atrasado mental (o que escreveu o artigo, entenda-se) bem como a mulher que se faz de difícil, se isso for um joguinho de manipulação de sentimentos, e já agora, bem como os estúpidos que vão nesse tipo de jogos. Definitivamente, a causa de muitos divórcios. Que raio de relação é baseada numa falta de interesse não genuíno a fim de se obter atenção ou a pessoa?Será que nos tornámos são facilmente obtíveis e encaixáveis nessas fórmulas feitas? É demais para a minha cabeça. Pode até ser que isso resulte, mas a mulher que o faz é, acima de tudo, insegura e dissimulada, e o homem que se cai nesse falso pressuposto, muito fraco de cabeça, para não dizer machista ou obtuso. "Há muitos homens que não gostam que as mulheres dêem o primeiro passo. E elas, espertas como são, fazem as coisas de forma a que nós pensemos que quem tomou a iniciativa fomos nós." Pois... está tudo dito, não está? É legítimo haver homens que não gostem da iniciativa de certas mulheres, tal como é legítimo haver mulheres que gostem de se fazer de parvas de forma a obter o dito macho. Estão bem uns para os outros. É mais fácil a princípio, e no fim acaba-se sozinho... ou a fingir uma vida inteira.
Por falar em fingir, passemos ao artigo seguinte. O da frigidez no feminino. O fingir orgasmos. A culpa que é sempre do gajo porque "não existem mulheres frígidas, há apenas homens desastrados. É que, muitas vezes, confunde-se a ausência de desejo com falta de jeito... por parte do homem, claro." O tal mito de que se a mulher não atinge o orgasmo é porque o desgraçado não se esforçou, etc... o que muita gente se esquece de dizer é que muitas dessas mulheres não conhecem o próprio corpo, nunca atingiram um orgasmo sozinhas, têm preconceitos e tabus, não sabem o que é a masturbação, nem sequer falam de sexo, e tudo constitui esse gigantesco trauma que contribui para a tal frigidez que existe e é uma doença, um problema que, tal como quase tudo o que diz respeito a sexo, tem o seu cerne na psique e nos comportamentos e desejos ocultos. Muitas dessas mulheres não gostam de sexo. Tal como há imensos homens que não gostam de sexo. Sim, até pode ser o fim do velho cliché tão defendido por muitos e muitas, que diz que o "homem está sempre preparado", etc. Em toda esta questão frigidez vs prazer vs orgasmo vs orgasmo fingido, há uma transferência de culpa, que deveria ser repartida por ambos e nunca é. A culpa é sempre do homem, que sofre, na grande maioria das vezes, a pressão toda. Nós somos pressionadas a ter um corpo magnífico de capa de revista, eles são pressionados a ser máquinas de prazer constante. Quites, portanto. Será? Talvez por isso haja tão mau sexo por aí e haja tamanha frigidez nos lares das senhoras que nunca se esforçaram muito para obter o prazer que julgam ser um direito que se obtém com a simples abertura de pernas. Nunca é assim tão simples pois não?
Resta dizer que no artigo mencionado, sensibilidade está escrito da seguinte forma: "sensibílidade". Se foi gralha ou não, não sei. Nem quero saber. Denota o pouco cuidado que há em publicar trampa desta qualidade. Não volto a comprar a Elle. Isso é certo.
Quanto às séries para gajas... pode haver muita coisa que seja considerada série para gaja e outra tanta que não. Passei o fim-de-semana a ver televisão por razões de força maior (séries bastante light na FoxTv), e tudo o que é idiotice e ideia feita, joguinhos e baldrocas com vista a relações (como se não houvesse nada de mais importante na vida de alguém) estão espelhadas na grande maioria, e fiquei pasmada com a porcaria que passa e tem audiências de arrepiar. Como gostos não se discutem, não adianto os porquês de gostar ou deixar de gostar, mas há algumas em que não me revejo minimamente, como é o caso das Donas de Casa Desesperadas (Desperate Housewives), Simple Life (com a Paris Hilton e a Nicole ?, absolutamente intragáveis)... deve haver mais algumas, mas as Donas de Casa Desesperadas tiram-me do sério, pelo ridículo das personagens, e pela promoção descarada que aquilo é para algumas daquelas actrizes. Existe um quê de orgulho em ser-se estúpido e em praticar-se todos aqueles joguinhos absurdos sem nexo algum. Aquilo passa-se nos dias de hoje, mas bem podia ser na década de 50 que ninguém daria pela diferença. Os homens são ali personagens secundárias, estupidificados e pobres tontinhos, numa senda de filosofia do tipo Clube Pilinha Não Entra, e se entrar, também não é para ter grande importância. Não há ali meios termos: elas são as principais personagens, estereotipadas até dizer chega (há a adúltera, a mãe de família, a preconceituosa, a santa e a puta) e eles funcionam como os Ken's do cenário.
Existe uma boa surpresa no meio de tudo isto. Uma série que pode até ser considerada uma série para gaja, mas que adorei descobrir. Anatomia de Grey. Obviamente não tem rigorosamente nada a ver com o meu querido Dr House (o meu número um), mas há algo de desconcertante em Grey's Anatomy que não vejo nas outras séries. Lembra-me um pouco aquele humor (aquando das partes humorísticas, que Desperate Housewives não tem de maneira nenhuma) que via há uns anos atrás em Ally McBeal, também uma série talvez para gaja. Mas que os gajos também vêem/viam. Gosto do lado pluralista das séries. Gosto do lado humano dos homens, como seres humanos que são, seres sensíveis que têm cérebro e sentido de humor. Gosto acima de tudo, do lado desconcertante de tudo aquilo. Não sei definir, mas sei que o jogo não é explícito ali, tal como a vida quase nunca o é.
Resta dizer que não há revistas para gajas ou séries para gajas... existe é um mercado terrivelmente assustador para gente estúpida (homens incluídos, claro).