::diário de bordo, manual de sobrevivência, feito de teorias da conspiração, ideias parvas, conceitos, preconceitos, provocações, alucinações, livro de "receitas" pseudo-afrodisíacas, ora picantes ora agridoces, de alguém que vive num país assim a dar para o esquisito, a que alguém chamou um dia Portugal::


segunda-feira, 18 de maio de 2009

Relógio Biológico aka Medo da Solidão aka Pressão "já está na hora!"


Só o título já diz metade.


Não acredito em "relógios biológicos" . Não acredito numa idade própria para se sentir entranhas a pedir bebés. Não acredito em apelo sagrado ou chamamento divino para a maternidade. O "está mais que na hora" dos amigos e familiares, para a procriação é um jogo algo ridículo do tipo "agora que já somos adultos, vamos lá fazer o que se espera de nós". Casa-se porque sim, tem-se um emprego porque sim, tem-se filhos porque sim e compra-se aquele carro porque sim. Tudo porque sim. Porque é suposto fazer-se aquilo. Porque é suposto uma mulher ter filhos. Senão, é anormal. Já agora, para um homem também. Os dedos da pressão social resultam, muitas vezes, em boatos ridículos "ahhh deve ser gay" ou "deve ser lésbica". Facto é que o chamamento só atinge as mulheres, porque só as mulheres é que têm filhos (o homem português é ainda visto como uma espécie de "apêndice" e a paternidade é aquela coisa que só os nórdicos levam a sério).


Adiante.


Isto do apelo maternal serve tanto para as mulheres que se fazem acompanhar de machos cobridores, tanto para as outras, as que "optaram por ficar sozinhas, que optaram pela carreira". Como se as mulheres que têm machos em casa não fossem mulheres de carreira ou pouco dedicadas à mesma, ou já agora, as que estão sozinhas e "abandonadas", não pudessem ser umas frustradas profissionais(?!?!) Ou se tem uma coisa ou outra? Na mesma onda de quem é bonito não pode ser inteligente, e quem é um génio, só pode ser um trambolho? Quantas pessoas lindíssimas e atraentes são também inteligentíssimas! Como qualquer outro, é um cliché, este o da desculpa da "grande carreira".


Serve porque para além de "terem optado pela carreira", até podem "adoptar". É tudo assim, tão fácil como eficaz. Se não surgir ninguém, e se chegarem à barreira dos 45/50 sem ninguém, têm as suas brilhantes carreiras e até podem ter essa "opção". Tudo é uma opção, até a solidão que tentam mascarar foi uma opção. De repente, uma criança torna-se "uma opção" para não se ficar sozinho. Não se teve porque a carreira vinha primeiro (leia-se "ninguém lhes pegou") e quando já era tarde (até ninguém lhes continuar a pegar), "optam" pela adopção. Depois, numa de Maria Barroso, numa de "solidariedade" para com os meninos carenciados e coitadinhos, acham que podem "contribuir para tornar a vida de alguém melhor, dar-lhes amor e carinho", adoptando-os. Vão a um lar de adopção buscar um bebé take-away (leia-se criança abandonada e com traumas e com vidas interrompidas pela desgraça), como quem vai a um canil buscar um cão ternurento e fofinho! Mascaram o desespero de não quererem morrer sozinhas, de desistirem de encontrar alguém, com a atitude (ainda por cima nobre) altruísta de adoptar uma criança. Para mostrar que podem ter falhado como amantes e mulheres, mas ainda vão a tempo de não falharem enquanto mães. Alguém devia dizer a estas criaturas que dizem "ah, não faz mal se passar da idade, adopto depois!" que a adopção não é um processo à la Angelina Jolie/Brad Pitt e que tão pouco adoptar uma criança serve para tapar o vazio da solidão.


Depois, existe o tal preconceito que o casal tem de ter filhos. Ponto. Casam e têm filhos.

Uma colega de trabalho, com quem troquei uma meia dúzia de palavras em reuniões e uma conversa ou outra, pergunta-me "há quanto tempo estão juntos?" ao que depois de lhe responder ela diz "ahhhh, já está na hora!" Sem me conhecer de lado algum. Simplesmente isto. Uma miúda de 25 anos que passa a vida a queixar-se que o marido não a compreende, casadinhos de fresco, e fala-me que sente que "já é tarde aos 25" para ter o primeiro filho. Não se entendem, mas ter um puto vai resolver o problema de comunicação. Entre uma fralda e outra, talvez cheguem a alguma conclusão... pode ser que resolvam a vida toda do puto até ele ter trinta anos.



Antigamente as pessoas tinham filhos sem esperar, fora de tempo, mas por se amarem. Hoje, tem-se um filho não porque se ame outra pessoa. Tem-se um filho como projecto de vida, como exercício de egoísmo, porque está na lista de "sonhos e projectos", como tapa buracos, às vezes até mesmo para se salvar uma relação ou para se mostrar às amigas que também se é uma fêmea parideira. Para se ser aceite. Depois de os terem, é a velha batalha de os projectarem à sua imagem e semelhança. São os pais que vivem a vida dos filhos porque não têm uma vida própria. Imaginem então se forem mães solteiras... ufa!



Estas coisas atingem-me, claro que atingem, e nunca percebi muito bem o que é isso de "instinto maternal" ou relógio biológico. Tem-se depois de comer um Bio Danone? Não sei, não vejo nem sinto as coisas dessa forma. De quando em vez, sinto-me a anormal cá do bairro, porque não sinto o chamamento divino da maternidade, não penso em adoptar crianças, não vejo gracinha nenhuma nas fraldas borradas que me dão vontade de vomitar nem faço bilu bilu, nem me derreto com bebés.


Penso que deve ser fantástico poder ter uma criança com os olhos do homem que amo, dar-lhe uma educação, transmitir-lhe os nossos valores, acima de tudo, amá-la por tudo aquilo que ela quiser ser. Não agora e não sei quando. Às vezes as oscilações hormonais da TPM fazem-me chorar e fazer figuras tristes só de pensar que se entretanto não sentir esse instinto maternal, e se só surgir aos 50, então o gajo troca-me por uma mais nova nessa altura e têm uma ninhada de filhos juntos. Buááááá!!!!!!!!!!!!!



Por enquanto o meu amor egoísta é apenas relativo a esse homem, e se continuarmos juntos e sem filhos porque ambos decidimos assim, óptimo. Não vou desculpar-me atrás da carreira que tenho, ou do dinheiro, ou da falta de tempo que nunca são suficientes. Se um dia isso mudar, óptimo. Senão, tudo bem na mesma. O que eu não vou fazer de certeza é esconder-me atrás da frustração de nunca ter podido ter um filho, e dizer que foi por opção, pela carreira, etc. Ou dizer "ah e tal, o gajo deixou-me por uma mais nova porque não lhe podia dar filhos, então vou adoptar!" Nesse dia, faço as malas e vou correr mundo. De certeza que hei-de encontrar algo de mais interessante para fazer do que trocar uma fralda...





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