::diário de bordo, manual de sobrevivência, feito de teorias da conspiração, ideias parvas, conceitos, preconceitos, provocações, alucinações, livro de "receitas" pseudo-afrodisíacas, ora picantes ora agridoces, de alguém que vive num país assim a dar para o esquisito, a que alguém chamou um dia Portugal::


quarta-feira, 11 de março de 2009

Tretas do dia





Números:
72 por cento das mulheres inquiridas preferem um homem forte e decidido, que saiba o que quer.

85 por cento afirmaram que as seduz que o homem as beije com paixão e as leve à cama sem hesitar. Preferem um homem que tome a iniciativa na hora da sedução e que as faça sentir desejadas.

60 por cento não gostam que eles demorem mais tempo que elas a arranjar-se. Não se trata de não se cuidarem, mas sim de não passar mais tempo que elas em frente ao espelho.




Acho piada à expressão "as leve à cama". Normalmente quem me "leva à cama" é a bendita da gripe ou alguma dor maldita. Enfim. O "forte e decidido" é extremamente redutor e dúbio. Um homem pode ser forte, determinado, etc etc etc em muitos quadrantes da sua vida, não o sendo necessariamente em todos ou nos mais importantes, no que diz respeito a relações amorosas. Há por aí muito bom rapaz determinado em fazer da sua vida um pântano sentimental. Há as aparências e há a realidade. Há quem pareça ser forte e há quem, de facto, o seja.

Definitivamente, não pertenço à classe dos 85%, principalmente porque já me aconteceu e não gostei nada. Um homem que parte do princípio que a mulher quer ir para a cama com ele apenas porque sim(?) é um homem que não sabe ler os sinais, ou na pior das hipóteses, presunçoso. Os arrebatamentos de paixão assolapada pouco me dizem. Mãos atabalhoadamente mal metidas e beijos feitos de línguas que fazem investidas ao lado, tudo à velocidade de banda larga, só servem para arranhar e pensar se aquele gajo irá acertar no umbigo na hora de acertar... pois.
Há formas e formas de se fazer passar a mensagem da paixão, mas infelizmente há quem confunda tesão com desespero, e paixão com força mal medida. Tudo demasiado, tudo forçado. A malta agradece, mas dispensa.

O incrível destes números e teorias, é que mesmo depois de tantas considerações acerca do comportamento sexual do homem, é inquestionável a postura da mulher no que concerne à iniciativa, e é dado adquirido que a mulher continua a ser um objecto sem vontade própria, um catavento que depende da vontade do senhor seu homem e é "levada à cama" em ápices de donzela resgatada para a alcova, na fúria da paixão sexual do seu Adónis, mais preocupado com a performance do Zezinho e em fazê-la crer que é a personagem principal do Nove Semanas e Meia. Será justo para o próprio homem, que é dissecado e questionado qual cobaia/ratinho de laboratório, que tenha a obrigatoriedade do poder de decisão e iniciativa? Melhor: será justo para a própria mulher não ter uma palavra a dizer, o direito de escolha, o direito a dizer onde quando e com quem? Já agora, a obrigação de saber também o que quer, ser forte e decidida, e ter ela mais qualquer coisa a fazer no processo todo, senão a atitude de "aqui me tens, de pernoca aberta e vamos lá a isto"?

A pressão que antecede o acto sexual em si, a antecipação e a possibilidade de rejeição, tudo isto, é algo que deve ser, tal como o prazer, partilhado pelos dois, dividido pelos dois, e um problema que não se deveria colocar em pleno século XXI. É ridículo, tal como é ridículo pegar em amostras e generalizar desta forma o sexo. Se fosse tão fragmentado e estereotipado e definível a este nível, não seria tão interessante debatê-lo. Ou fazê-lo. Estas estatísticas e estes números não são mais do que a anedota portuguesa do sexo dito "normal". Normalizámos tudo, desde que começaram na fruta.

Os comportamentos das pessoas mudam ao compasso dos seus desejos, dos seus projectos, dos seus diferentes amores e parceiros, o ser muda, transforma-se ao longo do tempo de vida. Há quem ache que foder aos 45 é ou deveria ser o mesmo que "foder"/"fazer amor" aos 35 ou 25 ou aos 15. Está no seu direito, tal como eu penso que o homem não atinge o seu auge sexual aos 18 nem tampouco a mulher aos 30. O sexo e os comportamentos são muito mais do que corpos e hormonas, testosterona e gritos. Acima de tudo, deveria ser muito mais do que números.


Mas isto sou eu, claro.

Este expresso online dá-me cabo da cabeça, por vezes...



What can I possibly say?...

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