Antes de mais, quero desmistificar uma certa ideia que possa pairar no ar depois de se ler este post: eu até gosto do Natal. Declaradamente "até" porque gosto da tradição de se festejar qualquer coisa, porque gosto de festas, mas confesso que "até" de festas já gostei mais. Sendo este blog um pouco autobiográfico, um pouco pateta e um pouco lamechas, isto não trará qualquer benefício para ninguém nem aqui defenderei acerrimamente uma dama que não é a minha. "Até" porque nestas coisas de fé, crenças e quejandos que tais, tudo se torna demasiado relativo e aqui está uma coisa que, com o tempo, gosto cada vez menos de fazer. Uma questão de definição.
Cheguei, este ano, à conclusão que acreditar no Natal, no pai Natal, em Jesus Cristo, e em Deus são ideias demasiado próximas, para meu grande infortúnio. Claro que entre um frito de Natal, a missa do galo e o desembrulhar de um presente, a coisa confunde-se com o brilho e o barulho das luzes do pinheiro e o brindar de uma bebida qualquer. Porquê? Porque apesar da grande maioria das pessoas não saber porque é que acredita em Deus e em Cristo, porque é que raio é católico ou não, toda a gente gosta deste maravilhoso engodo contra o frio e a depressão que é o Natal. Ou não. Pensa-se demasiado no que se fez e não devia ter feito, no que se alcançou ou no que não se alcançou, pensa-se em família, pensa-se num hipotético futuro que alguém nos disse que seria brilhante e, não sendo, porque falta sempre qualquer coisa dita "perfeita", chora-se e sofre-se porque o Natal é uma bofetada das grandes que nos chama à razão para a nossa imperfeição. Tudo deveria ser perfeito no Natal, não é? Não nos devíamos lembrar dos que já morreram, não nos devíamos lembrar de coisas tristes, que ainda não tivémos dinheiro para oferecer algo melhor aos filhos, e é precisamente nesta altura que se fala mais de amor, amizade, solidariedade e compaixão. É nesta altura que em vez de celebrarmos a alegria do nascimento de Cristo, nos vem à memória toda a infelicidade das nossas vidas e é nesta altura que nos lembramos de quem mais sofre. Ou não. Há sempre aquelas pessoas que não choram por nada e não se lembram de nada, não sofrem, ponto. Andam de cara alegre e apatetada sem derramar uma única lágrima, pois não sabem o que é isso de sofrer.
O Natal é das crianças, claro que é. Óbvio que é. Os melhores Natais da minha vida foram os idos, em que era uma criança inocente, em que ninguém ainda tinha morrido, não havia doenças e só havia fome em África e o raio do bacalhau cozido era limpo do prato à força de ouvir a minha mãe dizer "com tanta fome que há em África...". Não havia tantos brinquedos, por isso não se notava a grande diferença entre meninos ricos e meninos pobres. Havia sempre o ricaço que tinha computador e havia sempre o cigano que vivia da caridade dos colegas. Hoje em dia... bem, hoje em dia os putos são abalroados por popotas, computadores xpto, consolas etc etc etc etc... hoje em dia não existe a vergonha de outros tempos de se dizer a um colega que se teve mais prendas que ele. Hoje em dia os putos já sabem o que é a palavra status. No entanto, quero acreditar que há putos com valores, porque os há. Hoje em dia, e na parte que me toca, eu não acredito no Pai Natal, não acredito em Deus, e sinceramente, estou a começar a deixar de acreditar na solidariedade, na amizade, no amor fraterno entre os homens. Ninguém quer realmente saber de ninguém. Toda a gente manda uma merda duma mensagem pelo telemóvel, e é se mandar, ou uma mensagem pela Internet que sempre fica mais barato. Escrevi postais a algumas (vinte) pessoas e mandei-os pelo correio. Recebi, em minha casa, dois postais. Dois. Os meus pais já me disseram que tenho lá mais dois, dado que um deles deve ser do Partido, estou curiosa por saber quem será a alma caridosa que me escreve ainda para casa dos meus pais. Tenho o cuidado de fazer um PowerPoint personalizado que normalmente dá alguma coisinha mais sobre a minha vida, uma espécie de actualização do ano que passou. Tive cinco respostas. Isto apenas para dizer que o número tem vindo a decrescer bastante nos últimos anos. Claro que sms são aos pontapés, mas há quem não se digne sequer a fazê-lo. Telefonar, ligaram alguns. Poucos, muito poucos.
Já são alguns anos e eu sinceramente cultivo uma certa tradição que, ironicamente, não me diz quase nada, a bem dizer do meu ateísmo profundo. Não me choca, como nunca me chocou fazer férias num sítio quente, onde não se ouve falar de Natal, onde o cheiro é de óleo de côco e não de óleo de fritar rabanadas. Cultivo algo que já ninguém cultiva e desconfio que a partir de agora, vou deixar de fazê-lo, pois se o fazia, era por acreditar que as pessoas gostavam. Sinceramente? Que tinha amigos. Pelos vistos, enganei-me. Há quem se desculpe com a falta de tempo, o que me irrita ainda mais, pois é como se eu das duas uma: ou não tivesse vida e não tivesse também eu mais que fazer, ou tivesse uma fórmula mágica que me permitisse ser e fazer aquilo que mais ninguém faz ou é. Aposto totalmente na primeira. Ainda há quem faça o papel melodramático de quem não tem nada para festejar, que morreu alguém, ou que tem alguém doente na família, que o Natal não faz sentido. Pois, devem pensar que a minha vida é só alegrias. No fundo, algumas pessoas estão demasiado habituadas a receber e a verdade é que só se lembram dos outros quando esses mesmos outros desaparecem de "cena".
Este, talvez tenha sido o Natal mais calmo da minha vida, em todos os sentidos. Abriu-me os olhos para uma realidade que a dada altura, nos apanha a todos: não temos vinte amigos. Ter cinco já é uma sorte!
Para o ano, quando me perguntarem porque é que não liguei, mandei postal de cartão ou virtual, vou responder: "ainda acreditas no Pai Natal?"

