estou aqui sentada no meu sofá com vista para a cidade e luzes e chuva e chuva e chuva e vento etc e lembro-me de mil e uma noites diferentes, noites de um passado ausente, longínquo, recente, de um passado que me trouxe até aqui, a achar que a Vida, sendo tal e qual aquilo que me disseram que seria, não o foi de forma alguma o previsto, o suposto.
existe em mim uma necessidade tremendamente assustadora e perigosamente ridícula de mudança, que me empurra para decisões que amargamente concluo não serem as mais adequadas. e aprendo, obviamente, aprendo. mas sofro. adiante. no entanto, há mudanças saudáveis, projectos desterrados desenterrados de gavetas, as linhas prontas a receber cor, viagens, promessas de sol em dias tão cinzentos como estes que vivo, promessas daquilo que se deve viver na idade adulta, tipo catálogo de vida. a vida que se escolheu.
imagino-me ou recordo-me do que era aos 6 anos de idade e se houvesse um catálogo de vidas, eu teria escolhido algo parecido com o que vivo. não casei aos 25 nem tive o primeiro filho aos 27. não fui uma adolescente popular, gira e cheia de amigos, não tive dentes direitos, usei óculos e tudo, não ingressei numa profissão de sonho, não sou famosa ou rica, não escrevi o tal livro, nem plantei a tal árvore. não era essa a vida com que sonhava. ainda assim, não sucumbi às pressões daquilo que achamos que é melhor para nós, nem dei demasiada importância à opinião dos outros, quando o podia ter feito. dei todos os maus passos, conheci as pessoas mais estranhas, tive comportamentos de risco, quase auto-destrutivos, andei no lado "errado da noite". fiquei do lado de lá das decisões de vida socialmente correcta e bem aceite. e sobrevivi. andei perdida, acho que ainda ando um pouco. miserável o que se acha seguro de si, o que acha que já atingiu tudo. aquele que acha que tem tudo. tão miserável como o que acha que não tem nada. e que se queixa de tudo.
não suporto pessoas que se queixam de tudo. aborrecem-me, sinceramente. aborrecem-me também os presunçosos. aborrecem-me os círculos de pessoas que se relacionam com intenções dúbias ou por questões mal resolvidas, ou porque é conveniente que assim seja. aqui há tempos envolvi-me em algo que achei ser uma boa ideia, mas desisti no início do percurso, porque tal era a presunção, a vaidade, a pseudo-intelectualidade, e o monte de coisas inclassificável, que me encolhi, fechei-me dentro da concha e disse "isto não é para mim". às vezes podemo-nos esquecer de quem somos, mas não a determinado ponto. dei uma desculpa de merda e pronto. e rio-me quando me lembro de algumas afirmações. de coisas que ouvi. alguém fazer-se passar pela família de fulano porque é um nome coiso e tal de importante. alguém dizer "tratem-me como se eu fosse outra pessoa qualquer e não EU"...
não perco tempo a armar-me aos cucos e detesto constatar que as pessoas estão cada vez mais viradas para isso, à medida que o tempo avança e a idade avança. a pressão do sucesso. somos indivíduos "desenhados" para conquistar e vencer, a todo o custo. para alcançar o sucesso. SUCESSO. à conta do sucesso, as pessoas vestem trajes hediondos de medo mascarado de alegria, de frustrações mascaradas de vaidade, de falinhas mansas mascaradas de más intenções. quase todos preferem atacar e destruir e falar mal do que construir, ser amável, ajudar o outro. li algures que somos crianças a brincar às profissões e, a avaliar pela quantidade de papéis desnecessária que envolvem quase todas as profissões, talvez seja das afirmações mais acertadas que já ouvi. de ver algumas atitudes, interrogo-me se estou na profissão certa ou se seremos mesmo adultos infantilizados a jogar ao faz de conta. alguns chegam mesmo a ser ridículos.
são poucas as pessoas que decidiram viver as suas próprias vidas e enfrentar os seus defeitos, os problemas, a tristeza. hoje em dia, ninguém pode estar triste: tem de estar deprimido. hoje em dia ninguém pode escolher estar sozinho: tem de ter amigos (conceito estranho, o de amizade). ninguém pode ficar em casa ao sábado à noite: é um bicho raro. se alguém foge à regra instituída de "vida perfeita do século XXI", é um excluído. carta fora do baralho. anda tudo tão preocupado em ser moderno e diferente (quando alguém vos disser "sou uma pessoa diferente" riam-se e fujam) que de repente tudo se tornou igual. já repararam que as pessoas procuram sempre o mesmo, as mesmas coisas? ser DIFERENTE (já não posso ouvir ninguém achar-se diferente, juro) é sinónimo de ouvir as músicas x, ler os livros w, ver os filmes y, jantar nos sítios da moda, ir aos bares da moda e sempre com um ar negligé. ah, e ter uma vida sexual fantástica. às vezes penso que essas pessoas não VIVEM de facto. vidas reais. vidas com substância. vidas feitas de pequenos acordares em manhãs em que pensamos "nunca mais é Sábado" ou "que se foda esta merda toda, hoje não me apetecia nada ir trabalhar!", porque toda a gente gosta de dizer que gosta de fazer o que faz. aqui há tempos disseram-me, a propósito do meu cansaço e desabafo sobre o mesmo, que "não deves gostar do que fazes, eu adoro o meu trabalho!" e depois é uma gaja que está com uma depressão tão grande e a tomar tanta porcaria, que tão depressa é um zombie como está histérica de riso. dá palpites na vida de toda a gente, mas tem a dela num caco. eu só observo e penso WTF????
cansa. até este texto cansa. não vou sequer reler isto tudo.
era apenas para deixar bem claro que eu nunca quis ser diferente de ninguém nem coisa nenhuma. aliás, nem sequer nunca pensei muito sobre "aquilo que a Vida deve ser, tal e qual ela é". limitei-me a vivê-la. a abraçá-la. às vezes, mesmo a negá-la e a temê-la.
neste momento a minha meta consiste em acabar a semana de trabalho, em ter mais duas reuniões, em começar a tela que está ali desenhada há um mês, em ultrapassar o pânico que é recomeçar a pintar depois de tanto tempo. não se trata de bloqueio de artista, é medo mesmo de falhar. de já não sentir a mesma coisa, porque ideias não falta nem inspiração. falta a coragem. RECOMEÇAR é muito difícil. mas vai ser bom, bom bom bom a valer.
depois ir de viagem para Cabo Verde e não pensar em nada. comer, beber e foder. sol, muito sol. preciso de sol. vai ser bom sair, fugir daqui, parar.
para depois regressar à Vida. tal e qual ela É. e ainda bem que é.
