É comovente constatar a dificuldade que a grande maioria dos inquiridos tem para responder à pergunta «Qual é o seu pior defeito?». Não há um único que, de depois de perscrutar as profundezas mais negras da sua alma, consiga encontrar algo mais negro do que «teimosia». Alguns, ainda mais próximos da santidade, nem teimosos conseguem ser. Tenho reparado na emergência de uma nova escola de resposta a esta pergunta em que o inquirido só admite ser imperfeito por ser virtuoso em demasia. Já vi, serem apresentados, como piores defeitos, traços de carácter tais como «ser demasiado sincero», ou «confiar demais nas pessoas».
Ricardo Araújo Pereira, in Visão (02/08/2007), "Inquéritos de Verão: Um Estudo"
Ricardo Araújo Pereira, in Visão (02/08/2007), "Inquéritos de Verão: Um Estudo"
::imagem de dominic murphy::liar liar pants on fire::Este artigo de RAP vem de acordo com uma teoria que venho a desenvolver desde há uns anos a esta parte, sempre que leio entrevistas e inquéritos desta natureza, seja Verão, seja Inverno. O máximo de respostas a dar à laia de teimosia pela teimosia é escabroso e levanta algumas questões. Não sabendo ao certo se por cliché ou por outras razões, invariavelmente o povo português é bastante teimoso... ou talvez se conheça mal... ou talvez se conheça demasiado bem, e tal como a porcaria que se esconde debaixo do tapete, mais vale dizer-se que se é teimoso, do que se dizer coisa pior. O pior de tudo é que a teimosia é de facto um dos defeitos mais irritantes que possa existir quando de facto, existe, e a tendência é que a sociedade tenda a descupabilizar um defeito destes, talvez por consciência que haja outros piores. Senão vejamos: não fica nada bem a uma personagem qualquer da nossa sociedade (seja lá quem for) dizer num inquérito "ah, eu sou um mentiroso compulsivo!", "sou um materialista avarento e invejoso, só penso em dinheiro", "sou ciumento e possessivo e não deixo a minha mulher usar mini-saia" ou "eu sou um hipócrita do caraças!" ou ainda "gosto de frequentar casas de putas e tenho fétiches manhosos com criancinhas"... Get the picture? O facto é que todos conhecemos bem os nossos piores defeitos mas ninguém quer ser o mau da fita. A saída fácil é ser-se teimoso, ou à bom português, vestir a pinta de coitadinho, incompreendido pelo mundo e falar das agruras e dos dissabores de se «ser sincero a mais». Normalmente, este último "tipo", das duas uma: ou convenceu-se mesmo que todos os seus problemas de relacionamento inter-pessoal são culpa de si mesmo e da sua bondade excessiva (tem a mania da perseguição e muito poucos amigos) ou é um pinóquio da melhor espécie, hipócrita até à quinta casa. Na gíria, os tais "sonsos" de algibeira. Eu acrescentaria ainda a estas duas tipologias referidas por RAP, uma outra que também começa a estar muito em voga: é o «ter-se mau feitio». De repente, toda a minha gente neste país começou a ter muito mau feitio, como que em jeito de aviso: «vejam lá, não se metam comigo que eu cá tenho muito mau feitio!!!» Eu diria que quem inventou esta última foi o major Valentim Loureiro. Digo eu... não sei... lembra-me um pouco aquela gritaria pegada a querer assustar meio-mundo ao microfone, quando o nível de decibéis não é mais que o medo voltado para dentro de si mesmo, como que a querer convencer-se de algo que no fundo não é. Ora toda a gente sabe (pelo menos quem sofre desse mal) que o verdadeiro mau feitio é quase como uma bola-gigante de neve a escorregar montanha abaixo, em crescendo. Uma vez despoletado, não se consegue parar e leva tudo à frente. Pessoas que dizem a plenos pulmões que são teimosas nem o preço da bica de 1987 conseguem discutir; pessoas que se dizem sinceras a mais, têm uma auréola e umas asinhas que até mete dó, enquanto fazem a cantiga do bandido; pessoas que se proclamam detentoras de "muito mau feitio", parecem uns cachorrinhos quando lhes fazemos "bu!" ...
No fundo ninguém diz aquilo que é, nem é aquilo que diz.
Só não tomo uma atitude violenta porque tenho este maldito defeito de ser demasiado espectacularmente educado, sensato e bonito. Enfim: a cada um, a sua cruz.
