
Ora bem... lembram-se da beta alternativa? Pois... de volta ao tema, desta feita para falar dos verdadeiros alternativos. Existe todo um conceito alternativo ao conceito de alternatividade. Ou seja: se a beta é beta porque veste marcas (nem que sejam da feira de Carcavelos), pode ao mesmo tempo ser alternativa, tendo algumas noções básicas de cinema, música, arte and so on so on, essas coisas todas muito bonitas(?)... pode, até porque se está na moda ser-se alternativo, existe todo um mundo de regras e um protocolo muito bem definido sobre isso de se ser alternativo. Ou seja, a teoria antiga de que os betos eram betos porque seguiam as modas, e se moda presentemente é ser-se alternativo (VERDADEIRO INTELECTUAL!!!) e vestido a rigor como um verdadeiro alternativo (já iremos ver de perto como é que eles se vestem), a beta saíu de moda, logo... é a real alternativa! Subvertem-se os papéis, e todos entram neste jogo parvo de se querer pertencer a algo, a um grupo. O discurso pode ser até bastante nihilista e pessimista e o raio que os parta, mas a verdade é que alternativos verdadeiros podem ter tanta merda na cabeça como as betas alternativas.
Então afinal que é isso de se ser um "forinha"aka pseudo-intelectual de esquerda aka"O"VERDADEIRO alternativo aka groupy aka o raio que o parta?
Existem dois tipos: os que acreditam realmente que são (os mete nojo da cena toda) e os que querem acreditar (uns tristes que só vendo).
Os primeiros até percebem realmente da coisa: leram, lêem, ouvem, escutam, vão aos concertos, aos museus, ficam uma hora a olhar para as instalações da CulturGest com verdadeiro prazer, viajam imenso... são pessoas interessadas. Por saberem-no (que sabem) são uns arrogantes daqueles de bradar aos céus. Lêem, mas aquilo pouco lhes diz, na medida em que é um empinanço de tanto autor que pouca margem deixam para a sua própria visão e tudo o que fazem pouco tem de original, dedicando-se ao plágio. São académicos arreigados aos conceitos. Sempre foram e sempre o serão. Oscilam entre os 20 e os 50 anos. Vivem para a profissão, a qual fazem questão de repetir, à exaustão, como se dele dependessem, porque vivem do estatuto que a profissão lhes dá. Obviamente serão toda a panóplia de malta que veio duma classe a oscilar entre a média (o pai ainda ouve o Roberto Carlos) e a alta (o paizinho deu-lhe a conhecer Schubert numa noite de tempestade e finou-se enquanto dissertava sobre?), mas todos conseguem chegar a qualquer rendimento que ultrapassa os €25.000 anuais, o que lhes permite ter acesso a determinado "material cultural". Sim, porque os CD's e os livros e o teatro e a ópera etc custam dinheiro.
Metem mesmo nojo e pode ser realmente enfadonho estar com pessoas destas por mais de 3 ou 4 horas. São normalmente tímidos e têm muitos complexos, principalmente de superioridade. Eles acreditam agora em algo que vão repetir até ao fim das suas vidas e isso significa estar no acontecimento de algo e à frente de tudo o que for mais avantgarde. Alguns alcançam grande sucesso profissional, mas a maioria acaba por sofrer enormes desilusões e frustrações.
O segundo grupo lê os mesmos livros, ouve e vê os mesmos filmes e músicas, compra as mesmíssimas coisas, frequenta os mesmos sítios, mas... no fundo no fundo aquilo não lhes diz grande coisa. Ainda assim, ficam especados perante a instalação a detestar aquilo ("mas deve ser Arte, é Arte!"), têm imensos preconceitos (de todo o género e feitio: racistas, sexistas, homófobos, etc) mas adoptam uma atitude muito cool e vão aos sítios da moda (isso normalmente inclui gays, o que por si constitui um sacrifício), e são o tipo de pessoas que rema contra a maré, mesmo tendo conhecimento de causa de tudo o que exploram exaustivamente, apenas porque sim. Normalmente pertencem ao PC ou ao Bloco de Esquerda, mas também não sabem muito bem porquê... ao contrário da beta que gosta de Joy Division mas não sabe quem é o Ian Curtis, o forinha que quer desesperadamente ser um forinha, sabe a vida do Ian de trás para a frente, mas não entende as letras. Tem todos os livros e discos, mas não entende o desespero. Não entende a essência daquilo. Devem pensar que no fundo, no fundo, o Ian até curtia mesmo ser um forinha, escrevia aquelas coisas porque era um intelectual do camandro!...
E porquê? Porquê tudo isto, então? Porque é uma MODA. Todos estes forinhas aka pseudo-intelectuais de esquerda aka"OS"VERDADEIROS alternativos aka groupies aka o raio que os parta, têm em comum o facto de se vestirem todos de igual. Quase todos de preto. Preto preto preto. Ou cores muito garridas e fluorescentes, no caso dos designers e arquitectos. Ou casaquinhos alemães do tempo da 2ª Guerra Mundial. E t-shirts do Che por baixo. Óculos de aros grossos (pó estilo) em massa preta (ou laranja/verde fluorescente). Écharpes de lã. Malinhas a tiracolo. À medida que o tempo avança, a indústria da Moda começa a estar bastante virada para este tipo de público, desde que se apercebeu que afinal o tempo em que as pessoas que se vestiam de preto significava luto já vai longe, e bem atrás. É foleiro dizer-se que se é de Direita, mas é muito muito cool andar a beber copos no Bairro Alto, a falar de poesia, de política e de música, dissertar e divagar, mas "chega-te pralá que está aqui um sem-abrigo" e vá de dar beijinhos na língua dos cães, porque os animais são nossos amigos...
É que no mundo das aparências, entre betas alternativas e forinhas descompensados, a porcaria é a mesma, e toda a gente quer evidenciar algo que muitas vezes não é, mas apenas o que faz. Porque não é cool. Porque não é in. Porque fica mal estar fora dum grupo e não se pertencer a lado nenhum. Cultiva-se o ar negligé de incompreendido e coiso e tal, da solidão e das coisas malditas, mas as reacções são quase todas iguais e toda a gente copia identidades e estilos. No fundo, errar e ser humano é também isso. Ou pode ser também isso. E no meio de tudo o que se pretende evidenciar e/ou esconder, o mais importante fica de fora: aceitar que por vezes podemos ser um somatório de muitos desejos, ainda que contraditórios. Digo eu. Sei lá...
