::diário de bordo, manual de sobrevivência, feito de teorias da conspiração, ideias parvas, conceitos, preconceitos, provocações, alucinações, livro de "receitas" pseudo-afrodisíacas, ora picantes ora agridoces, de alguém que vive num país assim a dar para o esquisito, a que alguém chamou um dia Portugal::


domingo, 28 de outubro de 2007

Só ou acompanhado?


Isto poderia ser a típica pergunta de um empregado de restaurante relativamente ao bife, se o quer com batatas, com salada ou só o bife mesmo. Mas não. Para a grande maioria das pessoas esta pergunta refere-se ao seu estado civil ou, melhor dizendo, ao estado da sua vida amorosa. Porque é que me lembrei de falar sobre isto? Porque lembrei-me subitamente de um par de almas que conheço que têm pavor em viver sós, sem a tal alma gémea e, em contrapartida, de um outro par de almas que exibem um imenso orgulho em viver sós, de serem pessoas independentes que não abdicam do seu espaço e das suas coisas.
Perguntem-me lá se estas pessoas, tanto o primeiro grupo como o segundo estarão "sós" ou "acompanhadas"... pois aí é que começam os problemas: nem sempre os primeiros têm alguém e nem sempre os segundos estão sozinhos. E isto é válido para ambos os sexos.
São dois grupos que me enervam amiúde. Por diversas razões.
Os primeiros, os que nunca gostariam de estar sozinhos, os ditos DEPENDENTES, são aquelas pessoas que não sabem mesmo viver sozinhas, acham que uma relação é a "salvação"... mesmo que não se saiba bem ao certo o que é isso de se ser salvo. Não, não há pitada de cinismo nestas palavras (bem, pode haver um pouco), mas muito embora se saiba que é bom ter alguém ao nosso lado, tanto para dar asas à nossa criatividade relacional animalesca, tanto para manter os pratos da balança da carência afectiva equilibrados, a verdade é que existem diversas formas de vida para além da tradicional; apenas compete a cada um de nós encontrar a sua, antes de tentar encontrar a tal alma gémea. Viver com esse objectivo pode ser algo de terrível: encontrar ALGUÉM. Pior ainda, se é a sociedade que nos impõe isso. As velhas frases do "está na hora", "já era tempo de casar", "não queres ter filhos?" e por aí fora, já todos sabemos que as fazem. Nós próprios perguntamo-nos e perguntamos a outros, como se uma espécie de testemunho tradicional se tratasse. Mas sabemos que não tem de ser assim. O meu conselho a estas pessoas ditas miseráveis?... tenham prazer em tratar de si mesmas: inscrevam-se num ginásio com as amigas/amigos, vão ao cabeleireiro que é tão gay e tão caro cujo salão nunca tiveram coragem de lá entrar (isto só para as gajas), comprem livros, leiam muito, comprem jornais e revistas, TRABALHEM, arranjem um Blog, escrevam postais, empaturrem-se de coisas giras, saiam de casa, inscrevam-se numa causa nobre, e por favor: não é um crime e nada do outro mundo não sair a um sábado à noite. Mas se saíssem sem aquele ar triste de "não tenho ninguém" também fariam um grande favor à humanidade. Estas pessoas, acima de tudo, precisam de lidar com o facto de estarem sozinhas, mas provavelmente se estão sozinhas, é porque não se esforçaram por alterar esse estado. Já agora, dêm o maior peido do mundo à noite, na cama, e sorriam porque ninguém teve de o ouvir.
Os outros, os INDEPENDENTES. Na minha opinião, estes são os mais irritantes, porque são os mais arrogantes, orgulhosos do seu estado de solidão e independência e porque se fazem notar mais do que os outros, por norma, mais silenciosos. Passam a vida a dizer "sou muito diferente e muito independente". Para mim, uma pessoa independente é uma pessoa que paga as suas contas. Só. Porque todos dependemos uns dos outros para tudo. O resto é arrogância que esconde uma grande lacuna nas relações e uma falta de maturidade emocional muito grande, e às vezes, uma certa frustração que desculpa uma relação pouco feliz (porque há aqueles independentes que não estão sós) ou a ausência não justificada de uma outra pessoa nas suas vidas (não têm ninguém e não sabem como justificá-lo). O pior é que estes são também mais "sociáveis", têm o péssimo hábito de se relacionar com os seus iguais e semelhantes, ou seja: pessoas igualmente sós e muito muito muito independentes e felizes por não terem ninguém ("que seca, ter namorado!!"), ou pessoas que, embora tenham uma cara-metade, o mais certo é ser uma pessoa DEPENDENTE (o tal que pode ter ficado em casa no Sábado à noite), gostam de impôr a sua vontade de pessoa independente e cada um faz a "sua vida".
Há uma espécie de código implícito neste tipo de grupo: são todos muito felizes nas suas vidas sós e raras vezes se dão com os outros, os casais monogâmicos. É fácil ver este tipo de grupos, numa saída à noite: distinguem-se pelos sexos, ou seja, grupos em que só existem homens ou grupos em que só existem mulheres. Do tipo "pilinha não entra", ou do tipo "menina não entra". Também há a vertente do "unidos na miséria de ser alguém que não tem ninguém" e estes são os grupos mais deprimentes: pessoas que deixaram mesmo de acreditar que podem ter alguém, e essa ideia assemelha-se a algo de tão ridículo como acabar com a guerra do Irão e o Bush tornar-se um gajo realmente honesto e porreiro.
Conselhos a estes? Sei lá, tentem ver para além do próprio umbigo. Caso tenham alguém, considerem que provavelmente não é essa, a pessoa certa, e caso não tenham ninguém, deixem de mascarar a solidão com falsas justificações apenas porque ninguém tem de justificar nada a ninguém! Who da hell fuck cares?!?!
Obviamente estes dois grupos de pessoas tendem a nunca mudar a sua forma de ser e de estar na vida, apenas porque não se relacionam com outras pessoas e não abrem a sua esfera relacional, o leque de amigos. Os primeiros porque raras vezes saem de casa, e se o fazem, fazem-no a dois (ou duas). Os segundos, porque criticam acerrimamente todos os outros e acham que assim é que estão bem. Independentes como são, acham que todos os outros estão errados. Os primeiros vivem para o amor, com a ideia romântica de que o seu par é tudo e se estão sozinhos, são uns miseráveis que só pensam em morrer de amor. Os segundos vivem egoisticamente para si, centrados em si e nos seus hábitos de vida que não tencionam mudar, porque dá demasiado trabalho.
Quando me perguntarem, algum destes dias, "só ou acompanhado" eu respondo que o quero mal passado e com ovo a cavalo!...

What can I possibly say?...

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