::diário de bordo, manual de sobrevivência, feito de teorias da conspiração, ideias parvas, conceitos, preconceitos, provocações, alucinações, livro de "receitas" pseudo-afrodisíacas, ora picantes ora agridoces, de alguém que vive num país assim a dar para o esquisito, a que alguém chamou um dia Portugal::


segunda-feira, 19 de novembro de 2007

The nightmare before Christmas

Há um ano atrás foi mais ou menos assim que escrevi:






tHE ______________
nIGhTmARe ____________
BeFoRE ____________
ChRiSTmAS _______
__________________
____________


Ninguém gosta muito de falar do materialismo que envolve a época natalícia, talvez porque seja feio ou esteja fora de moda dizer-se que se é materialista. Materialisticamente falando, creio ser a forma mais bonita de se dizer a alguém que se gosta dessa pessoa:
materializando-o.
Transformar um objecto repleto de conteúdos e significados e formas num objecto de desejo presente de alguém por alguém. Espelhar a nossa forma de ver a vida e as coisas dentro da casa de alguém. No mundo de alguém. Torná-lo mais nosso, porque nos tornamos sempre presentes. Talvez por isso algum sentido encontro na palavra presente como forma de se oferecer algo, a intemporalidade da qual o acto se reveste, porque é um pouco de nós, da nossa visão, da nossa sensibilidade.


[...]

Materializar afectos não é fácil e é no conhecimento prévio de cada uma das pessoas que compõem as nossas vidas que damos não só a pensar no que cada um deseja, mas acima de tudo, o que queremos que essas pessoas desejem; que nos desejem. Seja a colocar um perfume ou uma lingerie a dar asas à sensualidade, seja a guiar uma bicicleta e a reter a noção de equilíbrio pelas mãos de um adulto, seja a brincar com um carrinho e fazer brrrruuuuuum, seja a ver aquele filme ou a ouvir aquele disco ou a ler aquele livro, porque em cada uma das nossas escolhas vive um bocadinho de nós, que nos torna apenas mais... presentes.


_____________________________ a imagem é do filme The Nightmare Before Christmas, de Tim Burton, e serviu de "capa" a um dos mais significativos presentes que recebi há já uns anos, intitulado
I Am Still What I Meant To Be.

Pediram-me para escrever uma coisa assim a dar para o cáustico, acerca de toda a parafernália que envolve a loucura aos centros comerciais e quejandos, os males do consumismo desenfreado... a falar do mal que atinge a sociedade ocidental, consumista e hipócrita e etc e coiso e tal... de como as pessoas se podem tornar uns seres abomináveis, que são tão boazinhas nesta época e esquecem-se das criancinhas e dos pobrezinhos no resto do ano. De como ainda nem saímos do Verão e já nos entram as renas pela casa adentro, e os sinos e tudo e tudo e tudo... tudo regado com brilhos e cores de Natal. Ora isto pode até ser bem verdade, mas a maior das verdades para mim é ainda o Natal que recordo de criança e a vontade que tenho de perpetuar isso dentro de mim. Se sou consumista? Equilibradamente, sim. Se gostava de ganhar o EuroMilhões? Obviamente que sim. Se daria parte desse dinheiro às criancinhas pobrezinhas? Certamente. Positivamente. Afirmativamente. A questão é que uma coisa não impede a outra. Vou atafulhar a minha casa de coisas lindas e prendas e brilhos e comida e não me vou sentir mal por isso. Derramarei algumas lágrimas quando me lembrar de todos os que não têm o mesmo que eu tenho, e lembrar-me-ei de todos aqueles que já fizeram parte do meu Natal. Mais do que as coisas, reinarão os sentimentos, a alegria, o Amor. Posso sempre exalar todo o meu cinismo relativamente à hipocrisia que vejo e sinto, mas não mais do que no resto do ano; caso contrário, estaria a ser muito mais ou tão hipócrita como os outros.

Prefiro falar mal de quem fala mal, de quem se deixou vencer pela amargura, quem não consegue ver o lado bom das coisas. Não tenho de abrir os olhos a ninguém porque cada um vive à sua maneira, e os cínicos deste Mundo não são melhores que os hipócritas. Todos somos um pouco hipócritas, no fundo (eu por exemplo sou ateia e vivo o meu Natal cristãozito) e todos somos um pouco cínicos (confesso que este irá ser o meu Natal mais feliz desde os meus dezasseis anos, em parte porque aqui e num raio de muitas milhas, não há shoppings).

Resta o mais importante, o espírito. Cada um tem dentro de si algo que quer partilhar com outros nesta altura do ano. Eu sou daquelas pessoas estupidamente felizes, de sorriso no rosto, sacos na mão e listas de compras. Adoro o comércio tradicional, as ruas enfeitadas, o frio, os postais... genuinamente, sou. Independentemente de quem está, de quem já morreu, de quem está longe e de quem se tem perto. E sinceramente, tenho cada vez menos pachorra e tempo para me dedicar à infelicidade, à amargura. Prefiro estar na cozinha a preparar o bolo de Natal e a rechear o perú. E a amar os que estão perto de mim. Longe dos centros comerciais.


What can I possibly say?...

Conteúdos temáticos de extraordinário interesse para o comum dos mortais

Expresso

Publico.pt Última Hora

Visão

Tretas que morreram de velhas...

A Treta Mora ao Lado...