Ponto número dois: ainda bem que não sou.

Não serve o presente post para desacreditar os reais vegetarianos que muito respeito têm da minha parte. Não serve tampouco de ataque a todos os lisboetas (a grande maioria de pessoas de que falo nem de Lisboa são, a bem dizer, e tentam a todo o custo negar as suas raízes rurais, abraçando todo um mundo (sub)urbano que vivem de segunda a sexta-feira, com intervalos ao fim-de-semana, que é quando vão à terra). Serve o presente post para desacreditar a corja real que vive num (infelizmente cada vez menos) (sub)mundo lisboeta e que nele se tenta afirmar de alguma forma por hábitos sobejamente modernos e muito alternativos, os quais incluem toda uma nova gastronomia (nada a ver com a nouvelle cuisine, não misturar por favor) apenas porque são in. Ou alternativos.
Enquanto escrevo este post encontro-me a salivar da raiva que tenho a esta gente, que me metem nojo e asco, não porque me relacione directamente com pessoal deste gabarito (normalmente chego àquela fase em que o meu mau feitio me permite mandá-los dar a tal curva ao tal bilhar com mais ou menos elegância que o vernáculo me permitir na altura), mas porque sempre que tenho a ocasião de visitar alguns blogs, saltam-me à vista este espécime que abomino cada vez mais e que se reproduz como cogumelos na blogosfera, os quais já foquei em post anteriormente: os forinhas aka pseudo-intelectuais.
Qualquer assunto serve de pretexto ou ponte para se fazer referência ao facto de se ter comido tofu ou soja ou algo assim muito fora tudo o que é a boa mesa portuguesa. Está completamente fora de questão dizer que se adora uma boa chouriça assada com grelos ou uma sardinha assada com broa. Nem pensar em bife!!! Coitados dos animais!! Não é in. Não é bem. Bem é a soja. Bem é o tofu. Bem é a lasagne al funghi. Bem é o estrangeirismo que se apoderou dos nossos hábitos e a globalização que é sempre uma coisa tão bonita de se ter casa adentro.
Não é raro nos dias de hoje alguém dizer "ontem o jantar foi fantástico!" e em vez de se dizer com quem se esteve, diz-se o que se comeu e bebeu, e os livros que se discutiram, bem como os filmes. Quanto mais fora, melhor. Quanto mais mainstream, melhor. Lêem mais que o Professor Marcelo Rebelo de Sousa! E quanto mais sensaborona a comida e altamente vegetariana, melhor. Queiram ou não acreditar, isto apenas se passa em Lisboa, talvez de igual forma no Porto, desconheço se tal assim é. Grupos de pseudo-intelectuais se juntam em manada para estes jantarinhos íntimos e a conversa é invariavelmente a mesma. Existe um protocolo e existe uma etiqueta a seguir. Existe muito muito verniz. O que não existe? Gargalhadas sem drogas (não, eu não tenho nada contra as drogas, mas quem não meta uma linha de coca não é bem visto) ou sem muito álcool, são raras. Não existe também um belo bife mal passado ou um simples franguinho assado, comprado à pressão e empurrado com um belo tintinho, apenas para se servir de pretexto a uma boa companhia e conversa genuínas. Há coisas que se estão a perder nesta nossa sociedade portuguesa e tão pseudo-burguesa que tanta soja e tanto tofu come.
*Lembro o meu primeiro contacto com pessoal assim, num jantar assim, numa Lisboa de há dez anos atrás. Jantar com muito muito Martini, muita muita soja, muita roupa estranha e muita conversa da treta com malta da Faculdade de Arquitectura. "A tua mala é incrível!! É Prada?" e eu "não, é da feira mesmo". Por acaso até nem era, mas foi mesmo para escandalizar. Que estas meninas e meninos é tudo muito in e muito design e muito cliché parvo nas cabecinhas, é muita soja e muito tofu e muita amizade aos animais, mas se formos ver as etiquetas, é muita pele de animal morto e atitude muito pouco amiga dos seres de quatro patas.
Ainda bem que eu não sou de Lisboa e o bife que comi ontem estava absolutamente fantástico!
