"Não raras vezes ouço a questão, normalmente vinda de pessoas com quem tenho alguma proximidade, na qual estas desconhecem a imagem ou efeito que projectam nos outros. não quer isto dizer que se importem com o que outros possam opinar em confronto com a sua identidade pessoal, mas tão somente a forma como serão vistos. Arrisco que qualquer um de nós talvez já tenha gostado de ser invisível e introduzir-se em local onde o próprio é motivo de conversa. Há, para algumas pessoas, um lado semi-perverso/voyeur, mas existe outro que, em meu ver, se prende com o desejo de saber quem somos, nem que seja por espelho conceptual e necessariamente exógeno. Em suma, quem nos vê, o que verá?
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A verdade é que se o velho clichê está certo, e nenhum homem é uma ilha ( com todo o devido respeito, eremitas e capuchinhos, se não estão doidos, ficarão muito rapidamente. Eu pelo menos ficaria, pronto...), a projecção da nossa personalidade, físico, opiniões, capacidades, forma de nos identificarmos enquanto seres humanos com valores expressos na glóriosa lógica da liberdade pessoal, não pode ser despicienda. Nem que seja para nos conhecermos melhor, para que o papel que afinal queremos escrito para nós seja alvo de uma melhor adaptação."
Este foi um dos melhores posts que já li desde que ando nestas coisas de Blogs, tomadas de opinião, escritas on-line, etc. E porquê? Porque levanta uma série de questões relacionadas com tudo aquilo que é um pouco fútil em nós mesmos e nem por isso assim tão fútil como isso.
Cada uma das pessoas encerra um papel diferente na nossa vida e isso equivale dizer que obviamente existem gradações variadas da importância afectiva que damos aos outros. Consequentemente, teremos uma importância diferente para cada uma das partes, importante é que não confundamos os alhos com os bugalhos. Salutar que a importância que eu dê a um colega de trabalho seja a mesma que ele me dê; de igual forma, seria ideal que entre amigos essa confiança fosse primordial e equilibrada, o que nem sempre é fácil. As relações humanas quase nunca o são. Fôssemos todos mais transparentes e honestos, primeiro para connosco, depois com os outros, em igual proporção de veracidade, e o mundo seria um caos. Sim, não seria melhor. Há coisas que não devem ser ditas, principalmente se temos consciência de que vão magoar terceiros e o preço da verdade nem sempre justifica tudo. Às vezes, é demasiado alto.
Por outro lado, é fulcral que a imagem residual que temos de nós mesmos seja o mais aproximada possível à imagem que procuramos transmitir. Na senda do não se poder agradar a gregos e troianos, penso mesmo que em última instância, temos de ter a consciência de que nem sempre desempenhamos aquilo que é esperado de nós, e muitas vezes, podemos até ter agradáveis surpresas quando a resposta vinda do outro lado é positiva. As relações humanas constroem-se com tempo, a cimentar estruturas de confiança mútua, no intercâmbio das acções/reacções de cada uma das partes envolvidas. Acho que só esse tempo nos dá a avaliação daquilo que vamos sendo pela vida fora e as transformações que sofremos, a par e passo com os nossos próximos, a desempenhar vários papéis e a sofrer as evoluções de cada relacionamento. Nada é estanque ou definitivo. E esse é o maior desafio, mas também a maravilha de se ser humano.
