::diário de bordo, manual de sobrevivência, feito de teorias da conspiração, ideias parvas, conceitos, preconceitos, provocações, alucinações, livro de "receitas" pseudo-afrodisíacas, ora picantes ora agridoces, de alguém que vive num país assim a dar para o esquisito, a que alguém chamou um dia Portugal::


sexta-feira, 28 de março de 2008

Ser ou aparentar? Eis a questão.



Este post fez-me pensar (como quase todos os que ali encontro).


"Não raras vezes ouço a questão, normalmente vinda de pessoas com quem tenho alguma proximidade, na qual estas desconhecem a imagem ou efeito que projectam nos outros. não quer isto dizer que se importem com o que outros possam opinar em confronto com a sua identidade pessoal, mas tão somente a forma como serão vistos. Arrisco que qualquer um de nós talvez já tenha gostado de ser invisível e introduzir-se em local onde o próprio é motivo de conversa. Há, para algumas pessoas, um lado semi-perverso/voyeur, mas existe outro que, em meu ver, se prende com o desejo de saber quem somos, nem que seja por espelho conceptual e necessariamente exógeno. Em suma, quem nos vê, o que verá?

(...)

A verdade é que se o velho clichê está certo, e nenhum homem é uma ilha ( com todo o devido respeito, eremitas e capuchinhos, se não estão doidos, ficarão muito rapidamente. Eu pelo menos ficaria, pronto...), a projecção da nossa personalidade, físico, opiniões, capacidades, forma de nos identificarmos enquanto seres humanos com valores expressos na glóriosa lógica da liberdade pessoal, não pode ser despicienda. Nem que seja para nos conhecermos melhor, para que o papel que afinal queremos escrito para nós seja alvo de uma melhor adaptação."






Este foi um dos melhores posts que já li desde que ando nestas coisas de Blogs, tomadas de opinião, escritas on-line, etc. E porquê? Porque levanta uma série de questões relacionadas com tudo aquilo que é um pouco fútil em nós mesmos e nem por isso assim tão fútil como isso.

As pessoas, na sua grande maioria, dividem-se entre aqueles que dão uma grande importância relativamente àquilo que os outros pensam de si e aqueles que simplesmente se estão a cagar. Sim, porque existem sempre pessoas que se estão com-ple-ta-men-te nas tintas para aquilo que os outros pensam.
Isto, claro, com todas as variações e percentagens entre cada uma das partes de importância que cada núcleo de opinião constitui para cada um. Ou seja: um indivíduo pode ser alguém que se divida 70-30 em percentagem para cada um dos lados; estar em certa medida preocupado com aquilo que os outros pensam de si, mas não é algo determinante na escolha de acção x ou z no seu quotidiano.
Existem duas questões fundamentais que o meu amigo SK não abordou e que julgo serem vitais em toda esta questão de ser a tal mosca que quer saber o que os outros pensam de si:
1ª e mais importante: quem são esses outros? Que importância têm para nós?
2ª: será que a imagem que transmitimos aos outros é sempre a mesma ou variamos conforme quem temos à nossa frente? Será que temos consciência do que somos para cada uma das partes?
Os outros. O Inferno serão mesmo os outros? Se calhar... ou não. Normalmente tendo a discordar desta afirmação, com a máxima "quem boa cama fizer, nela se deitará". Não podemos culpabilizar os "outros" e o mundo pelas nossas acções e escolhas erradas, ou as nossas frustrações. Para cada uma das nossas acções, existe sempre um feedback, sendo mais ou menos visível. Conforme o tipo de acção, boa ou má, alegre ou triste, mais ou menos reflectora daquilo que somos na realidade, terá sempre um feedback. Interessa aqui saber quem são os outros. Conheceremos os outros tal como eles são? Até que ponto falamos aqui de amigos ou conhecidos? Será o nosso companheiro/a ou o chefe? Colegas de trabalho ou familiares? Amigos a quem confessamos tudo ou amigos de beber copos? Já agora, daremos a mesma importância a cada uma destas pessoas ou é tudo farinha do mesmo saco? Provavelmente toda a gente confrontada com esta afirmação dirá que "ah, claro que nem toda a gente é igual!!!" e afirmamos saber fazer a distinção, mas já todos cometemos o pecado da estupidez traiçoeira. Algures na nossa vida, apaixonámo-nos por quem não devíamos, fomos amigos de pessoas que afinal se revelaram nem assim tão amigas, pessoas em quem confiámos e não estiveram à altura das nossas expectativas; por outro lado, quantas vezes deixámos de fazer algo que faria um amigo ou amiga feliz, tendo consciência disso? Quantas vezes deixámos para trás alguém em prol de fazer uma merdice qualquer sem qualquer importância? Quantas vezes dizemos a nós mesmos que não temos tempo ou que não temos paciência para x y ou z? Tudo isto culmina num ponto que toda a gente já causou ou foi vítima: a desilusão.


Cada uma das pessoas encerra um papel diferente na nossa vida e isso equivale dizer que obviamente existem gradações variadas da importância afectiva que damos aos outros. Consequentemente, teremos uma importância diferente para cada uma das partes, importante é que não confundamos os alhos com os bugalhos. Salutar que a importância que eu dê a um colega de trabalho seja a mesma que ele me dê; de igual forma, seria ideal que entre amigos essa confiança fosse primordial e equilibrada, o que nem sempre é fácil. As relações humanas quase nunca o são. Fôssemos todos mais transparentes e honestos, primeiro para connosco, depois com os outros, em igual proporção de veracidade, e o mundo seria um caos. Sim, não seria melhor. Há coisas que não devem ser ditas, principalmente se temos consciência de que vão magoar terceiros e o preço da verdade nem sempre justifica tudo. Às vezes, é demasiado alto.


Por outro lado, é fulcral que a imagem residual que temos de nós mesmos seja o mais aproximada possível à imagem que procuramos transmitir. Na senda do não se poder agradar a gregos e troianos, penso mesmo que em última instância, temos de ter a consciência de que nem sempre desempenhamos aquilo que é esperado de nós, e muitas vezes, podemos até ter agradáveis surpresas quando a resposta vinda do outro lado é positiva. As relações humanas constroem-se com tempo, a cimentar estruturas de confiança mútua, no intercâmbio das acções/reacções de cada uma das partes envolvidas. Acho que só esse tempo nos dá a avaliação daquilo que vamos sendo pela vida fora e as transformações que sofremos, a par e passo com os nossos próximos, a desempenhar vários papéis e a sofrer as evoluções de cada relacionamento. Nada é estanque ou definitivo. E esse é o maior desafio, mas também a maravilha de se ser humano.

What can I possibly say?...

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