
“Leonard Cohen” por João Bonifácio:
“Em Lisboa, Cohen fingiu ser um cavalheiro sem dores de alma e, entre arranjos com mais ou menos bom gosto, desfiou as suas profecias malignas com uma voz de tempestade”
“Conta a lenda que há mais de 30 anos Leonard Cohen, supremo esteta da filha-putice arrependida, entrou no palco para um concerto empinado num cavalo branco. Ontem, sacana maior de entre os sacanas que restam (Dylan, Waits, mais ninguém), entrou - sem cavalo - a passo de trote no palco montado no Passeio Marítimo de Algés. É outro Cohen: foi-se o ópio, a cocaína que usava para combater a depressão (e que odeia), as relações turbulentas com as mulheres, as quedas. Vestido de fato e chapéu pretos e camisa branca, Cohen fingiu, durante três horas, ser um cavalheiro sem dores de alma, mas é óbvio que ele é apenas o cavalheiro que a sua solidão o obriga a ser. E como se isso fosse pouco, ainda cantou.
Começou com uma versão charmosa de Dance me to the end of love, ajoelhou-se a meio, tirou o chapéu. As meninas mais novas (severamente pintadas, em homenagem ao mestre) choraram. E, para que não restassem dúvidas de que aquele era um concerto em que o gosto do público era mais importante do que a melhor música que Cohen fez (o registo do concerto foi o de um “Greatest Hits” o menos depressivo possível), saiu uma versão jazzy de The future. A canção foi bem recebida mas há uma certa ironia em ver dezena e tal de milhares de pessoas a urrar perante uma espécie de versão cantada do Livro do Apocalipse.
De entre os vinte e muitos temas do alinhamento, o grosso veio dos álbuns dos anos 80 e 90: canções baseadas em sintetizadores, com arranjos de música de bar de hotel, de alterne de luxo. Para criar uma unidade com os temas repescados aos anos 60, Cohen optou por bateria, baixo, duas guitarras (ou alaúde), sopros (ou metais), teclas e coro de três meninas. O melhor dos arranjos veio das teclas: um velhinho Hammond salvou todo o tema que ameaçou resvalar para o pântano do piroso. No lado oposto do ringue, esteve o homem que soprava: cada vez que pegou no saxofone (ou na harmónica) reduzia a respectiva canção a um émulo de Kenny G, a um vago amontoado de clichés New Age.
Mas, surpreendentemente, houve Cohen. Em seis, sete canções, o judeu puxou o mais que pôde pela voz, atirou-se aos crescendos que caracterizavam muitos dos seus temas iniciais e levou toda a santa alminha à comoção. Bird on a wire, tirando o horrível solo de saxofone, fez muita gente ceder às lágrimas, Who by fire (em que Cohen pegou na guitarra acústica pela primeira vez) idem, Hey, that’s no way to say goodbye, ainda que demasiado aveludado nas pontas, esteve perto, Suzanne foi estupendo e depois houve Hallelujah: a voz sempre a suplantar-se, uma entrega desmesurada, os fortíssimos de percussão no tempo certo, o coro a redobrar o quebranto - algo de poderoso aconteceu ali, provavelmente a canção mais emocionante que alguma vez vimos ser cantada ou a canção que vimos ser cantada de forma mais emocional ou a canção que mais emoção vimos causar ao ser cantada. E depois disto ainda houve um So long, Marianne que espantou pela capacidade de se atirar à jugular sem rodeios.
Na secção anos 80/90, houve faixas para encher: Take this waltz, Gipsy wife, um aborrecidíssimo In my secret life, aquela chatice de Boogie Street. Tudo o que de mau há na música de Cohen das últimas décadas - os arranjos ao gosto de Julio Iglesias, o funk branco soft porno, as harmonias de guitarra à Casino do Estoril, os órgãos planantes para dois dedos de Martini em varanda de resort de luxo ao pôr-do-sol - esteve ali demasiado exposto, bem ao gosto dos turistas alemães de classe média alta.
Mas - e ainda nesse campeonato, que fica a milhas de tudo o que o homem fez quando a metafísica da carne lhe roeu os ossos, isto é (e sendo simpático), até 1979, com Recent Songs - houve faixas ao nível do que se encontra em disco: Tower of song tornou-se um monstro, Everybody knows, com pedal steel guitar, esteve acima do original, First we take Manhattan tem uma senhora linha de baixo a bambolear e I’m your man foi de um sarcasmo extraordinário - resta saber se quem cantou a canção aos berros se apercebe de que não é uma canção de charme, mas sim de patética submissão.
Faltou num concerto tão grande (três horas, vinte e tais canções) um tema que fosse de Songs of Love and Hate (a obra-prima absoluta), faltou surpresa no alinhamento, algum pudor nos arranjos, mas o grande trunfo de Cohen - além das canções - é que, por detrás daquela voz de charme e da pose de cavalheiro que está ali por acaso, ele canta: a sida, a crueldade emocional, o sado-masoquismo, o terror, o advento do fascismo, o crack, o sexo anal, o cunilingus enquanto forma de salvação, todas as coisas bonitas de que precisamos quando estamos de férias no Algarve.
Não houve as catarses do início, houve imagens de negrume escondidas entre cortinas de veludo, com cada uma das palavras apocalípticas do judeu a adquirirem a coloração da tempestade em dia claro. Pelo meio, Cohen agradeceu 600 vezes ao público em pose de caricatural humildade e apresentou os músicos 1800 vezes, como um mestre de cerimónias excessivamente cerimonioso - quem conhece Cohen sabe que aquela é a sua forma de ser sarcástico e de gozar consigo mesmo. E sabe que aquele concerto foi a forma possível de dizer adeus, porque já não consegue ter força mental para cantar (por exemplo) Let’s sing another song, boys. E, para o público, isto foi uma maneira de agradecer àquele que nos ensinou que religião é uma forma de cair, de preferência em cima de uma mulher.”
Dono de uma voz inconfundível, o poeta canadiano encantou quem o viu e ouviu em Lisboa esta noite.
Num Verão que ficará na memória dos lisboetas como o dos veteranos (o que faltou para trazer também Tom Waits?), um dos concertos que melhores recordações trará será com certeza aquele que o canadiano Leonard Cohen deu esta noite. Simpatia para dar e vender (referiu-se sempre à audiência como "caros amigos"), uma boa-disposição contagiante (por várias vezes saiu de palco a saltitar qual criança de 10 anos) e uma voz que não parece ter envelhecido, foram trunfos que Cohen usou para encher as medidas, até dos mais exigentes.
Um público maioritariamente composto por pessoas de uma faixa etária bem mais elevada que aquela que passou pelo Passeio Marítimo de Algés há uma semana, cantou, dançou e não parou de elogiar o cantor e a banda. No entanto, como comentava alguém à entrada, o cantor e escritor de canções arrasta uma legião de fãs que abarca várias gerações, pelo que não foi de estranhar a presença de filhos e netos (estrangeiros a rodos, também).
Pontualidade britânica, à hora marcada Cohen atacava já um dos seus temas mais conhecidos. "Dance Me to the End of Love" abriu um concerto de mais de duas horas, com um intervalo pelo meio. Do alto dos seus 73 anos, o cantor e escritor de canções continua um cavalheiro - chapéu e indumentária a condizer com a condição - partilhando o protagonismo com uma banda e um coro irrepreensíveis e agradecendo várias vezes o carinho de um público que até flores lhe arremessou.
Um alinhamento que não deixou de parte nenhuma das canções mais esperadas (uma pena não se ter ouvido "The Guests", no entanto) formou uma espécie de retrospectiva de carreira. Os três elementos do coro feminino fazem o contraponto perfeito (e sem excessos despropositados) à voz ainda encorpada e indescritivelmente profunda de Cohen. Os maiores arrepios chegaram, como seria de esperar, com "Hallelujah" e "Suzanne" (ambos na segunda metade do concerto) mas o momento eleito pelo público terá sido mesmo "I'm Your Man", com direito a coro bem afinado.
Sem o aparato de ecrãs gigantes, em palco o cantor de farta cabeleira branca desliza como uma sombra, fazendo ressoar a voz por um espaço bastante composto e iluminado por uma lua bem redonda. Entre agradecimentos, e antes da mensagem urgente de "Anthem", Cohen faz uma pausa para elogiar a música portuguesa e falar de um "mundo mergulhado no caos". Antes, já "Everybody Knows" e "Hey, That's No Way to Say Goodbye" tinham deixado o público totalmente rendido.
Coube a "Tower of Song" abrir com chave de ouro (e bastante garra) a segunda metade da actuação - o verso "I was born with the gift of a golden voice" arrancou, previsivelmente, ovação espontânea. "Boogie Street" é servido em formato de dueto intimista com Sharon Robinson e, antes do encore, "Take This Waltz" faz (mesmo) dançar.
O regresso ao palco é feito em passo vigoroso e bem-disposto. Com a garra de alguém por quem a idade não passou, incendeia os ânimos com "So Long, Marianne" e continua em alta com o ritmo galopante de "First We Take Manhattan". O solene "Sisters of Mercy" é apresentado depois de mais uma breve saída de palco e entrega depois de bandeja o protagonismos às Webb Sisters na prece hipnotizante de "If It Be Your Will".
"Closing Time" parecia querer encerrar a noite, mas, visivelmente satisfeito, Cohen regressa ainda para o íntimo "I Tried to Leave You". Solos para todos os elementos da banda, sempre convenientemente apresentados pelo anfitrião, numa despedida que termina em coro generalizado. "Obrigado por uma noite memorável", diz o cantor no final. Sem qualquer tipo de hesitação, retribuímos o agradecimento.
Texto de: Mário Rui Vieira
Foto de: Rita Carmo/Espanta Espíritos
