"Amo-te"

Último concerto do ciclo de cinco concertos dedicados à integral das Sinfonias de Beethoven na sua transcrição para piano a quatro mãos. Foram solistas desta série de cinco concertos os pianistas António Rosado e Alexei Eremine, com os comentários do compositor Alexandre Delgado.
O Ciclo Opus Beethoven é uma produção do Teatro Nacional São Carlos www.saocarlos.pt
Programa
Sinfonia n.º 9 em Ré menor, op. 125
Allegro ma non troppo e un poco maestoso
Molto vivace
Adagio molto e cantabile
Finale: Presto. Allegro assai
NO CENTRO DO UNIVERSO
As Nove Sinfonias de Beethoven
Nada se compara, no domínio orquestral, ao fascínio exercido pelas nove sinfonias de Beethoven. A carga mítica que adquiriram desde o século XIX colocou-as no centro do universo da música clássica, da qual se tornaram quase sinónimo. Tal como os quartetos ou as sonatas para piano do compositor, são pedra de toque de toda a evolução posterior do respectivo género.
Donde vem esse fascínio, esse impacto universal? Depois das 106 sinfonias de Haydn, das 49 sinfonias de Mozart, a diferença começa pelo número: o facto de serem apenas nove torna cada uma delas muito especial, com vida e personalidade próprias.
Na 1.ª Sinfonia (1800) o compositor emulou e homenageou os modelos de Haydn e Mozart ao mesmo tempo que já revelava a centelha do génio. Menos célebre que as suas irmãs, a 2.ª Sinfonia (1802) é um elo vital para a Eroica e oferece um vínculo subterrâneo com futura 9.ª Sinfonia, tendo como andamento lento um dos momentos máximos da produção beethoveniana.
A 3.ª Sinfonia, Eroica (1804), foi um ponto de viragem da história da música: a celebração do heroísmo e da capacidade de transcender as amarras da condição humana são indissociáveis da coragem com que o próprio Beethoven enfrentou a sua tragédia pessoal, numa obra que rompe os diques de todas as formas instrumentais conhecidas. Obedecendo à célebre dicotomia entre sinfonias pares e ímpares, a 4.ª Sinfonia (1806) oferece um contraste absoluto em relação à explosão prometeica da 3.ª, representando uma acalmia e um regresso a proporções mais clássicas.
A 5.ª Sinfonia (1808) inspirou em 1810 uma crítica de E. T. A. Hoffmann que foi um dos marcos definidores do Romantismo. Exemplo máximo da integração da forma procurada por Beethoven, a obra foi a matriz do conceito de «construção cíclica», enquanto sinfonia unificada por uma «célula primordial». Depois da dimensão trágica e avassaladora da 5.ª, a 6.ª Sinfonia, Pastoral (1808) representa o retorno à vida e uma reconciliação apolínea com a natureza. Embora o compositor visse nela «mais expressão de sentimento do que pintura», a obra foi um dos principais modelos da tendência programática ou descritiva típica do século XIX.
Por contraste com o idílio melodioso da 6.ª, a gigantesca 7.ª Sinfonia (1812) oferece o primado do ritmo na sua dimensão mais orgiástica, que levou Wagner a defini-la como «Apoteose da Dança». Já na 8.ª (1812), a mais breve das suas sinfonias, Beethoven explorou o conceito específico de «pulsação»: é usual associar essa sinfonia, uma das mais bem dispostas do compositor, ao nome de Mälzel, o inventor do metrónomo.
A 9.ª Sinfonia (1823) é a obra-súmula, o coroar dum périplo que exigiu um período de gestação de várias décadas. Congregando todos os estilos e todos os géneros, do sinfónico ao vocal, do religioso ao profano, do erudito ao popular, é a Sinfonia que abriu a porta à voz humana para exprimir uma mensagem de fraternidade universal.
Nestes cinco concertos temos a oportunidade rara de ouvir as nove sinfonias de Beethoven na excelente transcrição para piano a quatro mãos realizada por Alfredo Casella (1883-1947), um dos mais importantes compositores italianos do período entre as duas guerras: uma perspectiva diferente para apreciar uma das mais extraordinárias criações do génio humano.
Alexandre Delgado
"You think it is over, but the games have just begun. "
