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| De Psicologias da Treta |
"Para ser absolutamente honesto, arrependi-me de ter proposto este artigo no momento em que me sentei ao computador para começar a escrevê-lo. Esta é a história de um movimento chamado Honestidade Radical. Segundo o seu fundador, o psicoterapeuta americano Brad Blanton, de 66 anos, "todos seríamos mais felizes se deixássemos de mentir". Como a personagem de Jim Carrey no filme "O Mentiroso Compulsivo" deveríamos contar sempre a verdade, não apenas durante um dia mas por toda a vida. Isso implicaria abandonar mesmo aquelas mentiras mais pequenas e insignificantes, incluindo as "piedosas", as meias verdades que adoptamos para não ferir os egos daqueles com quem nos relacionamos.
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O psicólogo Rui Manuel Carreteiro admite que, do ponto de vista clínico, a teoria tem alguma razão de ser. "A saúde mental só pactua com a verdade. Muitas vezes, a mentira, o delírio ou a negação parecem o melhor caminho, mas os resultados nem sempre são positivos." Carreteiro sublinha, contudo, que a sociedade está instaurada de forma a admitir, e até encorajar, as "pequenas mentirinhas" e que, por isso, há limites e formas de expressar a nossa honestidade. "Muitas vezes, a mentira seria desnecessária se tivéssemos a coragem e o bom senso de expressar a verdade com as devidas maneiras. Entre 'Essa saia fica-te horrível' e 'Fica-te mesmo bem', há espaço para uma sinceridade que nos tornaria mais fiéis, amigos e verdadeiros."
Blanton, claro está, discorda. Se uma amiga mais rechonchuda pergunta como lhe assenta o novo vestido, devemos ser frios como o Dr. House: "Faz-te parecer mais gorda." Se temos fantasias sexuais com a cunhada, devemos não só dizê-lo a ela como confessá-lo à nossa companheira. Teorias como estas talvez expliquem o porquê de este profeta da verdade ir já no quinto casamento (com uma hospedeira sueca 26 anos mais nova que ele) e partilhar detalhes da sua vida sexual como quem fala do que comeu ao almoço: "Dormi com mais de 500 mulheres e meia dúzia de homens. Tive vários trios. Num deles, havia uma prostituta hermafrodita", admitiu à revista "Esquire". Afirmações como esta ajudarão certamente a vender muitos livros, mas imagino como seria o mundo se triunfasse a Honestidade Radical. Resistiriam os casamentos e as amizades? Sobreviveriam os nossos egos? Aumentaria o desemprego? Mudariam os políticos de profissão? "Um mundo onde só existisse honestidade seria um lugar pior e não melhor", conclui Núria Blanco, uma tradutora de 29 anos. "Podemos escolher não contar às pessoas coisas que só as vão magoar. Há coisas que elas não precisam que lhes digam."
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A verdade nua e crua é que todos mentimos, "todos os dias, a todas as horas, na alegria e na tristeza", como escreveu Mark Twain num ensaio sobre a arte de mentir. A maioria de nós não somos mentirosos compulsivos e patológicos como a personagem de Jim Carrey, mas todos soltamos aqui e ali pequenas mentiras para não ferir os sentimentos de alguém ou para fugir a uma situação que não desejamos. Afinal, a mentira e a dissimulação são tão naturais como a própria vida. Não se camuflam várias plantas e animais para conseguir alimento ou enganar os predadores? "Tal engano não se trata de um simples jogo: os animais cujos disfarces não funcionam, não sobrevivem", garante o psiquiatra Rui Coelho. Pois também o Homem, qual camaleão, usa a mentira para sobreviver em sociedade."
in Expresso
Não me considero uma mentirosa compulsiva ou manipuladora ou muito menos alguém que camufla aquilo que pensa ser a sua verdade, ou a verdade dos outros, de forma a tirar proveito próprio e, a bem da verdade, não tenho em grande consideração as fragilidades e susceptibilidades dos outros se me perguntarem algo que queiram realmente saber - ou sobre mim ou sobre a minha opinião relativamente a algo. Não sou uma pessoa que goste de agradar e o meu ego não se alimenta da "graxa" que dou a terceiros, muito embora não me considere uma pessoa que goste de chocar ou provocar, de ferir ou ser cruel para com nenhum ser humano. Sou alguém que gosta da verdade acima de tudo, e procuro evitar magoar os outros, acima de tudo, com os meus actos, porque considero que mais que tudo, são os actos que magoam, não as palavras. Já houve tempos em que consideraria esta teoria da "verdade que traz felicidade" bastante válida e aplicável. Hoje em dia, tenho as minhas dúvidas e quase certezas de que tal não seria possível, a menos que se quisesse provocar a tal guerra civil entre pares. A maioria das pessoas que conheço não aguenta a VERDADE. Como se costuma dizer, "quem não quiser saber, basta não fazer perguntas". Há quem possa dizer que a VERDADE é relativa e multifacetada. Depende do ponto de vista e do conceito de relativo. Onde está a subjectividade em dizer-se que se estava num sítio quando se estava noutro? A apreciação estética de uma mulher muito gorda numa saia de lycra? Será que é verdade que lhe fica bem? As mentiras piedosas partem sempre do ponto de vista de quem as pratica e não do seu alvo. Ou não.
"Aquilo que não sabemos não nos pode fazer mal" é uma máxima que adoptei como método de sobrevivência num mundo em que normalmente se sofre muito mais e se faz sofrer muito mais, quando na maioria das vezes, dizer a verdade pode ser apenas um exercício de crueldade.
A não ser que seja para benefício próprio ou maldade ou cobardia, não considero pecado o acto de mentir ou ocultar. Sou e já fui adepta de mentiras piedosas, a fim de proteger alguém ou não fazer sofrer desnecessariamente o outro.
Ao mesmo tempo, sei que no fim, a VERDADE acaba sempre por se saber e acontecer, e muitas vezes, os próprios autores das mentiras piedosas, a praticarem-no por altruísmo, por saberem que essa verdade seria demolidora num período doloroso, acabam sempre por serem os próprios delatores e reveladores das suas próprias mentiras. A bem da verdade.

