

Sempre que me lembro da palavra amizade, lembro-me desta noite, desta imagem, desta amiga. Por tudo o que nela encerra, por todos os ingredientes que dela fizeram parte, por tudo o que somos e podemos ter a liberdade de poder e querer ser, sempre que falamos uma com a outra. Um sentimento que é muito mais do que de confiança, ou de pertença ou até mesmo a partilha de pormenores aparentemente insignificantes das nossas existências por alguém qualificadas de "dramáticas". A nossa vida dava um filme, é certo, e já levamos uns anos disto. Não é apenas por isso que a amizade personificada é esta imagem e esta amiga em concreto. Não é apenas a tal sensação de nos podermos identificar em gostos musicais, literários ou até por termos trocado roupas e maquilhagem quando éramos umas miúdas, até porque nem isso acontece ou aconteceu e as roupas, a maquilhagem, as músicas etc não passam de breves testemunhas do que somos num determinado tempo e espaço e de meros acessórios que perfazem um plural complicadíssimo de se entender em mulheres como nós. Nem sequer temos personalidades iguais ou maneiras de estar na vida parecidas. Os nossos signos são diferentes/complementares numa dicotomia Carneiro/Balança extraordinariamente macabra e rocambolesca e já marrámos de frente muitas vezes. Esta imagem condensa momentos, para mim, menos poéticos de "a tua consciência está mais suja que a água desse balde" ou "escusas de estar com a pose de rebelde sem causa". Agora já nos podemos rir, mas ainda me lembra sempre aquele momento crucial de quando, nos desenhos animados, se abre uma brecha no chão que estala e o coiote tem uma perna em cada lado do precipício que se estende até ao fim, e os olhos muito abertos de frente para a câmara. Aquela já fui eu, e podia ter sido mesmo o fim. Acima de tudo, condensa coisas como cacifos partidos, loiça por lavar, sapatos por passar a ferro, noites míticas em Coimbra, Buraco Negro, ouvir Shakira para não desabar a alma, telefonemas intermináveis e conversas a perder o rumo. Nunca encontrámos a chave da verdade e não sabemos o sentido da vida, talvez por isso os telefonemas sejam ainda tão longos.
Sempre que me lembro da palavra amizade lembro-me automaticamente do seu nome, do seu mau feitio a descasar com o meu e dos anos fantásticos que temos vivido. Acho que chorámos mais do que rimos, a bem dizer da verdade, e tantas foram as vezes que a quis proteger dos filhos da puta que lhe fazem mal como juro que foram ainda mais as que ela quis furar os olhos dos que me fizeram sofrer. A isto se chama Irmandade e não é a dos anéis. Só se for a dos anéis de curso. Sim, que isto de se ser moça brejeira e popular não tem nada a ver com ser-se fã de Moonspell. E foi a única pessoa que nunca perdi de vista no concerto do L.Cohen. A única que não faria perguntas desnecessárias ao ver-me chorar, porque é a única capaz de não me fazer sentir constrangida. "If It Be Your Will"...
Mais do que tudo isto e tudo o que posso colocar a mão no fogo pelo que somos, melhor define aquilo que sinto por ela é o sentimento de poder chamar-lhe Casa, Família e tudo o que nos faz sentir bem e confortáveis. Não há conversas calculadas nem sequer a curiosidade é assim tão grande ao fim de tantos anos, pelo que nos vamos surpreendendo com os tesouros que alguns trazem guardados para nós e limitamo-nos a sorrir na segurança de poder sentir que haverá sempre alguém que olha por nós, ainda que esteja longe.
Na Grey's Anatomy existe uma amizade assim. A Grey e a Yang. Elas dizem uma da outra "she's my person". Por mais que eu critique aquela série, tenho uma relação amor-ódio porque vejo estas coisas e aquilo até sou eu. Nós. Amizade. Ela é "a minha pessoa".
A amizade desta mulher resgatou-me muitas mais vezes do que ela própria calcula e estas palavras não são nada perante tudo aquilo que ela me vai ensinando ao longo do tempo. O seu coração não tem medida e a sua coragem e força são incalculáveis. E é por pessoas assim que tenho o maior orgulho em poder dizer no dia de hoje, que se sou o que sou, é também graças a elas, porque ninguém se faz sozinho, ainda que todos tenhamos a doce ilusão de que nascemos e morremos sós.
Hoje, e porque é Dia das Amigas (já sei, é lamechas e foleiro), a minha homenagem a ela. My person.
