::diário de bordo, manual de sobrevivência, feito de teorias da conspiração, ideias parvas, conceitos, preconceitos, provocações, alucinações, livro de "receitas" pseudo-afrodisíacas, ora picantes ora agridoces, de alguém que vive num país assim a dar para o esquisito, a que alguém chamou um dia Portugal::


domingo, 16 de setembro de 2007

A beta alternativa (isto é quase um cliché)





Imagino a cara de felicidade e o sorriso rasgado no rosto de alguns de vós, na senda da recordação de uma qualquer beta alternativa que tenha passado pelas vossas vidas. Mas adiante.



Afinal, o que é uma beta alternativa? Uma beta alternativa, tal como o nome indica, é uma tipa (a rondar os trinta/trinta e sete anos) vestida à "beta", com graves problemas de auto-afirmação, que tenta à força pertencer a um grupo que não é o seu, ou seja, o grupo dos alternativos, aqueles que gostam de cinema, música, literatura e tudo o que tenha a ver com qualquer expressão de arte alternativa. Ou já agora, de arte. Está na moda ser-se alternativo, e está na moda gostar-se de arte pela arte. Um Rembrandt ou um Pollock? Não interessa, coloca-se o Pollock na cozinha para dar com os azulejos e o Rembrandt na sala porque "diz que é mais caro e tal".


Há dois tipos distintos de beta alternativa: a pobrezinha dos subúrbios e a ricaça de boas famílias, tanto de grandes como de pequenas urbes.


Normalmente a beta alternativa ricaça tem dinheiro, bastante dinheiro, veste-se a rigor na Loja das Meias, compra tudo o que apanha na Fnac, gosta de encher a boca para dizer "o quê? lá porque me visto bem, não posso ouvir o que eles ouvem??" e é loira e gira e sente que tem de provar ao mundo que não é estúpida. Efectivamente, é um poço sentimental sem fundo no que concerne a auto-estima, embora seja bonita. Não se dá muito valor e na gaveta escondida lá do seu quartinho tem a colecção inteira da Christina Aguilera, com a qual chora noites inteiras ao som de "I am beautiful no matter what they say..." (perguntam vocês: ah e tal, ó Psicóloga da Treta, tu conheces essa da Aguilera!! (Pois, é que tenho muitos amigos gays).

A beta alternativa pobrezinha dos subúrbios é ainda mais patética do que a anterior, porque efectivamente acaba por nem ser uma BETA a sério (compra as roupas tipo beto na feira de Carcavelos), e tal como a outra, quer também à força entrar num grupo com o qual não se identifica minimamente, mas como é tão estúpida e tem problemas de relacionamento, e já agora, não tem dinheiro, acaba por nem ser aceite pelos betos (mestres na arte de identificar bainhas e botões das verdadeiras marcas e griffes), nem pelos alternativos (mestres na arte de identificar uma fajuta destas, que desbobina a carreira do Ian Curtis e a seguir pergunta quem são os Joy Division). Ainda assim, é de se louvar o esforço patente nestes dois tipos que lutam contra a maré da tal sociedade a que querem ascender e pertencer, embarcando num conceito que tem de tudo, menos de alternativo: que é seguir-se uma moda em voga, que é ser-se alternativo. Nunca ser-se alternativo foi tão pouco uma alternativa como agora. Caso para dizer que já não existe nada de alternativo. Desculpem a redundância.




Eu já sei que isto vai ser lido/olhado de lado pela Liga Protectora do Quem És Tu Para Julgar pelas Aparências, but I don't give a shit again. Toda a gente julga pelas aparências, e é nas aparências que tudo começa. Haja coerência de estilos. Já agora, não em demasia, porque isto de se ser alternativo tem também o reverso da medalha: existe um outro género ainda mais irritante do que a beta alternativa, que é a forinha alternativa, variante também no masculino (daí ser ainda mais irritante, porque são mais), mas sobre esses falarei numa outra oportunidade. Boa noite.

What can I possibly say?...

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