Post recuperado do antigo Psicologias da Treta. Recordar que foi o mais comentado de sempre. Porque recordar certas coisas, é preciso. Há opiniões que nunca passam de moda, talvez por uma questão de coerência... ou talvez já esteja a entrar naquela fase de vida em que raras serão as vezes que mudarei de opinião.
::imagens de sergio mora::
As queixas fazem-se ouvir um pouco por todo o lado, em conversas de café, em almoços e jantares, em desabafos às horas mais tardias da noite, todas embargadas por uma certa solidão que não podemos continuar a mascarar, como se mulheres novaiorquinas retiradas de séries como o Sexo e a Cidade nos tratássemos ou fôssemos.
Encaremos o facto: não somos.
Os homens, esses, continuam cada vez mais perdidos.
Uma lady na mesa, uma puta na cama...
Aqui há anos seria fácil para um homem perceber o que era uma lady e o que era uma puta, mas acontece que os tempos voaram até ao dia em que para um homem não será assim tão difícil ter sexo com uma mulher inteligente e boa rapariga (uma lady) e não se sinta obrigado a casar com ela.
Ou seja, tanto melhor... pode até ter muito sexo com muitas raparigas inteligentes e pode até ter o privilégio de escolher.
À mulher foi concedido (também) o privilégio de alguma leviandade sexual, o tal que era já apanágio do sexo forte, o tal vindo de Marte. O facto é que também as mulheres se tornaram predadoras com o tempo novo que veio pousar em terras lusitanas. A factura a pagar agora é a mesma leviandade sentimental e maquiavélica dos homens (dantes, característica da dita e suposta superioridade feminina), pois o tal homem perdido de amores por uma mulher a cantar-lhe a serenata de amor à janela é uma espécie em vias de extinção. O tal homem quetudo faria pela atenção da mulher amada... porque desapareceram. As predadoras fizeram homens assim sentir-se ridículos e o romance deu lugar a um vazio sem precedentes. Um fosso sentimental.
Ou seja: inverteram-se os papéis. As mulheres podem ter o sexo que quiserem com quem quiserem (dizem elas, orgulhosas dos seus novos direitos), e os homens são mais livres de escolher a mulher que querem amar (como se tivessem tempo para uma, quanto mais, para mais de três ao mesmo tempo).
Confundem-se as prioridades, as personalidades e não se chega a conhecer uma quinta parte de um alguém que provavelmente até se daria ao trabalho...
Porque dá, efectivamente, trabalho.
Conhecer alguém até que nos apaixonemos por essa pessoa é uma tarefa árdua que pressupõe imaginação, vontade, entrega e tempo.
O sexo é fácil. E rápido.
Seremos assim, mais felizes? Duvido porque todos os dias se fazem ouvir as tais queixas, tanto no feminino como no masculino. No meio de jogos de bastidores entre duas pessoas não resta quase nenhuma margem à magia, ao encanto, à confiança, à partilha.
Quase nunca se consegue confiar em alguém, saber o que aquela pessoa pretende de nós, seja homem ou mulher, se vai saber segurar a nossa dor, se vai saber partilhar um sorriso, um segredo, uma chamada de atenção, a verdadeira intimidade entre duas pessoas, à partida condenada pelo sexo, sempre um pretexto tão grande para a desmotivação quando finalmente encontrado. E esmagado o desejo, parte-se para outra.
Pasmem-se. Não é de sexo que se trata. Nunca foi. É quando finalmente sabemos que o que nos atrai em alguém é aquelo elo indecifrável e invisível que nos pode tornar mais fáceis no momento da entrega sexual e ao mesmo tempo, inacessíveis na entrega do nosso somatório de vida e de experiência. A compatibilidade, que vai muito mais além do que o cheiro, o toque e o beijo. Acaba por ser secundário, acaba por ser trivial. Igual. Banal.
Foder, qualquer um sabe...
Homens e mulheres estão em lados opostos do tabuleiro. Sempre estiveram e sempre hão-de estar. Mas nem todos sabem acordar as regras do jogo. Porque em tudo, há regras... até para que se saiba que as podemos alterar. Ou quebrar.
