Esta pode ser uma expressão afirmativa com os seus quês e quejandos interrogativos, uma interjeição algo dúbia que nos coloca a seguinte questão: afinal o que é isso de se ser fodido? Sem sombra de dúvida, é um dos comentários mais curtos e mais certeiros que recebi nos últimos tempos, que me colocou um sorriso nos lábios, em grande parte por ser uma algarvia muito isolada e por isso habituada a não ter conterrâneos por perto na hora de "defender a sua terra". Por outro lado, por lembrar velhas e recentes discussões acerca desta temática. O bairrismo. Ou como quem diz "o meu pai é maior que o teu". A meu ver, são estúpidas e desnecessárias, mas isso sou eu que de bairrista pouco tenho.
O contexto do dito comentário: deixar certas coisas para trás, o amor ou o que nos prometeram ou o que nos fizeram crer ou o que nos roubaram sem pedir licença, sem retaliar pode deixar aquela sensação de que ficou muito por dizer, mas a dada altura pensa-se que foi melhor assim, não fica a névoa do que seria esperado. a isso podes sempre chamar a capacidade de contornar a situação. lembra-te da frase sobre a carne e os ossos. que os comam e que os roam. isso já não te dirá respeito.
A propósito de uma carta sobre o costumeiro assunto do mal de amor ou dor de corno. Mas poderia ser a respeito de muitas outras coisas que isto de se ser “pessoal ou malta do Algarve” tem mais que se lhe diga. Não somos como os outros, dado que os outros não serão todos iguais, mas de entre uns e outros, distinguem-se os “do Norte” e os alentejanos. Os primeiros, têm a mania que são melhores que todos os outros (principalmente em relação aos de Lisboa, alfacinhas na gíria) e os alentejanos são aqueles que estão habituados a ser vistos como os mandriões cá do sítio.
Sinceramente, um algarvio, a sê-lo convictamente, acredita que não tem de se chatear a defender a sua terra, porque está provado por inúmeras razões que esta, é uma das regiões mais belas do mundo. O Algarve é uma região de inúmeras tradições, lendas, onde se come e bebe bem, para além de ter um clima privilegiado pela condição geográfica junto ao mar Mediterrâneo, onde sofre os ventos vindos do Norte de África. Não é só praia, mas não serve o post para descrever as maravilhas do Algarve. A grande questão que se coloca é se afinal, nós, nesse colectivo sempre tão subjectivo, seremos assim tão fodidos?
Penso que quanto a males de amor, assimilamos tão bem ou melhor que os outros as vicissitudes do sofrimento romântico, até porque há sempre muito que fazer: ir à apanha do tomate ou da laranja, do figo ou da alfarroba, da amêndoa ou simplesmente dedicar-se à pesca. Se curar a dor de corno não passa por trabalhar arduamente nestas culturas, pode-se sempre apanhar uma bebedeira de aguardente de figo ou de medronho (amêndoa amarga é pra malta fraquinha que é do Norte e pensa que cá em baixo só fazemos amarguinha), ou simplesmente deleitar-se numa praia daquelas que só nós, algarvios, conhecemos os atalhos, e apanhar sol até torrar a dor e o sofrimento. Isto, quando se quer esquecer e passar à frente, que há mais marés que marinheiros.
Se se resolver dar asas a pensamentos tenebrosos com requintes de malvadez, é escolher uma paisagem ali para os lados da serra de Monchique e ficar a bater mal durante uns tempos, ao som de Micah P. Wilson ;) e aí sim, talvez um ou outro algarvio possa então ter razões que o levem a afirmar que o pessoal do algarve é pessoal fodido. É que depois disso, é um caminho sem retorno e, muitas vezes, um algarvio quando resolve desaparecer da vida de alguém, é para sempre.
P.S.: este post é dedicado ao mê amigo Jorge que é ali dos lados da terra do bom medronho, e ao mê amigo da merda que acha que a batata doce é dos melhores produtos que o Algarve vê crescer ali para os lados de Aljezur.
