Dois temas chamaram a minha atenção na semana passada: uma ministra e um cozinheiro.
Todos vimos, de novo, mais de 100 mil professores na rua. Não é preciso dizer nada, bastaria ver a manifestação para se concluir que é urgente tomar medidas. Não é possível continuar na mesma: mesmo que os professores não tenham razão, algo necessita ser feito. Nenhum comentário crítico aos docentes resiste à demonstração de que o descontentamento atingiu grandes proporções: o conjunto dos professores andará por 140 mil, nada se fará nas escolas com tão grande oposição às políticas do Ministério da Educação (ME).
Escrevo no domingo 9, logo a seguir à manifestação. Confesso-me perplexo perante os comentários da ministra. Só os entendo como revelação pública de que não sabe o que se passa nas escolas, algo muito grave para o cargo que ocupa. Basta falar com professores em qualquer estabelecimento de ensino para sentir de imediato o mal-estar docente: quem ignora esse facto distorce a realidade. A avaliação não só introduz burocracia (não é verdade que se limita só a um formulário, este é apenas a primeira fase do processo), como também fomenta problemas interpessoais entre professores. Bastaria a injustiça do concurso para titulares (organizado a partir de uma avaliação que não teve em conta toda a carreira) para a pôr em causa, mas há mais: como há departamentos que englobam várias disciplinas, temos professores de Educação Musical, por exemplo, a avaliar colegas de Educação Física! A questão é: quem avalia quem. E, acima de tudo, há que dizer bem alto que a avaliação, embora necessária, nunca deveria ter sido uma prioridade: foi um erro tê-la tornado urgente, em vez de conquistar os professores para a mudança, dando-lhes melhores condições de trabalho para todas as dificuldades que enfrentam na sala de aula.
Outros comentários do ME são ainda mais surpreendentes: desde a frase que as manifestações são feitas para "intimidar" os colegas que apoiam o ME (não se vê onde estão...), até ao discurso paternalista sobre os estudantes, que "precisariam" de uma manifestação por ano, como se os nossos jovens não tivessem cabeça para pensar!
Em 16 de Março escrevi aqui, sob o título "E agora?": "... o impasse a que se chegou merece medidas concretas... como em qualquer conflito grave, é necessária uma mediação... se tudo continuar como até aqui, o clima escolar sofrerá progressiva deterioração..." Meses depois, é o que se vê. Esperemos que, quando me lerem agora, algo tenha mudado.
Saí da angústia da educação para me encantar com o jovem cozinheiro Jamie Oliver, o britânico "Ministro da Comida". Ao contrário da nossa ministra, que só fala com os conselhos executivos (CE) e com os sindicatos, Oliver fala com todos: pais, alunos, professores, fornecedores de alimentos. Vai com os estudantes comprar os ingredientes e ensina-os a cozinhar, demonstrando como comer bem pode dar prazer e não engordar. Tem lá a televisão e publica livros, pois claro: já todos perceberam que é através do learning by doing que se obtêm resultados. Oliver compreendeu que muitos ingleses não sabem cozinhar, ou intuiu que o individualismo e a pressa dos nossos dias conduzem à comida rápida e à falta de convívio outrora possível na preparação e na ingestão de uma refeição partilhada. Ao contrário do que muitos pensam, Oliver sustenta que a obesidade não está só ligada à pobreza, mas também se relaciona com o estilo de vida e com a falta de conhecimentos sobre os alimentos e a maneira de os utilizar: por isso e de uma forma prática, foi direito ao assunto, sem perder tempo com grelhas de avaliação.
Como eu gostaria que a nossa ministra, sem um séquito de assessores e com tempo, parasse nas escolas a ouvir os professores: escutaria então os protestos ordeiros de tantos "bons" professores que diz defender e ouviria também como o famigerado Estatuto do Aluno até impede que estudantes doentes possam fazer uma psicoterapia prolongada (essencial para o seu sucesso escolar!), porque a simples justificação da falta por parte do técnico de Saúde Mental esbarra com a burocracia do ME: e não nos salvam os CE, que dizem nada poder fazer, porque o ME não distingue faltas justificadas das injustificadas!
Ao que chegámos, nas nossas escolas.
Daniel Sampaio, in Pública
