
Independentemente de gostar ou não dos The Gift (que não gosto), este projecto "Amália Hoje" suscita profunda desconfiança da minha parte, logo à partida, porque para mim, tal como para a grande maioria dos portugueses, Amália não é de ontem, hoje ou de amanhã. Amália é de Sempre.
Gosto do chamado "Fado Novo" e do "Novo Fado", em que surgem nomes como Deolinda ou Camané. Gosto do fado vadio de Lisboa e do fado cantado nas ruas de Coimbra. Gosto mais do fado cantado pela voz masculina do que feminina e, para mim, mulher que canta fado, o nosso fado, é a grande Amália. Gosto de fadistas como a Mariza, a Cristina Branco, gosto. Gosto imenso da Dulce Pontes e daquele álbum que fez com o Ennio. Gosto da sua versão do Povo Que Lavas no Rio. Gosto da vertente nova e da roupagem que dão ao fado sob uma vertente pop ou electrónica, não me choca nada a adaptação. Pode existir em tudo isto alma, pode em tudo isto haver autenticidade. O que se segue não é nenhuma contrariedade de alma com aquilo que é a reinvenção do fado. Gosto de reinvenções. Gosto de covers, quando eles de facto acrescentam algo de novo. Ao menos, quando são genuínos.
Do que eu não gosto é que me atirem areia para os olhos, e à sombra de um nome tão grande como o da Amália, façam discos deste género, que mais não servem do que promover as próprias bandas, neste caso declaradamente dos Gift. Falo pois, do novo álbum do Projecto Hoje, "Amália Hoje". Não gosto mesmo nada, para além de não gostar nada daquele som, daquela interpretação tão desprovida de alma, tão sem nada de novo, tudo tão forçado. Não acrescenta nada ao que já existia. Não reinventa nada, não traz uma nova pulsação, são apenas covers de temas cantados pela vocalista dos The Gift. Ouvir aquilo é como ouvir os The Gift: the same old. A questão não é se conseguiram reinventar o fado de Amália transformando-o em música pop, a questão é que os The Gift não se conseguem reinventar a eles próprios, nem com as letras que Amália cantava, nem com arranjos musicais à la Arcade Fire.
Não gosto de criticar tão acerrimamente um "projecto" (tudo em Portugal é projecto, ex-projecto, projecto do ex-projecto, futuro projecto a partir de um projecto passado), e gosto ainda menos de falar sobre música - porque gosto muito de música e de muitos géneros e muitas bandas - mas detesto sobranceria e a soberba de quem se insurge como iluminado ou acha que fez algo de muito diferente do que lhe é já tão habitual. Obviamente haverá quem goste. Eu não gostei.
É apenas mais do mesmo. É pena.
Em paralelo e porque nem tudo é um pseudo-projecto, porque mais difícil é reinventar-se pop a partir de pop, gostei bastante do "projecto Humanos" (mais um, mas este é dos bons) a partir de temas do António Variações. Manuela Azevedo, Camané e David Fonseca como nunca ninguém os vira antes em temas do nosso Variações. Bem hajam!
A imagem da Amália foi "reinventada" por mim.
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