Há blogs que me exasperam por diversos motivos. Aqueles blogs a armar ao pingarelho cheio de palavras muito bonitas que foram retirar de livros e discos que têm lá por casa. Plágios. Assim é fácil ter um Blog. Como se de repente não fôssemos nós todos pessoas crescidas com mais livros e discos em casa. Genuínos, são poucos. Eu posso não escrever nada, nadinha de jeito, mas não faço cópias e assino por baixo o meu nome. Acho indecente. Enfim. Isto sou só eu e os meus maus fígados. Ando a perder a paciência para esta merda toda, hoje é um daqueles dias... exasperantes. Não se lê quase nada de novo. Não há nada de novo, os academismos efernizantes e a puta-que-pariu-o-Ingmar-Bergman-e-artistas-de-década-de-trinta cujos seguidores são os pseudos forinhas (ai que nojo que eu lhes tenho) fizeram com que tudo isto comece a atrofiar. A secar. Os donos da razão intelectualizante. Só apetece beber aguardente por uma palhinha. Mas siga. Siga siga....
Existem os outros. Aqueles que vale a pena ler. Reter. Na alma, no coração. Aqueles que nos prendem com as palavras, com as imagens. Existem os subentendidos que aprendemos a seguir pois deixámo-nos de ler para começar uma amizade ou simplesmente deixá-la a marinar em palavras. Em imagens. O que eu gosto de ler as entrelinhas da minha querida Sofia, aquele sarcasmo inspirado como só ela... as palavras infinitas e a racionalização dos conceitos em espiral do meu querido Nuno... ou a doçura da minha Ana... a dor sentida e por vezes mascarada de alegria e de tudo o que sei que é a alma da minha querida Sara... e sempre o meu amado Paulo que tem as fotografias mais puras e lindas de toda a blogosfera... sei lá. São poucos. Isto não é uma homenagem nem nada do género mas são estes poucos que me fazem voltar sempre a este Blogger. A este espaço. E todos aqueles que leio e não comento. Como este.
Sem palavras.
Existem os outros. Aqueles que vale a pena ler. Reter. Na alma, no coração. Aqueles que nos prendem com as palavras, com as imagens. Existem os subentendidos que aprendemos a seguir pois deixámo-nos de ler para começar uma amizade ou simplesmente deixá-la a marinar em palavras. Em imagens. O que eu gosto de ler as entrelinhas da minha querida Sofia, aquele sarcasmo inspirado como só ela... as palavras infinitas e a racionalização dos conceitos em espiral do meu querido Nuno... ou a doçura da minha Ana... a dor sentida e por vezes mascarada de alegria e de tudo o que sei que é a alma da minha querida Sara... e sempre o meu amado Paulo que tem as fotografias mais puras e lindas de toda a blogosfera... sei lá. São poucos. Isto não é uma homenagem nem nada do género mas são estes poucos que me fazem voltar sempre a este Blogger. A este espaço. E todos aqueles que leio e não comento. Como este.
Sem palavras.
Lembro-me de naquele tempo não haver sequer vento, de não se agitar uma árvore lá fora e de haver um terraço apenas com roupa estendida e o cheiro do sabão espalhado nos tecidos. Lembro-me apenas de coisas mínimas. Do cheiro das laranjas que apodreciam no chão irisadas na luz que se entornava então sobre a terra. Lembro-me de naquele tempo sentir que cada palavra era uma distância. De sentir as coisas espalhadas no chão do meu quarto e de sofrer por só lentamente me poder aperceber de que tudo estava radicalmente só e dividido. Lembro-me, aliás, de naquele tempo ter dividido pela primeira vez as coisas do mundo: o chão e os frutos, as árvores e o céu, as ondas e o mar. Lembro-me de ter visto pela primeira vez o mundo representado nas asas de uma borboleta: cada asa é uma pessoa, murmurei, e cada borboleta é o pequeno prodígio de haver um mundo. Pensei que as asas de cada borboleta poderiam ser duas pessoas que ora se encontravam ora se perdiam para uma distância que na tensão da presença jamais poderia ser infinita. Pensei que o equílibrio de haver borboletas era justamente este ofício do encontro: no meio da borboleta estava o labirinto de haver um possível, de haver um animal sozinho na viagem das pessoas que o construíam para a sua morte. Não havia vento naquele tempo: as borboletas repousavam sem perturbações nos círculos de água da minha face. Lembro: cada asa tem o seu duplo como cada lábio tem o seu par, disse. Pela areia do sono descia ao fundo do meu coração e lembro-me, recordo-me muito bem de no interior do meu quarto ter construído uma margem de silêncio onde mais tarde entrancei o teu cabelo e casei o movimento dos teus pés descalços na areia das praias. De tudo isto fiz borboletas. Das ondas e do mar, do teu cabelo, dos teus olhos nos meus. Do teu corpo em ti própria. Cada borboleta regressa a si mesma como uma flor ao nascer da luz: fixando o sol, das asas nasce o animal e do animal nascem as casas, as palavras e o amor. Depois a borboleta faz uma escada para trás, para o seu deserto, para o fim do poema, para o fim de todos os poemas. Eu apago os passos: cada borboleta apaga então o que deixou pela areia: uma escama de luz, um pedaço de asa. E se chegou ao céu por voar, regressará a casa porque consegue pisar por amor o coração sem asas nem animal que lhe resta. Naquele tempo era tudo como me lembro hoje: a casa lá fora estava deitada sobre a luz, cá dentro não se agitavam as árvores e as palavras beijavam-se entre o silêncio. As coisas continuavam espalhadas pelo chão do meu quarto. E eu? Recomeçava, eu.
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