
Há em Elizabeh um sonambulismo, uma atitude de quem observa a vida mais do que participa nela. Por isso, apesar de percorrer a América, são mais os outros que passam por ela. E os outros são personagens americanas - Arnie (David Strathairn), destruído pelo desgosto depois da mulher o ter deixado; Sue Lynne (Rachel Weisz), a mulher que o deixou, fatal (como era fatal a mulher de cabeleira loura de "Chungking Express"), a entrar no bar onde Elizabeth trabalha, para uma última, derradeira, discussão com Arnie, o polícia (como eram polícias duas das personagens de "Chungking..."); Leslie (Natalie Portman), viciada em poker, a viver no risco (como a tal mulher de cabeleira loura vivia no risco). Wong Kar-wai, portanto, mas na América. E na América o realizador de Hong Kong sai dos espaços fechados, dos corredores, galerias, labirintos de casas, lojas, restaurantes, calor, corpos que se cruzam, que se empurram, que esbarram, que passam como traços de luz, que se fecham em quartos minúsculos, e lança-se nos grandes espaços abertos, estradas, paisagens imensas - para, assim que pode, refugiar-se novamente no interior de um bar e na angústia de alguém que não consegue mover-se ou que não consegue parar. Está lá, como em todos os seus filmes, o tempo que passa, para Elizabeth - como um prazo que tem que expirar, como as latas de ananás em conserva que o polícia come em "Chungking Express" - e o tempo parado, para Jeremy (Jude Law), que espera pelo regresso dela, enquanto revê a velha cassete de uma câmara de vigilância. Está lá o momento perdido, as pessoas certas no momento errado, o que podia ter sido, o que fica adiado...
Excerto da crítica de Alexandra Prado Coelho, no "Público", "roubado" no Intruso.
