::diário de bordo, manual de sobrevivência, feito de teorias da conspiração, ideias parvas, conceitos, preconceitos, provocações, alucinações, livro de "receitas" pseudo-afrodisíacas, ora picantes ora agridoces, de alguém que vive num país assim a dar para o esquisito, a que alguém chamou um dia Portugal::


sábado, 26 de julho de 2008

Portugal e o Euro 2008

Não escrevi nada antes sobre o Euro ou a minha entusiasta paixão pelo futebol nos relvados europeus, não porque compartilhe da visão desmesuradamente negativa e derrotista dos habituais "velhos do restelo" para estas ocasiões, mas também porque no fundo não dou grande importância a estas questões. O meu coração não vibra descompassadamente ao ritmo das fintas brilhantes dos nossos craques, mas não posso dizer que tenha perdido um único jogo, porque reconheço a importância DESTE jogo.

Sou portuguesa, gosto de beber uns copos, o meu país tem sol em Junho até às nove da noite e por acréscimo, vem um Europeu de futebol conseguir juntar amigos e desconhecidos em mesas redondas, quadradas e até mesmo sem mesa se está em grupo. O futebol, acaba por ser, no fundo, um bom pretexto para se rir, brincar, conversar e beber.

Por outro lado, não falei da prestação portuguesa neste Europeu, pois como de costume, e tendo vivido já algumas competições, não guardo grandes expectativas, mas acredito sempre que é possível chegar à final. Ou não. Muito se leu e ouviu durante o mês de Junho sobre esta temática e de todos os confrontos de opiniões mais ou menos fervorosas, emocionais ou racionais, esta (de Clara Ferreira Alves, no jornal Expresso e que passarei a transcrever) foi a que me despertou a atenção pois é onde mais me revejo. A acreditar que o Desporto e os ideais de um país que tenta chegar a um objectivo máximo (o qual é trazer a taça para casa) podem estar ligados, a equipa espanhola esteve sempre muito bem. Nós? Jogámos bem, mas estivémos pior. Não há pachorra nem cu que aguente os vedetismos de alguns jogadores, dos seus penteados e roupas fantásticos, os carros e as namoradas, o que comem e onde ... Já para não dizer que se o futebol é um jogo de homens, em Portugal estamos a assistir à ridicularização do sexo masculino. Havendo quem lhe chame metrossexualidade, eu chamo-lhe mariquice. Entre a preocupação de parecer bem, o culto do individualismo e do champô de marca e a camisa cor-de-rosa a dar com o "téne" prateado, entre a publicidade pindérica até à vida familiar de cada um dos "craques", o grande ideal desportista e dever patriótico ficaram para trás. O bem colectivo como meio para se chegar ao único final que seria trazer a tal taça para casa foi substituído pelo freakshow e pela feira de vaidades de cada uma das "marias-amélias" tugas.

Espero que o Mundial de 2010 traga mais homens com sentido de dever, menos contratos publicitários e menos dinheiro, mais camaradagem e menos sede de protagonismo.

Fica a crónica, a meu ver, excelente, da Clara Ferreira Alves. E já agora, o cartoon, de António.








NÃO ME LEMBRO de ver nada assim. A recepção à selecção de Espanha foi a maior festa do país desde a democracia. Milhares e milhares de espanhóis embrulhados em bandeiras e símbolos nacionais, camisetas e gorros, pintalgados com as cores amarela e vermelha, esperaram na Praça Colón de Madrid o autocarro descoberto com os jogadores e o seleccionador. Existe uma Espanha, deixaram de existir várias Espanhas, ao menos por uma semana. E o que o escritor espanhol Javier Marías tinha chamado "um bando de mediocridades" tornou-se um grupo de heróis nacionais, como ele mesmo conta no "El País". Eu vi o jogo num "pub" de Madrid, cheio de ingleses, escoceses, espanhóis, brasileiros e um pequeno grupo de "chicas alemanas" que fumavam cigarros tensos e desesperados com o andamento do jogo. Empoleirada na multidão suada, rodeada de ecrãs gigantes e adrenalina, fui observando como a paixão do futebol e do trabalho bem feito consegue empolgar toda a gente.

No final, todos éramos espanhóis, especialmente os ingleses do lado. No dia seguinte, ouvi a conversa entre os empregados de um restaurante. Primeiro empregado: "E nós que éramos pelos portugueses e acabamos a ganhar o Euro, que bem que isto sabe." Segundo empregado: "Estes rapazes são muito jovens. muito amigos, muito unidos. Os portugueses não tinham bem uma Selecção, muitos contratos, muito dinheiro, muitas vedetas.

Comentadores de bancada cheios de razão. O pior de Portugal nestes campeonatos foi contentar-se com pouco e usar o futebol e as pequenas vitórias para as piores exibições de marialvismo e bacoca exaltação patriótica.

Portugal precisa de uma vitória, e não é de uma pequena vitória. Não precisa do culto da personalidade a que temos assistido. Os "posters" de Ronaldo, as pancartas de Ronaldo, os anúncios de Ronaldo, as revistas detalhando a vida íntima da Ronaldo e das amigas de Ronaldo, a família de Ronaldo, os milhões de Ronaldo. Vencidos à procura de um vencedor. A política, como o futebol, precisa de vitórias e de mobilização, e nada nos últimos tempos parece estar em condições de tirar Portugal da mais funda depressão, nem o Ronaldo e os seus milhões, nem o futebol e a Selecção, nem as prédicas de Sócrates e Ferreira Leite. Muito menos os avisos banais do Presidente da Republica.

Os espanhóis não são muito diferentes dos portugueses, nem de outros povos, no que toca a derrotas e vitórias. A crença na vitória em Espanha, pelo menos no futebol, adoptou um slogan roubado a Obama, "Juntos Podemos". Este "Juntos Podemos" serviu de mantra e de oração, serviu de mote e de poema, e foi repetido como um acto de fé até se tornar uma realidade. Quem ouviu como eu os comentários da população e das televisões, ouvia estas palavras repetidas como se não houvesse outro caminho a não ser este. O colectivo. Em Espanha, país de um individualismo extremo, é um fenómeno novo. Um cínico diria que tudo isto é um disparate, mas estes disparates têm um efeito poderoso nos comportamentos colectivos. Portugal não tem, em nenhuma das suas frentes mobilizadores do orgulho nacional ou da satisfação do trabalho bem feito, um única acção ou frase que o mobilize. Somos um povo quebrado por anos de sacrifícios inúteis. De privações, de malícias e péssimas governações. E quebrado pelo provincianismo que faz com que saudemos como providencial o que é medíocre e como genial o que vem do estrangeiro.

O presidente da TAP dizia há pouco tempo que está cansado e que será muito difícil recuperar a TAP outra vez. Grande frase de derrota. A frase aplica-se a Portugal, estamos cansados. Cansados de dificuldades. Em vez de trabalho colectivo, veneramos o sucesso individual e o dinheiro dos outros. Assim, não vamos lá. Juntos, não pudemos. Num tempo de medo e recessão, de dúvida e lassidão, o país pensa em que vai substituir Scolari, o homem providencial. Não pensa no que o país é capaz de fazer sem Scolaris, sem Mourinhos, sem Ronaldos. Muitos contratos, muito dinheiro, pouco trabalho. Bem dizem os espanhóis, que vivem muito melhor do que nós.

Clara Ferreira Alves in Revista Única (Expresso) de 5 de Julho de 2008

terça-feira, 22 de julho de 2008

Thank You, Mr C!

Devo referir, antes de mais, que estive no concerto. As considerações e palavras bonitas ficam sempre muito aquém de tudo o que poderei ter sentido num espectáculo único e sem par, o qual esperei toda a minha vida, sem nunca, no entanto, ter realmente esperado, pois era algo que estava perfeitamente fora de cogitação. Portanto, desta vez, não haverão palavras: as minhas palavras traduziram-se em lágrimas e as lágrimas em risos. Perdurarão na minha memória, tal como as imagens e os acontecimentos dessa noite.
Desde já, agradeço também ao manager do Sr.Cohen o desfalque de mais de seis milhões de dólares, o que obrigou o Senhor a vir à rua cantar para todos aqueles que puderam e quiseram ver o Homem cantar. Sem ele, nada disto teria sido possível.
No entanto, não posso deixar de publicar aqui dois registos que me tocaram profundamente: o artigo de João Bonifácio, no jornal Público, e o artigo de Mário Rui Vieira, do Blitz. O primeiro, de João Bonifácio, suscita-me um ambivalente sentimento de profunda pena a par com a revolta própria de quem não gosta de ver assim os "seus" declamados ignobilmente em praça pública. Pena porque isto é um artigo de opinião (num jornal que supostamente usa de idoneidade, não é propriamente o 24 horas) de quem se percebe que até gosta de Cohen, e até tenta imitar o elegante sarcasmo do poeta, mas o jornalista não chega lá. É fracote, isto. É pouco inteligente, pouco charmoso e pouco sagaz. Nível zero em elegância de escrita. Fica aquém do pretendido. Com estas pretensões literárias, escreva um livro! Ou um Blog! Diz que são baratos e podem ser escritos em qualquer língua estrangeira: se arranjar muitas admiradoras quarentonas alemãs que façam férias no Algarve, pode até ser que nasça um novo Zezé Camarinha, com tanta sabedoria de martini na mão.
Depois, claro, é um artigo irritantezinho, como são todas as coisas irritantezinhas à tuga-poucochinho-que-não-tem-mais-que-fazer-armado-ao-cagalhão-armado-em-chico-esperto: critica aspectos num concerto que não é passível de ser criticado e pior, dá-se ares de grande conhecedor e senhor da razão e acaba em tudo por ser incoerente. O maior triste que não entende que não é mais do que ninguém nem entende melhor Cohen do que o público que lá estava, de uma forma arrogante que me merece algum desprezo. Ao contrário do jornalista Bonifácio e de muitos intelectualóides que julgam entender sempre tudo melhor que os outros, fiquei feliz por ver muita malta nova que dá os tais 35 euros que numa carteira teenager faz sempre falta. Em poucas palavras? É uma tremenda falta de respeito. Numa palavra: patético. Salve-se a pena, Bonifácio, por si, pobre coitado, pois entendo a sua intenção nobre de querer fazer floreados bonitos e irónicos ao jeito de Cohen, e realmente entendo, entendo mesmo (também eu gostava de ter ouvido a Famous Blue Raincoat ou a Chelsea Hotel) mas perante tal verborreia, sou eu que lhe digo: eu é que não tenho força mental para muito mais do que estas palavras. I'm grownin' old and bitter e não tenho paciência para os Zés-Ninguém que se outorgam o direito de falar assim de um último concerto da vida de alguém que se dedicou a fazer música e poesia para pobres coitados como nós.
Sim, porque Cohen não é como nós. Pena, muita pena que alguns críticos armados em espertalhões (para não dizer em parvos) não entendam isso, e que não percebam que poucas, muito poucas palavras chegam para descrever aquilo que nos faz sentir mais perto da perfeição, para além das histórias da vida de cada um de nós e consequentes emoções a surgir ao ritmo daquela banda sonora a adquirir maior importãncia que a criticazinha ao baixo e ao saxofone. Pena, muita pena de todos aqueles que não viram o concerto, que não puderam estar presentes, e que lêem porcarias pretensiosas destas num jornal que eu não volto a comprar.
Haja respeito. Haja humildade. E haja Blitz...








“Leonard Cohen” por João Bonifácio:


“Em Lisboa, Cohen fingiu ser um cavalheiro sem dores de alma e, entre arranjos com mais ou menos bom gosto, desfiou as suas profecias malignas com uma voz de tempestade”

“Conta a lenda que há mais de 30 anos Leonard Cohen, supremo esteta da filha-putice arrependida, entrou no palco para um concerto empinado num cavalo branco. Ontem, sacana maior de entre os sacanas que restam (Dylan, Waits, mais ninguém), entrou - sem cavalo - a passo de trote no palco montado no Passeio Marítimo de Algés. É outro Cohen: foi-se o ópio, a cocaína que usava para combater a depressão (e que odeia), as relações turbulentas com as mulheres, as quedas. Vestido de fato e chapéu pretos e camisa branca, Cohen fingiu, durante três horas, ser um cavalheiro sem dores de alma, mas é óbvio que ele é apenas o cavalheiro que a sua solidão o obriga a ser. E como se isso fosse pouco, ainda cantou.

Começou com uma versão charmosa de Dance me to the end of love, ajoelhou-se a meio, tirou o chapéu. As meninas mais novas (severamente pintadas, em homenagem ao mestre) choraram. E, para que não restassem dúvidas de que aquele era um concerto em que o gosto do público era mais importante do que a melhor música que Cohen fez (o registo do concerto foi o de um “Greatest Hits” o menos depressivo possível), saiu uma versão jazzy de The future. A canção foi bem recebida mas há uma certa ironia em ver dezena e tal de milhares de pessoas a urrar perante uma espécie de versão cantada do Livro do Apocalipse.

De entre os vinte e muitos temas do alinhamento, o grosso veio dos álbuns dos anos 80 e 90: canções baseadas em sintetizadores, com arranjos de música de bar de hotel, de alterne de luxo. Para criar uma unidade com os temas repescados aos anos 60, Cohen optou por bateria, baixo, duas guitarras (ou alaúde), sopros (ou metais), teclas e coro de três meninas. O melhor dos arranjos veio das teclas: um velhinho Hammond salvou todo o tema que ameaçou resvalar para o pântano do piroso. No lado oposto do ringue, esteve o homem que soprava: cada vez que pegou no saxofone (ou na harmónica) reduzia a respectiva canção a um émulo de Kenny G, a um vago amontoado de clichés New Age.

Mas, surpreendentemente, houve Cohen. Em seis, sete canções, o judeu puxou o mais que pôde pela voz, atirou-se aos crescendos que caracterizavam muitos dos seus temas iniciais e levou toda a santa alminha à comoção. Bird on a wire, tirando o horrível solo de saxofone, fez muita gente ceder às lágrimas, Who by fire (em que Cohen pegou na guitarra acústica pela primeira vez) idem, Hey, that’s no way to say goodbye, ainda que demasiado aveludado nas pontas, esteve perto, Suzanne foi estupendo e depois houve Hallelujah: a voz sempre a suplantar-se, uma entrega desmesurada, os fortíssimos de percussão no tempo certo, o coro a redobrar o quebranto - algo de poderoso aconteceu ali, provavelmente a canção mais emocionante que alguma vez vimos ser cantada ou a canção que vimos ser cantada de forma mais emocional ou a canção que mais emoção vimos causar ao ser cantada. E depois disto ainda houve um So long, Marianne que espantou pela capacidade de se atirar à jugular sem rodeios.

Na secção anos 80/90, houve faixas para encher: Take this waltz, Gipsy wife, um aborrecidíssimo In my secret life, aquela chatice de Boogie Street. Tudo o que de mau há na música de Cohen das últimas décadas - os arranjos ao gosto de Julio Iglesias, o funk branco soft porno, as harmonias de guitarra à Casino do Estoril, os órgãos planantes para dois dedos de Martini em varanda de resort de luxo ao pôr-do-sol - esteve ali demasiado exposto, bem ao gosto dos turistas alemães de classe média alta.

Mas - e ainda nesse campeonato, que fica a milhas de tudo o que o homem fez quando a metafísica da carne lhe roeu os ossos, isto é (e sendo simpático), até 1979, com Recent Songs - houve faixas ao nível do que se encontra em disco: Tower of song tornou-se um monstro, Everybody knows, com pedal steel guitar, esteve acima do original, First we take Manhattan tem uma senhora linha de baixo a bambolear e I’m your man foi de um sarcasmo extraordinário - resta saber se quem cantou a canção aos berros se apercebe de que não é uma canção de charme, mas sim de patética submissão.

Faltou num concerto tão grande (três horas, vinte e tais canções) um tema que fosse de Songs of Love and Hate (a obra-prima absoluta), faltou surpresa no alinhamento, algum pudor nos arranjos, mas o grande trunfo de Cohen - além das canções - é que, por detrás daquela voz de charme e da pose de cavalheiro que está ali por acaso, ele canta: a sida, a crueldade emocional, o sado-masoquismo, o terror, o advento do fascismo, o crack, o sexo anal, o cunilingus enquanto forma de salvação, todas as coisas bonitas de que precisamos quando estamos de férias no Algarve.

Não houve as catarses do início, houve imagens de negrume escondidas entre cortinas de veludo, com cada uma das palavras apocalípticas do judeu a adquirirem a coloração da tempestade em dia claro. Pelo meio, Cohen agradeceu 600 vezes ao público em pose de caricatural humildade e apresentou os músicos 1800 vezes, como um mestre de cerimónias excessivamente cerimonioso - quem conhece Cohen sabe que aquela é a sua forma de ser sarcástico e de gozar consigo mesmo. E sabe que aquele concerto foi a forma possível de dizer adeus, porque já não consegue ter força mental para cantar (por exemplo) Let’s sing another song, boys. E, para o público, isto foi uma maneira de agradecer àquele que nos ensinou que religião é uma forma de cair, de preferência em cima de uma mulher.”







Dono de uma voz inconfundível, o poeta canadiano encantou quem o viu e ouviu em Lisboa esta noite.

Num Verão que ficará na memória dos lisboetas como o dos veteranos (o que faltou para trazer também Tom Waits?), um dos concertos que melhores recordações trará será com certeza aquele que o canadiano Leonard Cohen deu esta noite. Simpatia para dar e vender (referiu-se sempre à audiência como "caros amigos"), uma boa-disposição contagiante (por várias vezes saiu de palco a saltitar qual criança de 10 anos) e uma voz que não parece ter envelhecido, foram trunfos que Cohen usou para encher as medidas, até dos mais exigentes.

Um público maioritariamente composto por pessoas de uma faixa etária bem mais elevada que aquela que passou pelo Passeio Marítimo de Algés há uma semana, cantou, dançou e não parou de elogiar o cantor e a banda. No entanto, como comentava alguém à entrada, o cantor e escritor de canções arrasta uma legião de fãs que abarca várias gerações, pelo que não foi de estranhar a presença de filhos e netos (estrangeiros a rodos, também).

Pontualidade britânica, à hora marcada Cohen atacava já um dos seus temas mais conhecidos. "Dance Me to the End of Love" abriu um concerto de mais de duas horas, com um intervalo pelo meio. Do alto dos seus 73 anos, o cantor e escritor de canções continua um cavalheiro - chapéu e indumentária a condizer com a condição - partilhando o protagonismo com uma banda e um coro irrepreensíveis e agradecendo várias vezes o carinho de um público que até flores lhe arremessou.

Um alinhamento que não deixou de parte nenhuma das canções mais esperadas (uma pena não se ter ouvido "The Guests", no entanto) formou uma espécie de retrospectiva de carreira. Os três elementos do coro feminino fazem o contraponto perfeito (e sem excessos despropositados) à voz ainda encorpada e indescritivelmente profunda de Cohen. Os maiores arrepios chegaram, como seria de esperar, com "Hallelujah" e "Suzanne" (ambos na segunda metade do concerto) mas o momento eleito pelo público terá sido mesmo "I'm Your Man", com direito a coro bem afinado.

Sem o aparato de ecrãs gigantes, em palco o cantor de farta cabeleira branca desliza como uma sombra, fazendo ressoar a voz por um espaço bastante composto e iluminado por uma lua bem redonda. Entre agradecimentos, e antes da mensagem urgente de "Anthem", Cohen faz uma pausa para elogiar a música portuguesa e falar de um "mundo mergulhado no caos". Antes, já "Everybody Knows" e "Hey, That's No Way to Say Goodbye" tinham deixado o público totalmente rendido.

Coube a "Tower of Song" abrir com chave de ouro (e bastante garra) a segunda metade da actuação - o verso "I was born with the gift of a golden voice" arrancou, previsivelmente, ovação espontânea. "Boogie Street" é servido em formato de dueto intimista com Sharon Robinson e, antes do encore, "Take This Waltz" faz (mesmo) dançar.

O regresso ao palco é feito em passo vigoroso e bem-disposto. Com a garra de alguém por quem a idade não passou, incendeia os ânimos com "So Long, Marianne" e continua em alta com o ritmo galopante de "First We Take Manhattan". O solene "Sisters of Mercy" é apresentado depois de mais uma breve saída de palco e entrega depois de bandeja o protagonismos às Webb Sisters na prece hipnotizante de "If It Be Your Will".

"Closing Time" parecia querer encerrar a noite, mas, visivelmente satisfeito, Cohen regressa ainda para o íntimo "I Tried to Leave You". Solos para todos os elementos da banda, sempre convenientemente apresentados pelo anfitrião, numa despedida que termina em coro generalizado. "Obrigado por uma noite memorável", diz o cantor no final. Sem qualquer tipo de hesitação, retribuímos o agradecimento.


Texto de: Mário Rui Vieira

Foto de: Rita Carmo/Espanta Espíritos



sexta-feira, 13 de junho de 2008

Protecção Solar





CONSELHOS, COMO A JUVENTUDE, SERÃO PROVAVELMENTE DESPERDIÇADOS NOS MAIS JOVENS.
Mary Schmich, 1 de Junho de 1997
(tradução livre)



"Dentro de cada adulto, esconde-se um orador de fórum desejoso de sair, alguém suficientemente convencido de que possui o esclarecimento acerca do mundo em quantidade suficiente para iluminar aspectos da vida a uma audiência que preferia simplesmente passar esse tempo a equilibrar-se em cima de patins em linha. Desgraçadamente, a maioria de nós nunca será convidado para tecer considerações de sabedoria adquirida diante de uma audiência de capas e fitas, mas não existe qualquer razão pela qual não possamos entreter-nos a compor um Guia de Vida para Recém Licenciados.(ou jovens em geral)

Senhoras e senhores da turma de 1997 ( o meu ano curiosamente...)

Usem protector solar.

Se eu pudesse oferecer apenas um único exemplo de conselho, de instrução para enfrentar o futuro, seria o uso de protector solar. Os benefícios a longo prazo dos protectores solares têm sido profusamente comprovados por cientistas, ao passo que o resto dos meus conselhos têm como base nada mais fiável que as minhas calcorreantes experiências. E irei dar esses conselhos agora:

Aproveitem e saboreiem o poder e a beleza da vossa juventude. Oh, deixem lá isso! Nunca entenderão o poder da vossa juventude ou beleza até estas se terem desvanecido. Mas creiam-me, em vinte anos, olharão para fotos vossas dessa altura e recordarão de uma forma que nesta altura nunca conseguiram compreender, quantas possibilidades estavam à vossa disposição e o quão fabulosos realmente aparentavam. Não são nunca tão gordos como imaginam.





Não se preocupem com o futuro. Ou preocupem-se, mas sempre com a noção de que a preocupação antecipada é tão eficaz como resolver uma equação de álgebra usando a mastigação da pastilha elástica. Os verdadeiros problemas na vossa vida serão coisas que nunca vos cruzaram a mente, daquelas que roubam a vossa visão numa calma e serena tarde de terça-feira.

Façam diariamente uma coisa que vos assuste.

Cantem.

Não sejam inconsequentes com o coração das outras pessoas. Não aturem quem seja inconsequente com o vosso.

Usem fio dental.

Não percam tempo com ciúme ou inveja. Por vezes vão à frente, por vezes estão atrás. A corrida é longa, e no fim, é apenas convosco próprios.
Recordem os cumprimentos e elogios que receberam. Esqueçam os insultos. Se forem bem sucedidos nesta tarefa, contem-me como conseguiram.

Guardem as cartas de amor antigas. Rasguem os velhos recibos bancários.

Estiquem-se e flexibilizem o corpo.

Não se sintam culpados se não souberem o que querem fazer com a vossa vida. As pessoas mais interessantes que conheço não sabiam aos vinte e dois o que queriam fazer à vida. Alguns dos quarentões mais interessantes que conheço, ainda não sabem.

Consumam muito cálcio. Sejam gentis com os vossos joelhos. Sentir-lhes-ão a falta quando eles se forem.

Talvez casem. Talvez não. Talvez tenham filhos, talvez não cheguem a tê-los. Talvez se divorciem aos quarenta, talvez façam a dança da galinha no 75 o aniversário de casamento. Seja o que for que façam, não se parabenizem ou destratem em demasia. As vossas escolhas têm metade das hipóteses de sucesso. Assim como as de toda a gente.

Gozem o vosso corpo. Usem-no de todas as formas que quiserem. Não tenham medo dele, ou do que outras pessoas pensam do mesmo. É o maior e mais fantástico instrumento que alguma vez possuirão.
Dancem, nem que o único local que tenham para o efeito seja a vossa sala de estar.
Leiam as indicações de direcção, mesmo que escolham não seguí-las.

Não leiam revistas de beleza. Só vos farão sentir feios/as.

Conheçam os vossos pais. Nunca saberão quando eles irão de vez. Sejam bons para com os vossos irmãos. Eles são o vosso melhor elo com o passado, e aqueles que mais provavelmente vos apoiarão no futuro.

Entendam que os amigos vão e vêm, mas alguns (poucos) são tão preciosos que nunca os devem deixar ir. Esforcem-se para preencher as lacunas em termos da vossa geografia e estilo de vida, porque quão mais velhos forem ficando, mais necessitarão das pessoas que conheceram quando eram novos.

Viajem.

Aceitem algumas verdades inalienáveis. Os preços subirão. Os políticos prevaricarão. Vocês também envelhecerão. E quando isso acontecer, fantasiarão que no vosso tempo, os preços eram razoáveis os políticos nobres, e que as crianças respeitavam os mais velhos.
Respeitem os mais velhos.





Não esperem que alguém vos sustente. Talvez tenham um fundo fiduciário. Talvez tenham um cônjuge rico. Mas nunca se sabe quando qualquer um deles se poderá esgotar.

Não façam muitas diabruras aos vosso cabelo, ou quando tiverem 40 anos aparentarão 85.

Tenham cuidado com os conselhos que interiorizam, mas sejam simpáticos e pacientes com quem os partilha. Dar conselhos é uma forma de pescar o passado, polir o obtido, pintar por cima das partes menos bonitas e reciclar para que acabe por valer mais do que efectivamente valia.

No entanto, confiem em mim.
Usem protector solar.”




O texto é de Mary Schmich. As fotografias foram retiradas daqui e são de Rosalina Afonso; Filipe Pombo e Raul Garcia, respectivamente.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Dor de corno


É verdade, é isso mesmo: o tema é a dor de corno. Não se trata de uma dor de corno qualquer, mas da dor de corno do homem que é trocado por outro ou, na melhor das hipóteses, não é trocado por ninguém a não ser por um vazio porque ainda há quem (justamente) pense que "antes só que mal acompanhada".

Obviamente, homens e mulheres, ninguém gosta de ser trocado e, muito embora as mulheres sofram de um certo síndroma de vingança, má língua junto das amigas e comportamentos explosivos de ressabiamento, os homens na mesma situação padecem de um mal que, a longo prazo, é destrutivo, designado por rancor. É verdade: os homens são muito mais rancoros e orgulhosos e mantêm as aparências no que concerne ao facto duro e cru de terem sido enganados ou rejeitados, mas no fundo... no fundo corroem-se de dor e angústia, nunca encarando bem a situação, negando a sua própria condição de "corno". A sua própria dor.

No que se reflecte, então, este tipo de comportamento?
Na amargura perante o sentimento romântico, na desconfiança do género feminino ("as mulheres são todas umas cabras" ou "não se pode confiar nessas p...." são afirmações recorrentes), no acto de mudar de passeio quando vêem o seu objecto de afeição ou, em actos mais drásticos, furar pneus de automóveis, perseguições pelos sítios habituais de passagem ou frequência e telefonemas anónimos em cabines públicas, apedrejamento aos vidros lá de casa ou as figuras tristes no local de trabalho. Ainda há a clássica bebedeira e consequente torrente de insultos, tanto à ex-namorada como ao respectivo e actual namorado da mesma.

Conclusão: mais vale que digam tudo duma vez, que insultem e chorem e apanhem as bebedeiras de seguida durante um ano, e se curem, do que andar a mastigar a paixão antiga, o passado de forma a conseguir salvar, não uma relação de "amizade" com a suposta ex, mas a relação consigo próprio.



Fica o vídeo que, no fundo, foi o que inspirou o post, bem como a lembrança de tantas e tantas situações conhecidas de pessoas que ainda não conseguiram ultrapassar as suas próprias situações. E lembrem-se: corno, já todos fomos na vida..






quinta-feira, 5 de junho de 2008

"Faz-me um filho!!!"

... deve ter sido o que a rapariga nipónica pensou depois de ter ouvido um dos grandes nomes da música neste "Mercy Seat".
As coisas que uma pessoa descobre por mero acaso...





quarta-feira, 4 de junho de 2008

The Good Night





Mel: "Sometimes I wish that you could just hit the sack and never wake up. If your favorite song never ended, or your best book never closed, if the emotions mustered from these things would just go on and on, who wouldn't want to stay asleep? The guy who discovers that perpetual dream, he's my man. "

segunda-feira, 2 de junho de 2008

A Arquitectura Portuguesa dos dias de Hoje

::da impossibilidade de crítica da arquitectura::
::memória [in]descritiva::

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É recorrente a queixinha dos arquitectos que
“não me deixam trabalhar”,
“não me deixam criar”,
“só contrariedades”,
“o cliente não quer”,
“o lote tem uma péssima implantação”,
“o promotor não tem orçamento e tem péssimo gosto”,
e por aí além numa espiral de desgraças que impedem o livre curso do disparate.

È verdade que temos maus clientes, tão maus como a mediocridade cultural. É verdade que temos péssima construção, tão má quanto o empenho de toda a equipa no desenvolvimento de um projecto [do trolha ao arquitecto].
A rotina burocrática que ampara a arquitectura corrente [porque é o grau 0 da arquitectura que me interessa e não a excepção género Carrilho da Graça], não é responsabilidade de toda a gente à excepção dos arquitectos. Os pobres arquitectos, colados como lapas ao corporativismo de classe passam a vida a fazer merda e a atirar a água para o capote alheio.

(...)



Como tudo na vida, também a arquitectura está sujeita ao erro e à prova. Os erros acontecem em projecto [mostrem-me um projecto no mundo que exista sem uma gralha que seja!]. Os erros acontecem em execução, por deficiente leitura das peças desenhadas ou por outros milhares de factores.
O trabalho do arquitecto é também aprender e incorporar o erro no próprio objecto arquitectónico. Porque a realidade e a humanidade não é imune à falha. E porque a arquitectura é para a realidade.

#joão amaro correia


































a arte respira e expira e imita a vida. nada existe sem os conceitos tornados reais e qualquer produto da imaginação de alguém reside num espaço próprio inserido neste planeta azul. feito de linhas e volumes e estruturas e realidade subjacente. tal como um vestido, um automóvel, ou uma caneta, uma casa não pode ser um objecto indissociado daquilo que somos. da nossa identidade. a nossa continuação, portanto. o invólucro das nossas vontades, o porto de abrigo para o qual nos refugiamos. onde tudo acaba e começa. o reduto das nossas memórias e cenário das aventuras protagonizadas por cada um de nós. pensar a arquitectura de uma forma séria, em que surja como uma real opção e não mera condição e consequência de tudo aquilo que o dinheiro pode ou não comprar, é pensar em diversos factores que fogem às desculpas do costume da grande maioria dos arquitectos já enumeradas anteriormente por joão amaro correia. a liberdade do criativo. é trampa. partir do princípio que tudo corre sobre rodas, os tais factores podem resumir-se apenas a dois aspectos: o enquadramento urbanístico e paisagístico::e mais importante: a quem se destina. o que o cliente quer e deseja. já tive esta discussão interminável com um arquitecto, na qual ele discordou acerrimamente comigo. penso que um corte de cabelo pode ser arte. um prato gastronómico é arte. um vestido é arte. a dança é arte. um filme. a maioria dos arquitectos tende a negligenciar todos estes aspectos, ignorando que tudo isto é vida. e arte. a perfeição, a beleza e tudo o que produza sentimentos por via de uma exteriorização concreta ainda que fugaz. é arte no século XXI. e tudo isto cabe dentro duma casa e deve coexistir em harmonia. na medida dos desejos de quem lá habita.




segunda-feira, 26 de maio de 2008

Californication

Isto, não foi, em momento algum, um amor à primeira vista. Confesso que não. Após o primeiro episódio, uma certa náusea terrivelmente estonteante abraçou o meu sentido crítico e pensei "lá vem mais uma série tipo Nip Tuck", uma espécie de O Sexo e a Cidade, mas desta vez, no lugar da minha emblemática NY, colocaram LA, que é a cidade que sempre atribuo a um certo anti-herói de seu nome Lebowski. Mas isso são outras histórias. E um facto que quase mulher nenhuma gosta de admitir: aquela certa impressãozinha em tons de verde após o visionamento de tanto par de mamas e gajas boas num mesmo episódio. Pensei "o Nuno deve estar a brincar comigo, só pode. Este gajo envia-me uma série perfeitamente masturbatória e ainda por cima é só GAJAS?!?" Maus fígados instantâneos. O gajo ao lado só dizia "sim sim amor, tens razão, estas gajas com as mamas de fora enjoam-me, são umas porcas".... Vocês, homens, e esse hábito de nos protegerem de nós mesmas com toda a hipocrisia do mundo nas palavras que imaginam que a nossa melhor amiga nos diria em semelhante situação, quando apenas nos vai uma coisa na cabeça "porque raio não tenho eu um cu daqueles?"





Hesitei entre colocar isto no Beautiful Losers ou aqui, em espaço aberto, porque pode sempre ferir as susceptibilidades de quem ande por aí a vasculhar em motores de busca, coisas designadas por palavras como Amor, Felicidade, Ambição, Sonhos e Perfeição e encontre algo tão cáustico como mamas, sexo e fornicação. No fundo, é um pouco de tudo isto que tratam estes doze episódios. Não gostei dos dois primeiros episódios, pareceu-me algo inconsistente e até inverosímil, não só pela questão do preconceito confessado, mas por uma certa incongruência da própria personagem. Depois, aconteceu aquilo que penso que deva acontecer com a maioria das mulheres que conhecem aquele homem, menino perdido, escritor com bloqueio, apaixonado pela ex-mulher mas completamente fodido daquela cabeça. Sim, eu escrevi completamente fodido. Perdido. Com a sensação de vertigem debaixo dos pés e sonhos toldados pela perda da mulher que sempre estivera lá e deixou de estar.

Somos todos um pouco assim. Somos todos peças de uma grande peça, manobradas por uma força universal superior que parece dizer-nos a todas as horas para darmos os passos errados na nossa vida. O "fazer merda", a prática errante e criticizante contra a correcta e saudável teoria. A perda de oportunidades de se ser feliz. O querer recuperar de uma certa beleza a todas as horas. O inferno não debaixo de chuva, como sempre é suposto (a estética do sofrimento, deus meu!) mas debaixo de sol ardente. Um carro fantástico todo riscado, de farol partido. O humor sarcástico que sai sempre sem ser pedido. O portátil partido contra a parede. O fazer o que lhe apetece. O fumar e beber a todas as horas, a falta de práticas de vida "saudáveis". Os finais infelizes. Muito infelizes. Miseráveis. A esperança de alguma forma, no meio da sarjeta.






E a miúda da série, a filha Becca é a cara da minha grande amiga Sara (muitos risos).

* a cena que me conquistou definitivamente foi a cena de sexo entre o Hank e a amiga quarentona, em que ele parte e vomita a tela do querido Bill (e todos entram no quarto)... hi-la-ri-an-te.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Há blogs que me exasperam por diversos motivos. Aqueles blogs a armar ao pingarelho cheio de palavras muito bonitas que foram retirar de livros e discos que têm lá por casa. Plágios. Assim é fácil ter um Blog. Como se de repente não fôssemos nós todos pessoas crescidas com mais livros e discos em casa. Genuínos, são poucos. Eu posso não escrever nada, nadinha de jeito, mas não faço cópias e assino por baixo o meu nome. Acho indecente. Enfim. Isto sou só eu e os meus maus fígados. Ando a perder a paciência para esta merda toda, hoje é um daqueles dias... exasperantes. Não se lê quase nada de novo. Não há nada de novo, os academismos efernizantes e a puta-que-pariu-o-Ingmar-Bergman-e-artistas-de-década-de-trinta cujos seguidores são os pseudos forinhas (ai que nojo que eu lhes tenho) fizeram com que tudo isto comece a atrofiar. A secar. Os donos da razão intelectualizante. Só apetece beber aguardente por uma palhinha. Mas siga. Siga siga....

Existem os outros. Aqueles que vale a pena ler. Reter. Na alma, no coração. Aqueles que nos prendem com as palavras, com as imagens. Existem os subentendidos que aprendemos a seguir pois deixámo-nos de ler para começar uma amizade ou simplesmente deixá-la a marinar em palavras. Em imagens. O que eu gosto de ler as entrelinhas da minha querida Sofia, aquele sarcasmo inspirado como só ela... as palavras infinitas e a racionalização dos conceitos em espiral do meu querido Nuno... ou a doçura da minha Ana... a dor sentida e por vezes mascarada de alegria e de tudo o que sei que é a alma da minha querida Sara... e sempre o meu amado Paulo que tem as fotografias mais puras e lindas de toda a blogosfera... sei lá. São poucos. Isto não é uma homenagem nem nada do género mas são estes poucos que me fazem voltar sempre a este Blogger. A este espaço. E todos aqueles que leio e não comento. Como este.

Sem palavras.










Lembro-me de naquele tempo não haver sequer vento, de não se agitar uma árvore lá fora e de haver um terraço apenas com roupa estendida e o cheiro do sabão espalhado nos tecidos. Lembro-me apenas de coisas mínimas. Do cheiro das laranjas que apodreciam no chão irisadas na luz que se entornava então sobre a terra. Lembro-me de naquele tempo sentir que cada palavra era uma distância. De sentir as coisas espalhadas no chão do meu quarto e de sofrer por só lentamente me poder aperceber de que tudo estava radicalmente só e dividido. Lembro-me, aliás, de naquele tempo ter dividido pela primeira vez as coisas do mundo: o chão e os frutos, as árvores e o céu, as ondas e o mar. Lembro-me de ter visto pela primeira vez o mundo representado nas asas de uma borboleta: cada asa é uma pessoa, murmurei, e cada borboleta é o pequeno prodígio de haver um mundo. Pensei que as asas de cada borboleta poderiam ser duas pessoas que ora se encontravam ora se perdiam para uma distância que na tensão da presença jamais poderia ser infinita. Pensei que o equílibrio de haver borboletas era justamente este ofício do encontro: no meio da borboleta estava o labirinto de haver um possível, de haver um animal sozinho na viagem das pessoas que o construíam para a sua morte. Não havia vento naquele tempo: as borboletas repousavam sem perturbações nos círculos de água da minha face. Lembro: cada asa tem o seu duplo como cada lábio tem o seu par, disse. Pela areia do sono descia ao fundo do meu coração e lembro-me, recordo-me muito bem de no interior do meu quarto ter construído uma margem de silêncio onde mais tarde entrancei o teu cabelo e casei o movimento dos teus pés descalços na areia das praias. De tudo isto fiz borboletas. Das ondas e do mar, do teu cabelo, dos teus olhos nos meus. Do teu corpo em ti própria. Cada borboleta regressa a si mesma como uma flor ao nascer da luz: fixando o sol, das asas nasce o animal e do animal nascem as casas, as palavras e o amor. Depois a borboleta faz uma escada para trás, para o seu deserto, para o fim do poema, para o fim de todos os poemas. Eu apago os passos: cada borboleta apaga então o que deixou pela areia: uma escama de luz, um pedaço de asa. E se chegou ao céu por voar, regressará a casa porque consegue pisar por amor o coração sem asas nem animal que lhe resta. Naquele tempo era tudo como me lembro hoje: a casa lá fora estava deitada sobre a luz, cá dentro não se agitavam as árvores e as palavras beijavam-se entre o silêncio. As coisas continuavam espalhadas pelo chão do meu quarto. E eu? Recomeçava, eu.


in http://a-manh-ser.blogspot.com/

quarta-feira, 21 de maio de 2008

my blueberry nights













Há em Elizabeh um sonambulismo, uma atitude de quem observa a vida mais do que participa nela. Por isso, apesar de percorrer a América, são mais os outros que passam por ela. E os outros são personagens americanas - Arnie (David Strathairn), destruído pelo desgosto depois da mulher o ter deixado; Sue Lynne (Rachel Weisz), a mulher que o deixou, fatal (como era fatal a mulher de cabeleira loura de "Chungking Express"), a entrar no bar onde Elizabeth trabalha, para uma última, derradeira, discussão com Arnie, o polícia (como eram polícias duas das personagens de "Chungking..."); Leslie (Natalie Portman), viciada em poker, a viver no risco (como a tal mulher de cabeleira loura vivia no risco). Wong Kar-wai, portanto, mas na América. E na América o realizador de Hong Kong sai dos espaços fechados, dos corredores, galerias, labirintos de casas, lojas, restaurantes, calor, corpos que se cruzam, que se empurram, que esbarram, que passam como traços de luz, que se fecham em quartos minúsculos, e lança-se nos grandes espaços abertos, estradas, paisagens imensas - para, assim que pode, refugiar-se novamente no interior de um bar e na angústia de alguém que não consegue mover-se ou que não consegue parar. Está lá, como em todos os seus filmes, o tempo que passa, para Elizabeth - como um prazo que tem que expirar, como as latas de ananás em conserva que o polícia come em "Chungking Express" - e o tempo parado, para Jeremy (Jude Law), que espera pelo regresso dela, enquanto revê a velha cassete de uma câmara de vigilância. Está lá o momento perdido, as pessoas certas no momento errado, o que podia ter sido, o que fica adiado...


Excerto da crítica de Alexandra Prado Coelho, no "Público", "roubado" no Intruso.


sexta-feira, 16 de maio de 2008

Pensamento do(s) Dia(s)... e esqueletos do ofício



"Senhor, dai-me sabedoria para entender alguns colegas, porque se me dais força, parto-lhes a cara!"




What can I possibly say?...
Há dias assim. Semanas. Interminavelmente aborrecidas e extenuantemente gritantes. O Inferno são mesmo os outros. Colegas de trabalho, neste caso. As noites e finais de tarde a compensar as manhãs. E algumas tardes também absolutamente execráveis (esta palavra lembra-me um colega que me disse certa vez:

"Ana, fui ver ao dicionário aquele termo que usaste no outro dia."
"Qual?" perguntei
"Execráveis"
Silêncio
"És mesmo má..."
"Porquê?..."



Os subentendidos que os entenda quem conseguir lá chegar.
Há profissões tramadas, sobretudo aquelas que têm a componente humana e relacional como sendo parte do seu quotidiano, a todas as horas. Seria incapaz de ter um daqueles trabalhos de gabinete, é certo, mas não coloco de parte acabar assim os meus últimos vinte anos de carreira. Seja ela qual for. Admito que, e isto, sem ponta de regozijo pessoal, a minha profissão é assaz esgotante e desgastante no que concerne a troca de pontos de vista, em que todos julgam ser os máximos conhecedores relativamente a qualquer assunto. Seja uma teoria académica, seja a vida da vizinha do lado. Ou da colega do lado.
Existem os baldas, existem os teimosos, existem os presunçosos, existem os "velhos", máximos doutos e existem os novos, maçaricos armados em campeões. Existem os chatos, aborrecidos, teóricos e líricos, existem os idealistas utópicos e existem os desinteressados. Existem os que não abrem a boca pra nada e existem os que abrem a boca pra tudo. Existem os que se borram de medo das chefias e existem aqueles que, tendo uma posição hierarquicamente mais elevada que o resto dos grupos e demais colegas, assumem cristas de galos empoleirados. Os que têm a mania e os que não têm espírito.
E depois há o pior: as reuniões, que são aqueles momentos lindos em que toda esta gente se reúne a debater coisas como o próprio nome das coisas. Uma hora a falar do mesmo. Uma outra meia hora a divagar sobre meia dúzia de coisas que só interessam ao próprio e outra arrastada meia hora a falar de algo que vai ser alterado, porque as alterações são constantes e ainda nos vêm com as tretas da estabilidade e qualidade etc etc etc num enorme e redondo etecetera a perfazer duas horas de quase nada, que é afinal o que nós temos em excesso nos nossos locais de trabalho: conversa da treta que não resolve nada. Papéis, muitos papéis, quase tantos como os cargos. Burocracia feita pelos amantes do atraso e arrastamento do processo...
Em resumo e porque não há muito mais que falar sobre o assunto, as pessoas cansam. Todos incluídos. Muitas palavras desnecessárias, muitos gestos a denotar que somos muitos ao mesmo. Intromissões e conflitos de personalidade. Falhas no equilíbrio natural da evolução dos relacionamentos. Alguns safam-se, mas a grande maioria começa a desconhecer cada vez mais o significado da palavra "parceria" ou "companheirismo". Em conclusão, posso bem considerar-me uma pessoa de sorte; deixo sempre o meu grandessíssimo mau feitio à porta da instituição de trabalho e tenho encontrado boas pessoas no meu percurso, mas dá sempre uma enorme vontade de rir todas as diferenças gritantes que nos separam logo à partida e são nítidas nas interjeições verbais das pessoas.
O que interessa? É que estamos já à beira do fim-de-semana.
(BIG BIG smile)
*dedico este post à minha colega Mila de quem tenho tantas e boas saudades, como pessoa e como colega.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

the darjeeling limited












Francis: [Francis and Peter are beating each other up] You don't love me!
Peter: Yes I do!
Jack: I love you too, but I'm gonna mace you in the face!











Jack: I wonder if the three of us would've been friends in real life. Not as brothers, but as people.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Metrossexualidade vs Futilidade


"Um grupo de cientistas do Uganda descobriu uma bactéria que pode estar na causa na metrossexualidade. Segundo o cientista responsável pela investigação, a bactéria em questão é encontrada em larga escala nos ginásios e health clubes, devido à grande quantidade de suor que normalmente se encontra nestes espaços.

Foram feitos vários estudos a metrossexuais e em diversos ambientes que lhes são familiares, nomeadamente em ginásios, solários, cabeleireiros e lojas de moda.

Chika Kan, responsável adjunto pela pesquisa, afirma: “Os resultados do estudo são claros: qualquer homem, dito “normal”, pode ir sem medos ao solário ou à pedicura que não existe o mínimo risco de se vir a tornar um metrossexual, no entanto, esse mesmo homem “normal” ao deslocar-se uma vez que seja a um ginásio, e por muito macho que seja, pode vir a contrair esta perturbação através da bactéria em estudo. Sabemos de homens que, depois de visitarem um ginásio, cancelaram todo o dia de trabalho e fizeram depilações completas ao corpo. Outros fizeram manicura e pedicura, chegando mesmo a pintar as unhas dos pés com preto glossy.

Este avanço da ciência pode vir brevemente a ter resultados concretos para a cura desta perturbação que afecta cada vez mais homens."







Posto isto, afinal o que é a metrossexualidade? Algo que se transmite como doença contagiosa? Quem a inventou?

Eu defendo que quem inventou a metrossexualidade foi um homem gay de extremo bom gosto*. Os motivos podem ser variados, na realidade, e o primeiro poderá sempre ser o de "virar" o macho, de modo a que a trupe gay aumente. É legítimo que o façam, muito embora não acredite que seja por aí. A verdade é que a grande maioria de homens ligados à moda é gay e depois de décadas a fazer as mulheres a sentir-se mais bonitas, talvez tenha chegado a vez dos homens. Mas vejamos: os tempos mudaram e os cremes de beleza, cosmética e perfumes bem como toda a indústria da moda começou a ver no homem, um potencial consumidor, atento e vaidoso, com elevado poder de compra. É uma natural verificação da evolução e mudança dos tempos.

Mulher que se preze e que goste de andar arranjada, bem vestida, maquilhada e penteada não quer certamente que o seu par ande de qualquer maneira ao seu lado na rua (ou dentro de casa). Longe vão os tempos em que o homem só tinha de fazer a barba e tomar o seu duche com gel de banho. Tudo mudou, quase de uma geração para outra, abruptamente. Hoje em dia um homem usa um hidratante, um creme de contorno de olhos, perfumes diversos e gosta de escolher o que veste, de acordo com um estilo próprio que deve cultivar. Obviamente chegamos também a um extremo (porque existem excessos em tudo) de homens que usam vernizes, e maquilhagem que era apenas destinada a mulheres, é agora também utensílio masculino na arte de bem parecer. Marcas como a Chanel e Jean Paul Gaultier têm maquilhagem específica para homem.


Será um homem menos homem ou menos heterossexual por usar verniz preto? Gostará menos da sua parceira por gostar mais do espelho?


A questão é que todos nós temos um estilo (muitos não têm estilo nenhum, ok, mas a grande maioria tem um estilo definido) e todos nós temos uma relação próxima de amor-ódio com o espelho que, à partida, deveria ser preservada e muito daquilo que é reflectido nesse espelho, não é somente a beleza que a Natureza nos deu, mas fruto de tudo aquilo que fazemos para cuidar da nossa aparência e dos cuidados que temos connosco próprios. A saúde passa por determinados comportamentos, e isso reflecte-se na beleza que exteriorizamos ao mundo. Portanto, não acho nem considero fútil alguém, homem ou mulher, cuidar de si. Cremes, maquilhagem, perfumes, roupas giras, acessórios, etc, e uma panóplia de cuidados alimentares e exercício não fazem mal a ninguém. Muito pelo contrário. Fútil é alguém dar uma imagem daquilo que não é. Ou uma colagem apenas porque é moda. Um gajo gordo de t-shirt rosa justa com verniz preto nas unhas dos pés em sandálias brancas e cabelo em pé é uma visão do Inferno. E de metrossexual nada tem. Existem preconceitos errados, a meu ver, relativamente ao conceito de metrossexualidade, e esse é um deles. Porque nem sempre o que é fashion fica bem a toda a gente. E nem todo o homem que gosta de usar um creme é "paneleiro". Muito gajo armado em macho, com medo dos estereotipos espera que a mulher saia de casa para usar certas coisas. E nada tem a ver com homossexualidade. Tem a ver com curiosidade e coragem de dar um passo em frente na hora de saber e querer agradar. Sem medo do que os outros possam dizer.


Metrossexual não tem de ser sinómo de pindérico e o que mais tenho visto por aí são gajos pindéricos armados em metrossexuais. Obviamente nem toda a gente tem um corpo e uma cara como os do Beckham, mas por isso há que saber encontrar um estilo e saber preservá-lo. Com sensibilidade e bom senso. Eu, como mulher heterossexual que sou, agradeço.


Já agora, que nome aplicar a mulheres que não gostam de se arranjar ou maquilhar, colocar perfume, usar acessórios, ou fazer tudo aquilo que um metrossexual faz e afinal de contas é suposto uma mulher gostar?...



*também há gays de extremo mau gosto.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

pessoal do algarve = pessoal fodido






Esta pode ser uma expressão afirmativa com os seus quês e quejandos interrogativos, uma interjeição algo dúbia que nos coloca a seguinte questão: afinal o que é isso de se ser fodido? Sem sombra de dúvida, é um dos comentários mais curtos e mais certeiros que recebi nos últimos tempos, que me colocou um sorriso nos lábios, em grande parte por ser uma algarvia muito isolada e por isso habituada a não ter conterrâneos por perto na hora de "defender a sua terra". Por outro lado, por lembrar velhas e recentes discussões acerca desta temática. O bairrismo. Ou como quem diz "o meu pai é maior que o teu". A meu ver, são estúpidas e desnecessárias, mas isso sou eu que de bairrista pouco tenho.


O contexto do dito comentário: deixar certas coisas para trás, o amor ou o que nos prometeram ou o que nos fizeram crer ou o que nos roubaram sem pedir licença, sem retaliar pode deixar aquela sensação de que ficou muito por dizer, mas a dada altura pensa-se que foi melhor assim, não fica a névoa do que seria esperado. a isso podes sempre chamar a capacidade de contornar a situação. lembra-te da frase sobre a carne e os ossos. que os comam e que os roam. isso já não te dirá respeito.


A propósito de uma carta sobre o costumeiro assunto do mal de amor ou dor de corno. Mas poderia ser a respeito de muitas outras coisas que isto de se ser “pessoal ou malta do Algarve” tem mais que se lhe diga. Não somos como os outros, dado que os outros não serão todos iguais, mas de entre uns e outros, distinguem-se os “do Norte” e os alentejanos. Os primeiros, têm a mania que são melhores que todos os outros (principalmente em relação aos de Lisboa, alfacinhas na gíria) e os alentejanos são aqueles que estão habituados a ser vistos como os mandriões cá do sítio.

Sinceramente, um algarvio, a sê-lo convictamente, acredita que não tem de se chatear a defender a sua terra, porque está provado por inúmeras razões que esta, é uma das regiões mais belas do mundo. O Algarve é uma região de inúmeras tradições, lendas, onde se come e bebe bem, para além de ter um clima privilegiado pela condição geográfica junto ao mar Mediterrâneo, onde sofre os ventos vindos do Norte de África. Não é só praia, mas não serve o post para descrever as maravilhas do Algarve. A grande questão que se coloca é se afinal, nós, nesse colectivo sempre tão subjectivo, seremos assim tão fodidos?


Penso que quanto a males de amor, assimilamos tão bem ou melhor que os outros as vicissitudes do sofrimento romântico, até porque há sempre muito que fazer: ir à apanha do tomate ou da laranja, do figo ou da alfarroba, da amêndoa ou simplesmente dedicar-se à pesca. Se curar a dor de corno não passa por trabalhar arduamente nestas culturas, pode-se sempre apanhar uma bebedeira de aguardente de figo ou de medronho (amêndoa amarga é pra malta fraquinha que é do Norte e pensa que cá em baixo só fazemos amarguinha), ou simplesmente deleitar-se numa praia daquelas que só nós, algarvios, conhecemos os atalhos, e apanhar sol até torrar a dor e o sofrimento. Isto, quando se quer esquecer e passar à frente, que há mais marés que marinheiros.





Se se resolver dar asas a pensamentos tenebrosos com requintes de malvadez, é escolher uma paisagem ali para os lados da serra de Monchique e ficar a bater mal durante uns tempos, ao som de Micah P. Wilson ;) e aí sim, talvez um ou outro algarvio possa então ter razões que o levem a afirmar que o pessoal do algarve é pessoal fodido. É que depois disso, é um caminho sem retorno e, muitas vezes, um algarvio quando resolve desaparecer da vida de alguém, é para sempre.



P.S.: este post é dedicado ao mê amigo Jorge que é ali dos lados da terra do bom medronho, e ao mê amigo da merda que acha que a batata doce é dos melhores produtos que o Algarve vê crescer ali para os lados de Aljezur.

sábado, 3 de maio de 2008

sexta-feira, 2 de maio de 2008

As coisas mais simples da vida





Às vezes tudo se pode resumir a isto: falar ou escrever com o propósito de exorcizar o veneno que vive cá dentro. Eu pratico esse exercício e por vezes não chega. Eu que o diga. Inventei um Blog há uns anos por intermédio de um bom amigo com a intenção de trocar ideias sobre as mais diversas temáticas. Individualistas como somos, aquilo acabou por não ir a lado algum. Simples. Depois inventei um Blog só meu, e à semelhança de um brinquedo novo, aquilo era sentido como sendo mesmo meu. E exorcizei dores do passado. Fez-me bem. Simples.


O tempo avançou até ao dia de hoje, e as coisas simples da minha vida tomaram forma a poderem coexistir umas com as outras. As mudanças ditas naturais da vida tornaram-se parte integrante de uma evolução que tomou relevo numa existência já de si complicada, que é a minha, e que no fundo acabo por nunca abrir nem em Blogs nem em muitos sítios. E todas elas foram bem-vindas. Como essas, algumas pessoas que entraram com mérito de passadeira vermelha e por lá se mantêm até hoje. Simples. Acontecimentos e factos trazem pessoas. Mudanças. Trocas e baldrocas e feitas as contas, depois de mudar muita e tanta coisa, o que é essencial mantém-se. O constatar que, por mais anos que passem por mim, alguns defeitos são irreversivelmente os mesmos. Outros, desaparecem e dou por mim a pensar que estou a amolecer. Já não ligo a muita merda, mas ligo a muita outra. Não gosto que se metam na minha vida, porque a não ser que me peçam, eu não me meto na vidinha de ninguém. E quando não gosto, não gosto mesmo. E quando gosto, é até morrer. Salve-se a capacidade de perdoar quem amo. Quem mais amo. Quem sempre amei e quem prometo todas as honras dentro da minha casa. Continuarei a não ser de meios termos, característica essa que tenho vindo a perder nos últimos meses, e da pior forma, com a mania de "tentar ser mais tolerante". Definitivamente, não há paciência para aquela colega com aquele sotaque irritante com um cu de meio metro aos berros pelos corredores. Nem há paciência para todas as brincadeiras de profundo mau gosto, muito menos provindas de inveja mal digerida de meia dúzia de coisas na nossa vida. Nem tem de haver. E por isso, o mal que se torna generalizado na maioria dos casos com que tomo contacto e vejo na vida de amigos próximos, instiga-nos a que nos "vamos abaixo". E vamos todos ao fundo de quando em vez. E acabamos sempre por nos levantarmos.


Há pessoas que precisam desesperadamente de uma palavra, que lhes digamos que estamos lá para elas, no matter what. Há outras que, ao invés de silêncio e/ou desprezo ou que façamos simplesmente de conta que não as vemos e não as ouvimos, precisam de uma abordagem e sacudidela das grandes patente numa frase do género "vai morrer longe" ou um belo testamento escrito a provar por A + B que não andam por cá a fazer nada, e que podem sempre contribuir para a estatística das taxas de suicídio que têm e devem ser actualizadas.
E tudo isto é simples. Basta que o queiramos. Basta que estejamos atentos. O melhor de tudo é soltar umas boas gargalhadas nos piores momentos e há-de haver sempre alguém por perto para se rir connosco. Todos temos bons e maus sentimentos dentro de nós, sem excepção. Resta saber com quem fazer o quê.
O tema torna-se recorrente e vejo-o retratado em diversas formas pelos poucos Blogs que leio ultimamente. Chego à conclusão de que andamos todos um bocadinho fartos do estado de algumas coisas, o sentimento português de que algo poderia sempre estar melhor prevalece em detrimento da fé e da esperança de que tudo pode correr melhor. Em certos casos, trancas à porta e sem hipótese de fuga ou redenção. Noutros, os mais preciosos, é guardá-los como tesouros bem junto ao coração e saber construir para quem nos vai saber retribuir. Nem que seja com um sorriso.


Ontem disse e sinto-o em todas as palavras a alguém, que estou a ficar farta de pessoas. Da grande maioria. Não de todas. Algumas pessoas conseguem fazer com que nunca nos cansemos delas e alternar a paz de espírito com que nos presenteiam com o desafio constante de nos trazer coisas novas à nossa vida, é abraçar um raio de luz e viajar dentro de mundos vastíssimos que no fundo, traduzem as coisas mais simples da vida.


* dedico este post ao NAJ (grande imagem!) que tem sido um grande amigo nestes últimos dez anos, nas condições mais adversas a que uma amizade pode estar sujeita; à Sara, amiga de todas as horas e de sempre, e ao meu maior e melhor amigo, companheiro e confidente, travesseiro a quem conto os mais negros pensamentos, os mais satânicos, com quem choro e sobretudo, rio e sou muito feliz, o Paulo. O meu obrigada por existirem e darem um pouco mais de sentido à minha vida.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

April is the cruelest month II










Dois grandes autores, dois grandes músicos, homens do seu tempo ou talvez um pouco à frente do mesmo. Música da minha adolescência, e do início da fase da idade adulta jovem (seja lá o que isto quer dizer para cada um de nós). O tempo passa veloz e deixa-nos obras como feridas na alma, de pessoas que partiram demasiado cedo. Lithium ou Smells Like Teen Spirit ou La Decadanse ou Bonnie and Clyde... qualquer uma serve para ressuscitar velhos amigos que tenho em certos fantasmas. Suicídio ou nascimento, tudo faz parte dessa terrível dicotomia que se veste de Vida e Morte e toda ela acontece em Abril. Como não podia deixar de ser.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

April is the cruelest month





Em jeito de despedida. Ou de balanço. Ou que é como quem diz "Estamos fechados" "We're closed". Porque há pedaços de nós que se prendem mais depressa numa porta de comboio mal fechada do que na memória dos outros. Isto já teve melhores dias, de facto. Salve-se Abril. Salve-se a poesia e os dias mundiais de coisíssima nenhuma.

Por lá, está aberto apenas a muito poucos. Desculpem. Estas palavras e esta pérola dos Wilco (velhinha velhinha, mas muito boa) são para vocês, os que tiveram de ficar de fora. Como dizia o "outro"... "aos que lá ficaram!"


Sejam felizes. Até sempre.

What can I possibly say?...

Conteúdos temáticos de extraordinário interesse para o comum dos mortais

Expresso

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Visão

Tretas que morreram de velhas...

A Treta Mora ao Lado...